"Como diz Aga Khan: somos, primeiro, filhos da nossa pátria e depois vem a pertença religiosa"

Chegou a Portugal em setembro de 1974, meses depois do 25 de Abril. Como muitos outros membros da comunidade ismaili, veio de Moçambique. É professora universitária, investigadora de assuntos islâmicos e deu aulas no Centro Ismaili de Lisboa, onde, há dias, um afegão matou duas mulheres. Faranaz Keshavjee, muçulmana portuguesa, analisa o que, pelo que se sabe, terá sido um crime e não um ataque jihadista como tem acontecido noutros países europeus.

O ataque desta semana deixa de luto a comunidade ismaili. Ao que se sabe, trata-se de um homem com muitas vulnerabilidades, um refugiado afegão viúvo e com três filhos, mas que atacou precisamente aqueles que lhe estavam mais próximos e que o estavam a ajudar. Encontra explicação?
Imediatamente, é muito difícil de perceber, mas por outro lado, eram as pessoas com quem ele tinha um relacionamento para ele se poder integrar no país. São as primeiras pessoas a quem ele se terá dirigido. Vi uma entrevista dele num canal televisivo em que ele, já há um ano, falava das dificuldades que enfrentava e sobre todo o processo de frustrações sobre frustrações, no sentido de ter as ajudas que precisava. Porque sendo viúvo, jovem, com três filhos muito novos, precisava de ajuda e não conseguia que essas ajudas chegassem para que pudesse sentir que estava a ter o apoio que era necessário. Não estou a querer desculpabilizar ninguém, mas imagino-me com três filhos pequenos e, não sabendo o que fazer, ficaria um bocadinho à nora. Acho que isto é sempre uma questão dramática quando há filhos, especialmente em pessoas como ele que vêm profundamente marcadas com experiências horríveis. Vocês jornalistas têm feito vários trabalhos sobre a forma como eles vêm, as condições em que viajam e aquilo que passam no próprio terreno de onde vêm. Chegarem vivos a um sítio é uma sorte, ficarem presos num local durante muito tempo, sem saber quando vão sair, é outra tortura. Ter sido vítima de uma situação de incêndio em que a mulher morre e os três filhos ficam com ele... até pensei que o rapaz fosse mais velho, mas tem 28 anos, é o que consta. Os interlocutores dele eram aquelas pessoas, mas não sei o que terá acontecido, o que terá espoletado aquele tipo de comportamento da parte dele, um comportamento inaceitável e doloroso. Estamos todos chocadíssimos na comunidade ismaili e fora dela. Todos temos recebido centenas de mensagens de amigos e líderes das organizações da sociedade civil mostrando solidariedade e apoio e, inclusivamente, vontade de ajudar a cooperar.

"Não sei o que terá acontecido, o que terá espoletado aquele tipo de comportamento da parte dele, um comportamento inaceitável e doloroso. Estamos todos chocadíssimos na comunidade ismaili e fora dela."

Infelizmente, há duas vítimas mortais. Duas muçulmanas portuguesas, ismailis. Conhecia alguma delas pessoalmente?
Dei aulas no início quando o Centro Ismaili abriu, porque estava a estudar na Universidade de Cambridge e tinha um acordo com a parte da educação religiosa da comunidade. Trabalhei durante quatro anos como expert na área e dava formação e aulas lá dentro, e sim, formei muitos jovens. Existe muito trabalho voluntário dentro da comunidade e eu dava formação aos formadores. A rapariga mais nova não a conhecia, mas a mais velha é uma parente minha, é filha de um primo meu em segundo grau. E sendo uma comunidade pequena e muito endogâmica, somos todos muito familiares uns dos outros, o que também é uma felicidade para podermos estar perto e apoiarmo-nos mutuamente. Sempre a achei uma rapariga mais nova, não fazia ideia de que estivesse quase a fazer 50 anos, e esteve sempre ao serviço. Ela fez um trabalho excecional com os ismailis que estão em Espanha e deixa muita gente muito desolada e triste com este acontecimento.

