Bispo de Leiria-Fátima abre portas a investigação sobre pedofilia

"Num recado para toda a Igreja e para a sociedade", António Marto fez questão de abordar o tema. "Todas as ações que tiverem de ser feitas devem ser feitas", admitiu

Era suposto ser apenas um regresso entusiasmado dos peregrinos ao Santuário, sem limitação de presenças, fora dos círculos pintados no chão durante os tempos mais duros da pandemia. Mas a peregrinação internacional aniversária deste 12 e 13 outubro acabou por ser marcada pelo tema que, desde há vários dias, paira como uma nuvem sobre a Igreja Católica: a pedofilia em França, e as ondas de choque que acabam por fazer-se sentir no resto do mundo.

Se no recinto do Santuário de Fátima o tema parece passar ao lado da maioria dos milhares de peregrinos que regressam, já o bispo de Leiria-Fátima fez questão de usar a habitual conferência de imprensa que antecede as cerimónias para falar do tema. Um recado para outros bispos? "Não! É para toda a Igreja em Portugal, e para toda a sociedade. É o que eu penso. Porque isto é necessário. Há muita gente que passa a leste disto, quer dentro quer fora da Igreja. Por isso citei o Papa Francisco e o Papa Bento XVI, porque às vezes dizem que ele não fez nada [a este respeito]".

D. António Marto citara ambos, minutos antes, como quem lembra que o tema não chegou agora à Igreja. De resto, lembrara mesmo o que os jornalistas tinham perguntado a Bento XVI, em 2010, na viagem de avião até Fátima, quando o tema estava também na ordem do dia. E a resposta: "o perdão não substitui a Justiça".

Mas quando instado a responder, concretamente, se "é a favor de uma investigação em Portugal?" (como a que aconteceu em França), o bispo de Leiria-Fátima não arrisca uma resposta clara, embora se depreenda das suas palavras que é apologista desse caminho: "Todas as ações que tiverem de ser feitas, devem ser feitas. Não devemos ter uma atitude de contemplação".

E no passado, será que a Igreja em Portugal não teve? "Que eu conheça não", diz António Marto. "Quando chega uma denúncia, acolhe-se e deve ser imediatamente comunicada às autoridades judiciais: ao Ministério Público e à Polícia Judiciária, que têm meios, recursos de vária ordem para investigar e chegar ao apuramento da verdade muito melhor e mais rapidamente do que nós. Depois é preciso que as pessoas que se sentem vítimas, seja no presente ou no passado, façam ouvir a sua voz. Podem fazê-la na sua diocese, mas também noutra qualquer. Porque assim e vai apurando a verdade".

As declarações de António Marto aconteceram poucas horas depois da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), também em Fátima, ter admitido a constituição de "um grupo a nível nacional a partir das comissões diocesanas" de proteção de menores e adultos vulneráveis, para acompanhar a questão dos abusos sexuais na Igreja.

Uma peregrinação de esperança

"Esta peregrinação inicia um novo ciclo marcado pela esperança. Estamos a vencer a pandemia . começamos a ter um nova normalidade, que nos convoca ao cuidado", considera António Marto, sem escamotear que "foram tempos difíceis" e que "ainda havemos de experimentar, por ventura, muitas dificuldades", pois as consequências reais e efetivas da pandemia, do ponto de vista económico e social ,"poderão não estar ainda todas contabilizadas". Ainda assim, é com regozijo que vê o Santuário "com outro colorido, embora longe de outros tempos".

Também o reitor do Santuário, padre Carlos Cabecinhas, considerou que há sinais positivos que importa destacar, depois deste tempo tão marcado pela pandemia. Em 2021 o santuário já foi visitado por um milhão e 300 mil peregrinos, mais 200 mil que em igual período do ano passado, embora longe dos seis milhões de outros anos. "Aprendemos muito. Tivemos que nos reinventar na forma de chegar aos peregrinos", disse.

À distância, Vítor Santos e Susana Costa assistem, entusiasmados, ao aparato da conferência de imprensa que acontece na colunata. O casal veio de Famalicão, usou uns dias de férias para conseguir assistir às cerimónias, e consegue aquilo que tanto queria: uma fotografia com o bispo e o reitor. "Adoramos ouvir o D. António Marto, sobretudo quando fala aos "amiguitos e amiguitas"". E ouviram o que disse sobre a pedofilia? Sim. E concordam. "Uma boa forma que a Igreja tinha de resolver este problema era deixar que os padres casassem. De certeza que se notava logo a diferença nestas coisas".

dnot@dn.pt

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