Voo LS1266 desceu abruptamente de uma altitude de mais de 9000 metros, provocando uma sensação que alguns passageiros descreveram como sendo de queda livre.
Voo LS1266 desceu abruptamente de uma altitude de mais de 9000 metros, provocando uma sensação que alguns passageiros descreveram como sendo de queda livre.DR / Jet2.com

Colapso do piloto desvia voo da Jet2 para o Porto e causa terror entre passageiros

A emergência no ar deu lugar a uma noite de exaustão no aeroporto Sá carneiro, onde os passageiros permaneceram horas sem alojamento, informação ou assistência.
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Um avião da companhia aérea Jet2 foi obrigado, na madrugada da passada sexta-feira, a aterrar de emergência no Aeroporto Francisco Sá Carneiro, no Porto, após o piloto ter sofrido um colapso médico súbito a 30 mil pés de altitude, foi noticiado este sábado, pela revista People. O voo LS1266, que transportava cerca de 220 passageiros com destino a Inglaterra, foi obrigado a desviar a rota e a realizar uma rápida descida de altitude que provocou o caos a bordo.

A inesperada incapacidade do comandante forçou o copiloto a assumir, sob forte tensão, os comandos do Airbus A321 da companhia aérea de baixo custo. A aeronave, que se encontrava já a meio da sua rota atlântica, estabilizada à altitude de cruzeiro de 30.000 pés (aproximadamente 9150 metros), iniciou uma descida abrupta e desconfortável.

Antes disso já o terror estava instalado no voo que ligava Tenerife (Espanha) a Birmingham (Reino Unido), com comissários de bordo em lágrimas, correndo pelos corredores à procura de ajuda médica, enquanto o avião parecia descer vertiginosamente em direção ao solo ou, no caso, oceano. Em terra, o pesadelo continuou com uma odisseia logística de 13 horas.

O início do pesadelo a altitude de cruzeiro

O que devia ter sido o encerramento de um período de férias tranquilo e soalheiro no arquipélago das Canárias transformou-se, em pleno voo, num dos momentos mais aterrorizantes na vida de cerca de 220 passageiros britânicos.

O comandante da aeronave sofreu uma súbita e grave emergência médica no cockpit — que os relatos iniciais e a imprensa britânica suspeitam ter sido um enfarte agudo do miocárdio. O colapso do piloto foi total e imediato, deixando-o completamente incapacitado de continuar a controlar o avião ou sequer de comunicar com o exterior.

Perante este cenário de extrema gravidade, que colocava em risco a segurança de centenas de pessoas, o primeiro oficial (copiloto) assumiu os comandos do Airbus A321 de imediato. Sob uma pressão psicológica imensa, o copiloto ativou os protocolos internacionais de emergência, declarando um "Mayday" às autoridades de controlo de tráfego aéreo e iniciando uma descida íngreme e urgente em direção ao aeroporto adequado mais próximo: o Aeroporto Francisco Sá Carneiro, na cidade do Porto, Portugal.

"Fomos acordados pelo caos": o drama no cockpit e na cabine

A atmosfera a bordo degradou-se rapidamente à medida que a tripulação de cabine tentava desesperadamente gerir a crise médica no cockpit, ao mesmo tempo que procurava conter o pânico que alastrava pela cabine de passageiros. Relatos impressionantes partilhados por testemunhas ao jornal britânico Manchester Evening News revelam o nível de aflição, confusão e desespero vivido a bordo durante aqueles minutos intermináveis.

"Eu e o meu companheiro estávamos a dormir profundamente quando fomos subitamente acordados pelo caos completo na cabine", relatou um dos passageiros ao jornal. "As luzes do teto começaram a piscar de forma estranha e as hospedeiras de bordo estavam visivelmente perturbadas, em lágrimas, a correr de um lado para o outro pelo corredor central à procura de um médico ou de qualquer pessoa com formação em enfermagem ou primeiros socorros a bordo."

O impacto emocional da situação afetou não só a tripulação, mas espalhou-se rapidamente por toda a cabine devido ao comportamento invulgar da aeronave. Para fazer uma aproximação rápida à pista do Porto, o copiloto teve de efetuar uma descida muito mais vertical e veloz do que o habitual, o que provocou uma forte sensação de queda livre e variações bruscas na pressão interna do avião.