Este ataque é muito grave, já o disse aqui, mas partilha da ideia das autoridades portuguesas de que não se trata de nenhum ato de terrorismo islâmico, mas sim de um ato isolado, um crime?
Sempre tive alguma dificuldade nesta qualificação dos atos terroristas e levo sempre com contra-argumentação das pessoas que são especialistas em atos de terrorismo. A verdade é que são duas décadas de trabalho a olhar para isto e a analisar e atos destes são atos terroristas. O problema é que habituámo-nos a qualificar um ato terrorista com um ato associado à defesa de uma ideologia religiosa, isto é, islâmica, muçulmana. Neste caso, é um ato terrorista, mas como todos os outros atos, conforme tenho vindo a dizer desde 2003, de pessoas que cometem este tipo de atrocidades, têm a ver com problemas de saúde mental. Se olharem para as histórias de pessoas que estiveram presas em Guantánamo, são histórias de vida de famílias completamente desestruturadas. Por exemplo, há um indivíduo que foi estudado muito a fundo por um amigo meu historiador, e era um homem que saiu do Paquistão para ir para o Dubai e, nesse país, não era considerado bem muçulmano. Porque depois, mesmo dentro do universo muçulmano, há este tipo de qualificação de se ser mais ou menos muçulmano. Por exemplo, sinto-me culturalmente muito mais próxima de vocês do que muita gente da minha comunidade, mas tenho uma fé comum com elas. No entanto, cresci muito ligada à sociedade portuguesa. Mas relativamente àquele rapaz, fala-se de ele estar completamente desenquadrado no Dubai, porque os Emirados Árabes Unidos não consideram uma série de muçulmanos como muçulmanos, mas depois ele sai para um contexto europeu onde não se sente também parte da realidade. São histórias de indivíduos como os que perpetraram certos atos em França, por exemplo, que até vêm de famílias normais muitas vezes, mas há qualquer coisa que acontece que leva as pessoas a terem estes atos. O que percebo que está a ser dito pelo governo, em relação a ser um ato isolado, é porque neste caso este indivíduo não terá dito as palavras de ordem que os comuns terroristas diriam no ato do homicídio. Mas, evidentemente, é um ato terrorista, não existem indicações no sentido de que tenha utilizado algum tipo de ideologia ou discurso nesse sentido. Mas sim, é o primeiro caso, algo inédito no nosso país, e isso é preocupante.

"O que percebo que está a ser dito pelo governo, em relação a ser um ato isolado, é porque neste caso este indivíduo não terá dito as palavras de ordem que os comuns terroristas diriam no ato do homicídio."

A comunidade ismaili é conhecida pelo progressismo, pela integração fácil, pelo protagonismo que as mulheres têm na comunidade em comparação com outros ramos do Islão. Sente que por serem diferentes dos seguidores do sunismo e do xiismo maioritários podem ser alvos de extremistas islâmicos?

Não creio, porque o conhecimento que tenho dos xiitas iranianos, por exemplo, é de serem extremamente progressistas. Conheço a comunidade sunita em Portugal, com quem temos uma relação de profunda fraternidade, a nossa família estudou com eles, estamos todos a sofrer a mesma dor porque isto podia ter acontecido em qualquer sítio. Mas, sobre essa nossa postura, não vou escamotear isto, no fundo, dentro do próprio universo muçulmano há esta ideia de que há uma certa heresia, e isso até está na historiografia islâmica. Ou seja, de que os ismailis são aqueles que não seguiram o caminho certo.

"No fundo, dentro do próprio universo muçulmano, há esta ideia de que há uma certa heresia, e isso até está na historiografia islâmica. Ou seja, de que os ismailis são aqueles que não seguiram o caminho certo."

Fale-nos um pouco da comunidade ismaili portuguesa, quase dez mil pessoas. Embora com raízes na Índia, vieram sobretudo de Moçambique depois do 25 de Abril. Porquê essa opção?
Porque já havia alguns muçulmanos ismailis em Portugal antes dessa data, algumas famílias já tinham começado a mover-se para cá, mas a mudança mais massiva foi entre 1973 e 1975. A primeira questão é a língua, porque nós somos portugueses, já éramos na altura por ser uma colónia portuguesa, o mais sensato era irmos para um sítio onde nos sentíssemos em casa.

Mas Moçambique a caminho de ficar independente não era uma opção?
Moçambique ia entrar numa fase muito crítica e as pessoas tinham crianças para educar, já tinham começado a vir para cá pessoas para estudar e havia que dar continuidade a este tipo de progresso. Era importante não estagnar, mas foi uma mudança deveras difícil para a comunidade.

