O presidente da Câmara de Leiria alerta para meses quentes “muito difíceis” e admite que a região poderá enfrentar “um dos piores verões” dos últimos anos, devido à enorme quantidade de material combustível deixado pelas tempestades que derrubaram milhares de árvores no concelho e em municípios vizinhos. Assumindo a impossibilidade de retirar toda a carga térmica acumulada antes da época de incêndios, Gonçalo Lopes pede “meios especiais de prevenção, vigilância e combate, incluindo mais meios aéreos e o eventual pré-posicionamento de uma unidade operacional” na Base Aérea de Monte Real.“Vai ser um dos piores verões na nossa região”, afirma o autarca, sublinhando que a situação é particularmente grave porque “é impossível limpar tudo o que está caído a tempo”. Em situações semelhantes ocorridas em França, recorda, a limpeza demorou “mais de dois anos”. No caso de Leiria — e tendo em conta que a tempestade afetou também concelhos como Marinha Grande, Pombal e Ourém, deixando “milhares de hectares” com árvores derrubadas —, o presidente da Câmara estima que estejam em causa “qualquer coisa como oito milhões de árvores tombadas”. Perante esta escala, considera que “não há em Portugal capacidade instalada” para uma limpeza rápida. “Não é humanamente nem tecnicamente possível”, afirma.O material vegetal derrubado tem de ser cortado, removido e depositado em zona segura, num processo longo e tecnicamente exigente. “Este ano há condições propícias para que, em caso de ignições, exista uma forte propagação de incêndios, uma vez que a matéria orgânica está toda no terreno”, alerta. Com a aproximação do verão, essa matéria “vai secando e tornando-se cada vez mais propícia ao incêndio”.Por isso, insiste, a resposta não pode assentar apenas na limpeza da floresta. “Temos de ter mais pessoas e meios em prevenção”, defende. "Será necessário reforçar a vigilância, sobretudo nos dias de maior calor, com a participação da GNR, das unidades locais de Proteção Civil, da população e de escuteiros", diz, de forma a garantir a deteção mais rápida de eventuais ignições.Pedidos mais meios aéreosAlém da vigilância, o presidente da Câmara defende “o pré-posicionamento de meios de combate a incêndios” e considera que este verão deve ser preparado “com mais meios aéreos do que o habitual”. O autarca admite ainda a possibilidade de sediar na Base Aérea de Monte Real “uma unidade operativa de combate a incêndios florestais”.Gonçalo Lopes diz já ter alertado o Governo, nomeadamente o Ministério da Administração Interna, para essa necessidade. “Nas primeiras reuniões com o Governo, reforcei essa importância”, afirma. O autarca elogia a mobilização de recursos do Estado para os trabalhos de limpeza, com a presença do Exército e do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) no território, mas sublinha que também transmitiu ao Governo a necessidade de reforçar os meios de combate, “nomeadamente meios aéreos”, e de garantir que estejam pré-posicionados. “Não tive qualquer feedback sobre se isso será possível ou não”, admite lembrando que as autarquias devem conhecer atempadamente o dispositivo previsto para a época de incêndios. “Faz sentido pensar já em fases futuras”, defende, acrescentando que, em caso de momentos difíceis, é importante saber “com que meios podemos contar”, de maneira a tranquilizar as populações. Ainda que com uma ressalva: "a tranquilização não deve ser excessiva, para que os proprietários não desvalorizem a obrigação de limpar os terrenos".Três eixos: floresta, comunicações e reconstruçãoPassados cerca de 100 dias sobre as tempestades, Gonçalo Lopes identifica três áreas principais de preocupação no concelho de Leiria: a floresta, as comunicações e a reconstrução. A floresta é, ainda assim, a preocupação mais urgente. O impacto das tempestades atingiu uma área superior a 7.100 hectares no concelho. “Só para se ter uma ideia, isso representa cerca de 70% do território do concelho de Lisboa”, afirma. O fenómeno afetou não apenas o “manto florestal”, mas também vias e caminhos florestais, muitos dos quais ficaram bloqueados pela queda de árvores. A prioridade imediata está na desobstrução desses caminhos. “O município tem identificados perto de 450 quilómetros de caminhos florestais obstruídos, dos quais cerca de 190 quilómetros ( 42%) já foram limpos. Esta intervenção é considerada essencial para permitir que os proprietários acedam aos terrenos e para garantir a entrada dos meios terrestres em caso de incêndio.A responsabilidade pela limpeza da floresta cabe, em primeira instância, aos proprietários, afirma o autarca, reconhecendo, contudo, que muitos não têm condições para o fazer. Os proprietários devem usar “os meios que têm ao seu dispor”, mas esses meios, admite, “ou não são muitos ou são mesmo inexistentes”.A situação é mais favorável nos casos em que a madeira havia sido vendida antes da tempestade, estando os madeireiros a recolher os troncos. Nos restantes casos, há dificuldades de escoamento. O plano de intervenção está a ser desenvolvido pelo Município de Leiria e pelo grupo de missão criado para acompanhar a situação, envolvendo a Defesa, a Administração Interna e a Agricultura. Estão também mobilizados recursos nacionais, nomeadamente do ICNF e do Exército, para a limpeza de terrenos considerados prioritários. A estratégia passa também “por atuar nas zonas mais sensíveis”- zonas habitacionais, industriais e de atividade económica, “para evitar que o fogo atinja a vida das pessoas”, mantendo as faixas de gestão de combustível junto a estradas municipais e outros acessos.Além do risco florestal, a ausência de internet continua a ser um problema grave. “Muitas famílias continuam sem internet, ou seja, sem acesso à televisão em casa. Há também empresas sem acesso à internet, obrigadas a recorrer a Starlink ou redes móveis, soluções caríssimas”. A falta de comunicações impede o teletrabalho e obriga pessoas e empresas a deslocarem-se para zonas urbanas com melhor cobertura. “As acessibilidades já não são apenas estradas. Também passam pelas comunicações”, sublinha, acrescentando que a infraestrutura sofreu “uma destruição completa” e está a ser reposta pelos operadores “a um ritmo lento”.A terceira preocupação prende-se com o ritmo da reconstrução. Está dependente das respostas das seguradoras e dos apoios públicos, nomeadamente de empréstimos para empresas e de apoios à reabilitação de habitações. Compete às câmaras analisar as candidaturas, mas a carga processual é elevada. “Temos tido dificuldade em despachar estes processos com rapidez. É algo que nos preocupa”, admite.