Portugal foi um dos países pioneiros a implementar uma política de descriminalização da canábis. Foi há mais de 25 anos que o debate ocorreu, de forma discreta, e que culminou, em 2001, na concretização de uma legislação vista até hoje como um modelo. Mas há ameaças. “A tendência de descriminalização tende a espalhar-se, mas a onda reacionária ainda em curso, alimentada por tenebrosas forças políticas e sociais, continua a ameaçar com o retrocesso”, começa por dizer Sidarta Ribeiro, autor do livro As Flores do Bem - A ciência e a história da libertação da canábis, recém-publicado em Portugal pela editora Quetzal.Em entrevista ao Diário de Notícias, o investigador brasileiro elogia a política de Portugal nesta matéria. “Portugal foi um dos primeiros países a adotar, já em 2001, uma abordagem mais racional e menos punitiva em relação à canabis e outras drogas. Os resultados foram muito positivos e hoje representam um exemplo bem sucedido de política de drogas”, analisa. Apesar de ameaçada por tendências políticas conservadoras, em ascensão um pouco por todo o mundo, Ribeiro ainda acredita no que chama de “racionalidade” sobre o assunto. “Creio que a tendência mundial ainda é de maior racionalidade, liberdade e regulação responsável, mesmo que os reacionários tentem barrar o progresso”, afirma.No livro, o neurocientista conta a história da planta, explica evidências científicas com rigor e apresenta críticas sociais, tudo com uma linguagem simples e descomplicada. “A ciência não precisa de ser hermética para ser verdadeira. A forma descomplicada de escrever, sem perder a seriedade, ajuda a popularizar a ciência, tornando-a acessível sem perda de rigor. Em temas como o uso da canábis, por exemplo, é vital que a academia se comunique com a sociedade em uma linguagem que todas as pessoas possam entender”, explica. “Caso contrário, aprisionamos a ciência numa torre de marfim e, com isso, perdermos a oportunidade de transformar o conhecimento em ações concretas de transformação”, complementa.Na visão do investigador, é uma questão de cidadania. “O saber científico é uma condição essencial para a cidadania no século XXI. Ou nos atualizamos contínua e coletivamente, ou aprofundaremos a experiência de viver em um mundo totalmente dominado por tecnologias que quase ninguém compreende”, reflete.Além do rigor científico, o brasileiro também apresenta vivências em “As Flores do Bem”. Cita, por exemplo, o início e percurso da relação com o uso de canábis e cita relatos íntimos, como o seu “primeiro encontro marcante com a canábis”, que ocorreu no início dos anos 1990, quando fazia uma viagem de mochila às costas pela América do Sul. “No livro abordo o grande impacto que a Canábis teve sobre minha própria experiência de transcendência espiritual, algo que normalmente não se debate em ambientes científicos”, cita.Passados mais de 30 anos, o neurocientista acredita no uso “ritualístico” da planta como uma tendência. “O uso ritualizado da cannabis, como uma prática espiritual ou cultural, é uma tendência já observada em algumas culturas e tende a se expandir. A canábis tem o potencial de facilitar experiências introspectivas e de autoconhecimento”, diz. “Em muitos contextos, a planta pode ser usada como ferramenta de cura ou transformação. No entanto, isso exige uma abordagem séria e responsável, com práticas baseadas no respeito à planta, ao indivíduo que a consagra e ao processo de integração da experiência”, alerta..O autor acredita que o histórico de proibição ao longo do tempo deixou marcas. “Se não houvesse o histórico de proibição, a canábis teria sido tratada de forma mais objetiva, em primeiro lugar como uma substância medicinal, mas também como uma substância prazerosa com múltiplos efeitos de interesse e riscos bastante limitados. Essa vertente recreativa surgiria naturalmente, mas seria tratada com mais responsabilidade e menos estigma”, vinca.Os riscosO livro não é, de todo, é um convite ao uso indiscriminado de desta planta. Num dos capítulos, intitulado “Amar demais as flores”, o autor começa com a frase: “Tudo em demasia é complicado - e com a cannabis não é diferente”. Na entrevista ao DN, o cientista reforça os riscos, principalmente na juventude. “Crianças