Na semana passada, a depressão Kristin atravessou as regiões Centro e Oeste, deixando um rasto de destruição material - houve quem perdesse casas, carros, empresas e até familiares (segundo as autoridades, já há 12 vítimas mortais, cinco provocadas pela tempestade, as restantes no rescaldo). Esta semana, a depressão Leonardo está a afetar regiões do Ribatejo e do Alentejo, da Azambuja a Alcácer do Sal, passando por Abrantes e chegando a Portalegre. Até ontem, ainda sem vítimas mortais, mas a chuva forte e ininterrupta dos últimos dias já inundou zonas urbanas, nalgumas galgou até aos dois metros de altura, e deixou aldeias e pessoas isoladas, como se em ilhas vivessem, casas destruídas e estradas intransitáveis. Os danos materiais ainda estão por contabilizar, mas mais tarde ou mais cedo haverá números. Os danos emocionais, aqueles que são trazidos por qualquer catástrofe natural, e neste caso especificamente pelas depressões que têm vindo a atingir Portugal, como Kristin e Leonardo, provavelmente ainda nem estão a ser percetíveis, mas que os há, há. E a psicóloga da área da Saúde, Dulce Pires, especialista em intervenção de crises, alerta: “A população também vai precisar de tempo para recuperar do choque emocional.”No imediato, “é importante conseguirmos referenciar algumas reações normais, durante o período a que chamamos incidente crítico, a catástrofe em si, e depois durante o processo de resolução que a própria catástrofe traz”, afirma, sublinhando: “É importante estarmos atentos a sintomas como ansiedade, medo, desespero, alguma irritabilidade, mas também a reações a nível cognitivo (como dificuldade de concentração, tensão, dificuldade em tomar decisões), ou reações físicas (fadiga, insónia, alteração do apetite e até hipertensão arterial).”Dulce Pires destaca que uma reação comportamental habitual é uma certa “agitação permanente, que pode significar um estado de luta ou de fuga da situação”. E, para estes casos, alerta ainda a especialista, “também é importante que se esteja atento e que haja apoio de profissionais de saúde, nomeadamente no âmbito da psicologia”. Aliás, “a Ordem dos Psicólogos tem uma bolsa de psicólogos com formação e intervenção em crise e de emergência psicológica, que já disponibilizou e que, em consonância com o Governo, poderá desenvolver algum trabalho”, alerta, deixando nota também de que “a intervenção no momento da crise é muito importante, porque permitem mitigar o desenvolvimento deste tipo de reação para algo que efetivamente já não é normativo”. Uma intervenção que tanto vale para populações que perderam tudo, como para aquelas que estão em risco de ficarem com casas inundadas, que são evacuadas ou que ficaram isoladas pela água. Como explica Dulce Pires, “são situações de stress extremo, porque não é normal acordarmos e não conseguirmos sair de casa ou deslocarmo-nos. Tudo isto coloca muitas questões que têm a ver com as necessidades básicas, como vou conseguir alimentar-me, por exemplo?” Mas são também situações “assustadoras”, embora “mais para umas pessoas do que para outras”, explicando que “cada pessoa tem as suas características, mas há aquelas que já têm psicopatologias, as quais podem agravar com este tipo de situações”. E, por isso, avisa que estas necessitam de uma atenção muito especial, como os idosos ou as crianças. “São grupos a que temos de dar muita atenção, ou porque podem ter um agravamento da sintomatologia e é preciso perceber que tipo de apoio necessitam ou porque não têm tantos recursos para lidar com as emoções”. .“Parece um país de faz de conta. Tem sido um corrupio de líderes, mas resultados não se veem”, acusa autarca de Leiria.No caso das crianças, por exemplo, a especialista afirma que estas, “têm, naturalmente, menos recursos internos para lidar com este tipo de situações” e que “é preciso dar-lhes mais atenção, explicando-lhes o que está a acontecer e tentando que verbalizem os seus sentimentos e as suas emoções, para que lhes seja transmitido que a partir da catástrofe também há segurança”. E quando diz ser importante dar-lhes mais atenção “é porque é preciso perceber de que forma estão a manifestar o medo: se em alterações de comportamento ou se na regressão em termos de fase de desenvolvimento”. O luto da perda de bens materiais tem de ser feitoA especialista em intervenções de crise relembra que uma catástrofe natural traz “muitas perdas ao mesmo tempo, porque quando falamos em perdas, às vezes, pensamos só no luto pela perda de familiares, e neste caso também há pessoas nessa situação, mas também há o luto pelas perdas materiais, pela perda de tudo o que se construiu durante a vida e, isto, também tem consequências a nível psicológico”. E avisa: “A população que perdeu casas, carros e outras bens, também vai levar algum tempo a recuperar, porque é um luto que tem de ser feito.”Um luto que pode ser vivido de forma diferente de pessoa para pessoa, porque, como sublinha, “cada uma tem os seus recursos internos. Há pessoas com maior capacidade de resiliência do que outras, que se conseguem reconstruir ainda sob as circunstâncias mais difíceis, mas para todas é importante que este luto seja vivido e com apoio psicossocial, envolvendo equipas multidisciplinares, de forma a poder ajudar as pessoas a ultrapassarem a situação”. Ou seja, não basta o trabalho e o apoio dos técnicos da área da Saúde, é preciso também apoio social, porque “estamos perante situações muito concretas de pessoas que perderam tudo e que precisam de ver asseguradas as suas necessidades básicas”. Por outro lado, ressalva, “é também fundamental o apoio da comunidade, o apoio entre uns e outros, porque nestas situações as pessoas precisam de sentir que voltam a ter segurança e o controlo da sua vida para conseguirem responder à pergunta: o que vou fazer a seguir e como vou organizar a minha vida?”Para Dulce Pires, tratar estas situações é importante para agora, mas também para o futuro, porque é possível fazer prevenção para a vivência deste tipo de situação. “A prevenção é possível, por exemplo falou-se muito do kit de emergência, mas depois é algo que se esquece, e para prevenirmos estas situações é preciso que se faça a sensibilização das populações para as necessidades reais que impõem situações de catástrofe. Fala-se muito de terramotos, mas a comunidade em geral, também não está preparada para enfrentar uma situação deste tipo. E é importante que a comunidade ou individualmente haja uma consciencialização do que é isso preciso ter como necessidades básicas, porque isso dá uma sensação de controlo”. Mas, como destaca, é preciso também que as estruturas e as entidades oficiais estejam preparadas para lidar com “fenómenos desta intensidade e perceberem em que temos de melhorar”.A depressão Kristin já passou, a Leonardo ainda não e já está outra, Marta, a caminho. E a psicóloga Dulce Pires reforça: “As tempestades também trazem danos emocionais e é preciso que cada vez mais nos preparemos para este tipo de situação.”.Seis dias depois, hospital e centros de saúde de Leiria voltam à atividade normal