Foi uma questão muito discutida dentro da comunidade?
Nessa altura, por acaso é curioso, porque quem estava à frente da liderança comunitária era o irmão mais velho do meu pai, que teve uma conversa com o príncipe Aga Khan, o nosso líder espiritual, em que se falou do que já tinha acontecido no Uganda com a expulsão das comunidades sul-asiáticas. Já se sentia uma tensão naquele contexto e há então essa conversa com o príncipe e com os líderes da comunidade. Dessa conversa, sai esta opção para se escolher Portugal como caminho mais óbvio, mais viável e mais fácil para a comunidade. Os que estavam nos países ocupados pelos colonizadores ingleses, foram todos para o Reino Unido ou para o Canadá. Depois houve uma conversa dentro da comunidade, não foi fácil, as pessoas perceberam que a situação era preocupante, era muito difícil deixar coisas construídas, um local onde as pessoas estavam bem na vida. Foi uma saída forçada, digamos assim, mas foi opção dos membros da comunidade.

Quando dizemos que as mulheres ismailis têm uma emancipação muito grande comparativamente a outros ramos do Islão, isso foi já na sua geração que aconteceu? E como é hoje a integração das meninas ismailis na sociedade portuguesa?
Neste momento é total. E na altura em que estava a fazer o meu percurso académico, já a minha geração toda, e um bocadinho acima de mim, estava tudo a fazer cursos superiores e a formar-se. Sempre foi uma coisa que o líder espiritual incentivou dentro da comunidade, a educação a par da educação religiosa. É curioso porque o avô do atual líder espiritual já ia nesse sentido, há uma frase de que nos lembramos muito claramente de ele dizer às famílias, no início do século XX: "Se tiverem dois filhos em que um deles seja uma mulher e outro um homem, mas tiverem condições para educar só um deles, eduquem as vossas filhas, porque elas vão mudar as sociedades". Mas entre ele dizer e a comunidade pôr isto em prática... porque depois há coisas também do ponto de vista cultural, havia tensões, não foi fácil. A minha mãe não conseguiu fazer a escolaridade toda, mas a irmã mais nova dela já conseguiu chegar à faculdade e os irmãos da minha mãe são todos formados. Houve problemas até chegarmos aqui, mas a partir daí tem sido assim. Neste momento, o que acontece com a geração mais nova é que estamos completamente deslumbrados com aquilo que eles conseguem fazer e a forma como evoluem. Vou conhecendo pessoas que têm feito percursos absolutamente brilhantes. Não devia dizer isto, mas estou muito orgulhosa da minha filha que, com 25 anos, trabalha no Parlamento Europeu, já fez um mestrado em Cambridge, o meu filho está a estudar Matemática Aplicada. Os meus amigos e primos têm os miúdos em todo o lado a estudar. No entanto, devo dizer que fiz um estudo na comunidade sunita com adolescentes e encontrei o mesmo tipo de progressismo, o mesmo tipo de investimento na educação das raparigas e dos rapazes em Portugal.

Voltando ao tema desta semana: quando André Ventura, líder do Chega, usa este afegão que matou as duas mulheres para falar sobre os refugiados em geral ou outras pessoas vindas de fora, sente também que está a ser ofendida pessoalmente por haver um ataque ao Islão e às pessoas que têm outra fé?

​​​​​Acho que toda a gente se sente ofendida, principalmente os muçulmanos. Mas daquilo que tenho percebido, há uma indignação profunda, até mesmo na classe jornalística, do aproveitamento político para fazer passar uma mensagem antigoverno, mas polarizando e politizando todas as questões numa retórica xenófoba e discriminatória. Acho que isso não ajuda nada a uma sociedade que traz na sua génese, até porque é extraordinário que as pessoas não se lembrem que a tiveram, séculos de presença islâmica. Mas falamos árabe em português ou português baseado em muitas palavras do árabe. E temos na nossa génese de fundação moral exatamente aquilo que têm os povos muçulmanos de raiz. E se olharmos uns para os outros, temos características fisionómicas que nos aproximam muito, mais do que nos separam. Há aqui uma história de vários séculos de presença do Islão em Portugal que não podemos deixar de considerar e somos profundamente portugueses com todas estas heranças. Falar contra isto é falar contra si próprio. Lamento, mas ele está a falar contra ele próprio.

"A islamofobia surge sempre quando há muito desconhecimento. Quando comecei a trabalhar nesta área e comecei a falar sobre o Islão, e depois do acontecimento fatídico do 11 de Setembro, fui a escolas por todo o país."