e adolescentes são o principal grupo de risco para o uso de canábis. Está bem demonstrado que o uso precoce e abusivo de canábis está associado a uma síndrome amotivacional (apatia, perda de ambição, passividade, isolamento social e dificuldade de concentração) que pode causar prejuízos escolares”, destaca.Isso porque nesta fase o cérebro ainda não está totalmentedesenvolvido . “O cérebro adolescente ainda está em desenvolvimento, e a canábis pode interferir nesse processo, especialmente nas áreas associadas à memória, à aprendizagem e ao controle emocional. O impacto na saúde mental é potencialmente maior entre os jovens, com aumento das chances de desenvolver psicose em indivíduos predispostos”, explica. A exceção é em casos de “indicação clínica, por exemplo num caso de epilepsia, jovens devem se abster do consumo de cannabis”. Fora isso, é categórico. “O consumo da planta é potencialmente benéfico para adultos e idosos, mas não para crianças e adolescentes”. Mesmo em adultos, não se deve ignorar o risco de dependência. “O uso crónico de canábis pode levar a alterações nas áreas do cérebro associadas à memória e à tomada de decisões, como o hipocampo e o córtex pré-frontal. No entanto, os efeitos são complexos e variam conforme a idade de início do uso, a frequência e a quantidade consumida. Em adultos e idosos os efeitos tendem a ser neuroprotetores e de modo geral benignos. De todo modo, o risco de dependência não deve ser ignorado”, afirma.Então, qual o melhor caminho? Para Sidarta Ribeiro, é uma combinação de fatores. “A chave está na quebra do estigma, na regulação eficaz e na educação de boa qualidade científica. A indústria da canábis precisa ser regulada de forma a garantir o baixo custo, a qualidade e a segurança dos produtos, sem cair nas armadilhas do marketing agressivo e da promoção irresponsável. Nenhuma droga psicoativa deveria ser propagandeada comercialmente, e isso vale para a canábis também”, detalha. É preciso mais do que regulação, argumenta. “O ecossistema de produção e distribuição de canábis precisa ser diverso e bem equilibrado, contemplando o cultivo doméstico, as associações de pacientes, as cooperativas e clubes de usuários, bem como empresas públicas e privadas, sobretudo as de menor porte, a fim de evitar oligopólios”, cita. O lado social não pode ser esquecido. “É crucial orientar o crescimento do mercado da canábis de forma a beneficiar especialmente as comunidades de baixo estatuto socioeconômico que mais sofreram pela guerra às drogas, numa política de reparação semelhante àquela implantada no estado de Nova Iorque, onde pessoas negras e indígenas encarceradas por porte de canábis têm prioridade para obter licenças para sua venda”, relata.Na escola, a discussão também precisa de espaço. “É fundamental que os usos da canábis sejam abordados na educação escolar, esclarecendo seus efeitos e potenciais riscos para grupos específicos, ensinando as pessoas a utilizá-la de forma segura e consciente”.Na avaliação do especialista, são casos de sucesso países como o Uruguai e Canadá, enquanto os Estados Unidos está na no espetro oposto. “Os modelos de regulação que têm mostrado melhores resultados são aqueles baseados na educação voltada para a redução de danos, o controle de qualidade das substâncias e a regulação eficaz da produção e da venda, como acontece em países como o Uruguai, o Canadá, o Uruguai e muitos estados dos EUA”, analisa.Sobre o preconceito, entende que “apesar dos avanços em algumas áreas, este continua muito arraigado”. No livro e na entrevista, cita as explicações para este pensamento.”Isso tem raízes profundas, não só no histórico racista de criminalização, mas também na falta de compreensão sobre os efeitos reais da substância no cérebro e no corpo".Por cá, o autor espera que o livro seja bem recebido. “Em Portugal, onde a canábis já é tratada de maneira mais racional do que em diversos outros países, acredito que o livro encontrará um público interessado em explorar as diversas facetas da planta”.amanda.lima@dn.pt.MDS lança em Portugal solução de gestão de risco e seguros para canábis medicinal.Adições aos 18 anos. Consumo de álcool e tabaco mais expressivo no Alentejo e de canábis no Algarve