É um dos temas do mais recente Relatório Europeu sobre Drogas: o uso de dispositivos de vaping para fumar nicotina é cada vez mais usado pelos adolescentes e está a ser detetada a sua utilização para fumar formas sintéticas e semissintéticas de canábis. A esta situação, os responsáveis da Agência da União Europeia sobre Drogas (EUDA) acrescentam outra preocupação: a utilização dos vapes para consumir produtos como opiáceos sintéticos.O documento da EUDA dá exemplos como o uso de “canabinóides sintéticos em líquido para vaporização, novas substâncias psicoativas vendidas de forma enganosa, como pós e comprimidos opioides ou estimulantes, e produtos de canábis natural combinados com compostos sintéticos”.É, também, chamada a atenção para o facto de este uso dos cigarros eletrónicos serem “uma característica comum do consumo de substâncias entre os adolescentes na Europa”. Para sustentar esta afirmação recorrem ao Projeto Europeu de Pesquisa Escolar sobre Álcool e Outras Drogas (ESPAD) - 2024, cujo inquérito realizado com estudantes de 15 a 16 anos, identificou o uso de cigarros eletrónicos como uma preocupação. De acordo com esse documento, “os resultados mostram que o consumo entre adolescentes aumentou substancialmente”.Refira-se que já neste relatório podia ler-se que “muitos Estados-membros da UE relataram apreensões de líquido contendo canabinóides sintéticos e semissintéticos. A maior disponibilidade destes produtos cria vários riscos para a saúde, incluindo consumo inadvertido e variações de exposição, devido a possíveis diferenças entre lotes”.E acrescentava: “Além disso, a adaptabilidade da tecnologia de vaping permite a expansão para outras novas substâncias psicoativas além dos canabinóides, incluindo novos opioides sintéticos potentes, com riscos de saúde associados.” Alerta que agora é reforçado com o documento divulgado pela EUDA.Portugal sem dadosEm Portugal, atualmente, não há registo de existir um consumo de substâncias ilegais recorrendo aos vapes, segundo a Sociedade Portuguesa de Pneumologia. “Nós não temos dados, mas obviamente que nos deixa muito preocupados, especialmente tudo o que seja muito pouco controlado, como é o caso desses líquidos usados nos cigarros eletrónicos”, diz ao DN Daniel Coutinho, coordenador da Comissão de Tabagismo da Sociedade Portuguesa de Pneumologia (SPP).Atualmente, a maior preocupação passa pelo consumo de nicotina, o que levou a SPP recentemente a divulgar um comunicado contestando a disponibilização no festival Primavera Sound Porto (que teve início esta quinta-feira, dia 11 de junho, e termina no domingo, dia 14) de bolsas com aquele produto.Para o responsável da sociedade, a questão apresentada pela EUDA e o alerta que foi feito direcionado ao evento, que tem lugar no Porto, é tudo a “face do mesmo problema”. “Na última década a indústria tem feito um push para estes novos produtos. Foram feitos investimentos avultados pelas marcas, que têm vindo a colocar no mercado derivados de tabaco e derivados de nicotina”, refere. Segundo Daniel Coutinho “a estratégia é simples: normalizar o consumo. Dizem que não há problema, que é seguro, inócuo. E, assim, tenta que pessoas que nunca iriam consumir esses produtos o façam. E tudo com afirmações que não estão fundamentadas cientificamente”.Em relação ao facto de o uso dos cigarros eletrónicos estar a ter, como tendência, o aumento a partir da faixa etária dos 13 anos, o coordenador da Comissão de Tabagismo refere que esta não é mais do que a “aquisição de novos clientes, é basicamente essa a estratégia. É fácil perceber isso quando se coloca no mercado um cigarro eletrónico com sabor de pastilha elástica. A estratégia é simples, é atrair novos clientes. E a nicotina é uma substância altamente aditiva”.“O maior problema é esse, é que esta novas formas de consumo não são inócuas, geralmente em algum momento levam ao consumo dual. Isto é, até podem [os jovens] consumir meramente cigarros eletrónicos, mas se não tiverem cigarros eletrónicos à disposição, também fumam tabaco ou fumam tabaco aquecido”, sublinha.Tudo este cenário é agravado pelo facto de o mercado “estar completamente desregulado. Em teoria, está regulado porque temos uma Diretiva do Tabaco e produtos similares. Mas online é uma desregulação completa”, conclui. .Sociedade Portuguesa de Pneumologia pede medidas mais duras contra cigarros eletrónicos .A droga à venda na Europa é cada vez mais potente e pura. Policonsumo está a aumentar