Como é que leu a reação do Presidente da República, do primeiro-ministro, da sociedade portuguesa em geral? A comunidade ismaili sentiu essa solidariedade dos outros portugueses?
Muito, muito. Até me arrepio só de pensar, mas isto tem tudo uma razão de ser, porque tem havido um trabalho de união de esforços e trabalho conjunto entre a comunidade, a sociedade e o governo. Essa ligação é tão estreita, que a forma como reagiram ontem é a com que sempre nos trataram. Existe de facto essa fraternidade e respeito recíproco. Sempre fomos educados pelo príncipe Aga Khan a pensar, e sempre nos disse que somos, primeiro, filhos da nossa pátria e depois vem a pertença identitária religiosa. Sempre nos disse que seguíssemos as instruções do governo, para seguirmos as autoridades portuguesas. Este é um trabalho de muitos anos, de muita proximidade, e de uma proximidade muito grande. Recebi imensas mensagens de amigos padres e representantes de organizações religiosas com quem convivo há muitos anos e sei que a comunidade também recebeu mensagens deles. Não nos podíamos sentir mais em casa do que nos sentimos.

Pessoalmente, e também a própria comunidade, nunca sentiu a islamofobia de que se fala na Europa? Em Portugal isso não acontece?
A islamofobia surge sempre quando há muito desconhecimento. Quando comecei a trabalhar nesta área e comecei a falar sobre o Islão, e depois do acontecimento fatídico do 11 de Setembro, fui a escolas por todo o país e fiz tudo no sentido de ajudar a perceber e colmatar esse vazio que existe na nossa sociedade, na nossa cultura e no nosso sistema escolar sobre este vazio de conhecimento sobre o que é o Islão. Portanto, a fobia vem do medo e o medo vem do desconhecido. E se conseguirmos trabalhar isto, conseguiremos ultrapassar. Nos últimos 20 anos vi uma evolução muito grande e tenho um amigo muito próximo, o Frei Bento Domingues, que uma vez num jantar em minha casa me disse, "miúda, tens de falar, tens de explicar", "não tens ideia da importância que tem o trabalho que está a ser feito, no sentido de explicar isto a quem não sabe, porque isto está a mudar as mentes das pessoas". E a islamofobia persiste nalgumas franjas da sociedade, mas se formos perguntar são pessoas que não sabem mesmo nada, e daí vem o medo.

"Existem interpretações dentro do Islão que são extremamente radicais, extremadas e antiOcidente. Depois, há todo um processo de construção de uma aversão a esse ocidente em que, por exemplo, o mote do Daesh é "não somos hipócritas"."

Mas há esse desconhecimento que justifica o medo, mas também há, infelizmente, o terrorismo que muitas vezes é antecipado por palavras religiosas, muitas vezes tem uma suposta ligação islâmica e que acaba por contribuir para este medo. Consegue identificar algumas causas explicáveis para este terrorismo islâmico? É a própria religião que tem esse problema ou são situações geopolíticas que criam esse terrorismo?

É mesmo a segunda hipótese que coloca. Por um lado, mantendo o rigor intelectual, existem interpretações dentro do Islão que são extremamente radicais, extremadas e anti-Ocidente. Depois, há todo um processo de construção de uma aversão a esse Ocidente em que, por exemplo, o mote do Daesh é "não somos hipócritas", isto é, não fazem as coisas pelas costas e mostram que são bons, dizem que fazem igual, filmam e mostram como é que os ocidentais fazem com eles. Há uma mímica de todas aquelas indumentárias de Guantánamo, portanto, quando encontro pessoas na sociedade portuguesa, jovens que não nasceram em famílias muçulmanas, que sentem um descontentamento profundo com aquilo que é a realidade portuguesa, e dizem que tudo isto é uma hipocrisia, o Daesh usa exatamente essa expressão, "não somos hipócritas". E quando temos portugueses que se convertem ao Islão e dizem que são contra toda esta hipocrisia ocidental, acho que é altura de questionarmos o que se está a passar na nossa sociedade. E porque é que eles vão beber a estas fontes? Sei de perto o que é a narrativa destas pessoas, é muito no sentido do que o que funciona bem é as mulheres voltarem a estar dentro de casa - atenção, isto são portugueses que se converteram ao Islão -, mas se lhes perguntar onde foi buscar esta inspiração, eles dão-me os canais do YouTube onde vão ver estas coisas e aquilo que dizem é tal e qual o que dizem os indivíduos.