"O nosso filho de apenas 2 anos começou a chorar desesperadamente, tal como muitas outras crianças a bordo, porque sentiam a pressão nos ouvidos e percebiam que o avião estava a perder altitude de forma extremamente rápida e abrupta para efetuar a aterragem de emergência", acrescentou a mesma testemunha. "Ninguém nos explicava claramente o que se estava a passar, apenas víamos a tripulação a chorar."

De acordo com as informações avançadas pelo Daily Star, o desespero e o choro visível de vários membros da tripulação de cabine — que temiam que o comandante estivesse morto — geraram nos passageiros a angústia terrível de que o avião estivesse prestes a despenhar-se no oceano. Passageiros relataram que algumas pessoas começaram a despedir-se dos familiares por mensagem escrita, temendo o pior desfecho.

Aterragem com sucesso e a "odisseia" em terra

A perícia, o treino rigoroso e o sangue-frio do jovem copiloto revelaram-se decisivos para evitar uma tragédia de grandes proporções. Apesar da descida vertiginosa, da responsabilidade extrema de pilotar um avião de grande porte sozinho e do pânico generalizado que se ouvia da cabine, a aeronave tocou o solo em total segurança na pista do aeroporto do Porto pelas 02h11 da manhã (hora local) de sexta-feira, 22 de maio.

Assim que as rodas do Airbus travaram na pista nortenha, os serviços de socorro médico de emergência portugueses, incluindo ambulâncias do INEM e equipas de bombeiros que já se encontravam pré-posicionadas em estado de alerta máximo ao longo da pista, entraram imediatamente na aeronave. O comandante foi assistido e estabilizado ainda no cockpit e, de seguida, retirado em maca sob o olhar silencioso dos passageiros, sendo transportado de urgência para uma unidade hospitalar no Porto.

Contudo, se a emergência aérea foi resolvida com um sucesso técnico inquestionável, a experiência dos passageiros em solo português rapidamente se transformou numa frustrante e exaustiva odisseia, marcada pelo que descreveram como uma total falta de empatia e apoio logístico por parte da companhia aérea Jet2.

Vários viajantes expressaram um forte descontentamento e indignação face ao abandono a que dizem ter sido votados no terminal portuense durante a madrugada.

"Ficámos retidos em Portugal durante mais de 13 horas e não nos deram qualquer tipo de alojamento ou sequer um espaço digno para descansar", desabafou um passageiro visivelmente exausto, citadas também pelo Manchester Evening News. "Para começar, nem sequer nos deixaram sair do avião durante mais de uma hora após a aterragem, enquanto o piloto era assistido. Quando finalmente fomos encaminhados para o terminal, fomos simplesmente abandonados a deambular pelas salas de embarque vazias. Não havia lojas abertas, não havia onde dormir, nem descansar, muitas pessoas idosas e crianças pequenas tiveram de dormir no chão frio de pedra. Quando implorámos por ajuda, disseram-nos apenas que arranjar quartos de hotel para 220 pessoas àquela hora da noite seria 'demasiado caro' para a companhia."

A falta de informação oficial e o cansaço acumulado exacerbaram os ânimos no terminal. Passageiros que tinham acabado de passar por um trauma psicológico severo viram-se obrigados a gerir a fome, a sede e a falta de condições básicas de higiene durante toda a madrugada e manhã de sexta-feira.

O regresso a casa e as consequências

A situação de bloqueio no Aeroporto Francisco Sá Carneiro só foi resolvida muitas horas mais tarde, já na tarde de sexta-feira, 22 de maio. Devido às rigorosas regulamentações de segurança da aviação civil, o copiloto que realizou a aterragem de emergência não podia, por lei, voltar a pilotar devido ao limite de horas de serviço acumuladas e ao óbvio desgaste emocional do incidente.

Para contornar o problema, a Jet2 teve de enviar de emergência um piloto de substituição num voo operado a partir da sua base, em Manchester. O novo comandante aterrou no Porto, assumiu os comandos do Airbus A321 e, após a realização de todas as vistorias técnicas e burocráticas necessárias, transportou finalmente os passageiros exaustos e traumatizados de volta ao destino original, em Birmingham.

Embora um porta-voz oficial da Jet2 tenha posteriormente emitido um comunicado formal pedindo desculpas pelo "atraso imprevisto" e assegurando que "a segurança dos passageiros e da tripulação é sempre a prioridade máxima da empresa", a experiência dramática de ver a tripulação em lágrimas a pedir socorro médico a 30.000 pés de altitude, seguida pelo abandono logístico em terra, ficará gravada para sempre na memória dos 220 passageiros que sobreviveram a este voo.

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