"Quando temos portugueses que se convertem ao Islão e dizem que são contra toda esta hipocrisia ocidental, acho que é altura de questionarmos o que se está a passar na nossa sociedade."

Admite que haja alguma radicalização em Portugal?
Não tenho dúvidas, ela está aí e estou a falar de todos. E o que estimula muito isto é também termos um sistema social em falência. Porque quando olhamos para uma sociedade que passou por uma pandemia, em que toda a gente ficou cheia de medo de uma coisa que matava, tivemos todos de nos reinventar nos nossos espaços de trabalho, os miúdos estão com depressões cada vez mais jovens. Quando temos um caldo social em que do ponto de vista político se houve falar, seja com empolamento ou não, sobre as questões de corrupção, sabemos que as pessoas saem impunes e os pequenos delitos são castigados de forma incongruente. Quando se fala do racismo, porque ele existe e é praticado e é estrutural na nossa sociedade, ele está lá. O preconceito existe e nós precisamos dele para começar a falar com alguém, mas tornar o preconceito num ativismo de exclusão é uma coisa grave e o racismo é uma delas. Os muçulmanos são também vítimas deste tipo de atitudes e comportamentos. Mas quando existe uma sociedade com um caldo destes, em que estamos todos apertadíssimos do ponto de vista económico, ninguém está a conseguir gerir esta situação, os pobres estão cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. Quer dizer, parece discurso de esquerda, mas não é, é a realidade e toda a gente sabe disso. Depois, temos políticos que cometem atos condenáveis e o povo vê que não lhes acontece nada. Como dizem estas pessoas que vêm procurar ajuda, o que elas veem é que está tudo mal, que tudo está a ruir. E isto é um caldo fantástico para ter a inclinação, tanto para uma espécie de anestesia e aderir aos populismos e às ideologias. Acho que é muito importante que se perceba que há muito trabalho a fazer relativamente a esta questão do equilíbrio da saúde mental. Sei que estamos todos muito preocupados, não sei quantas pessoas estão no terreno a trabalhar, mas sei a precariedade que existe para pessoas que trabalham nesta área e de como é desencorajador trabalhar nesta área.

Alguma vez, em Portugal, sentiu discriminação por ser muçulmana?
Não senti, mas vi e assisti. Uma vez dei uma entrevista e perguntaram-me o que era para mim a pátria e eu disse que a pátria não é só a língua, é a possibilidade de intervir politicamente. Olhem para a nossa Assembleia da República e vejam quantos de nós estamos representados lá, quantos dos coloridos lá estão. Quantos dos que falam como eu estão lá sentados. Não temos e isso é uma forma de discriminação, porque não é falta de vontade ou de qualificações, as pessoas estão aí. E porque é que não estão a contribuir? Porque é uma forma de discriminação, ainda que seja subtil, mas para quem é inteligente consegue perceber que é isto que se passa.

O príncipe Aga Khan recebeu nacionalidade portuguesa e escolheu Lisboa para a sede mundial do Imamat Ismaili. Portugal, apesar de tudo isto que tempos falado, é um país de tolerância religiosa ou esta escolha tem outros motivos que não esse?
Portugal é um país, na sua génese e em si mesmo, multicultural. Lembro-me de ter feito com o António Marujo uma entrevista ao príncipe Aga Khan em 2008, onde ele disse porque é que achava que Portugal era um país exemplar e que podíamos fazer a diferença a partir de Portugal. E ele apontou duas ou três razões e uma delas era o facto de ser um país onde o pluralismo é uma realidade. A bem ou a mal, temos conseguido, não somos perfeitos, mas acho que toda a gente tem feito os possíveis para fazer o seu melhor. Por outro lado, falou desta presença de séculos do Islão em Portugal e que deixou no nosso ADN esta característica de sermos abertos à diferença. As centenas de mensagens que recebi através das redes sociais, e que ainda estou a receber, de pessoas que deixam o seu abraço solidário. São pessoas que não são muçulmanas e que são portuguesas, que convivem connosco e com as pessoas da comunidade e que sentem que somos todos uma só comunidade. Nesse sentido, foi o sítio perfeito para ele escolher e inclusivamente, quando António Marujo lhe perguntou porque escolheu um país tão pequeno, ele respondeu "nunca minimize o poder das minorias, porque muitas das maiores mudanças no mundo foram conseguidas através das minorias".

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