BE pede novas audições sobre o Global Media e Livre admite inquérito na próxima legislatura

BE pede novas audições sobre o Global Media e Livre admite inquérito na próxima legislatura

Domingos Andrade afirmou na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto que nunca esperou o que está a acontecer nas redações do grupo e que se está a assitir "à destruição reputacional de marcas e redações".
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O BE quer ouvir no parlamento o administrador do grupo Global Media Paulo Lima de Carvalho e o consultor de comunicação Luís Bernardo, enquanto o Livre admite a necessidade de uma comissão de inquérito na próxima legislatura.

Em declarações aos jornalistas no parlamento, a deputada do BE Joana Mortágua considerou que a audição parlamentar desta quinta-feira do ex-diretor da TSF Domingos Andrade trouxe "uma nova luz" sobre o que se passa no grupo Global Media (GMG), dizendo ser necessário esclarecer a quem pertence o fundo que detém a maioria do capital e que tem sede nas Bahamas, o World Opportunity Fund (WOF).

"Ao contrário do que pensávamos, de que José Paulo Fafe estaria à frente deste fundo enquanto gestor, há um outro administrador chamado Lima de Carvalho que teve um papel determinante na área da gestão, na área financeira e inclusive com pressões da edição editorial dos vários títulos", disse.

Segundo a deputada, na audição de hoje, o BE ficou também a par de que este administrador "terá ligações a Luís Bernardo, ex-assessor de Sócrates", falando no que "parece ser um jogo de 'gangsters' na entrada de capital em empresas deste país".

"Tudo isto tem de ser esclarecido: queremos pedir que este administrador Lima de Carvalho, que entrou a pedido ou indicado pelo novo fundo com sede nas Bahamas, venha ao parlamento prestar esclarecimentos, tal como Luís Bernardo, cujas ligações a este administrador passam por empresas de comunicação com contratos com câmaras municipais e vários municípios hoje relatadas por Domingos Andrade", disse, esperando que haja "boa vontade" destes intervenientes para aceitar o convite urgente da Assembleia da República.

Também em declarações no parlamento sobre o mesmo tema, o deputado único do Livre, Rui Tavares, admitiu a possibilidade de ser constituída uma comissão de inquérito parlamentar sobre o estado deste grupo, mas apenas após as eleições legislativas antecipadas de março.

Tavares realçou que está em causa um grupo que tem "títulos históricos do jornalismo português" e que "venderam edifícios muito relevantes, tanto em Lisboa como no Porto" como a redação do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias, "e que depois dizimaram esse valor em pouco tempo".

"Onde é que esse valor foi parar? Para que bolsos, de que maneira? Isso é preciso esclarecer, quanto mais não seja para retirarmos ensinamentos, porque sabemos que ter um jornalismo forte e uma imprensa livre é importante para a democracia", alertou.

O deputado comprometeu-se, na próxima sessão legislativa, a propor "ou uma sequência de audições sobre este tema na comissão de Cultura" ou uma comissão de inquérito.

Na opinião do dirigente, apesar de o Governo estar em gestão e o país estar em período pré-campanha eleitoral, "o Estado não perde as suas funções de garante da Constituição".

"E portanto, se for preciso agir de forma a que se salve o grupo temporariamente para encontrar uma viabilidade futura, eu acho que o Estado não se pode eximir dessa função por causa do momento em que estamos, porque há um valor mais alto que se levanta e que se pode perder irremediavelmente caso o Estado não aja", avisou.

Questionada sobre esta possibilidade de se constituir uma comissão parlamentar de inquérito ao tema, a deputada do BE disse preferir que até à próxima legislatura se pudessem obter todos os esclarecimentos.

"Se as dúvidas se adensarem e se houver matéria para isso, nós nunca nos escapamos nem evitamos tal caminho, mas é tema que nem vale a pena discutir agora", disse, uma vez que o parlamento será dissolvido dia 15 de janeiro e a nova legislatura só arrancará alguém tempo depois das legislativas de 10 de março.

O WOF detém 51% das empresas Palavras Civilizadas e Grandes Notícias, onde os acionistas Marco Galinha e António Mendes Ferreira são detentores dos restantes 49%, de acordo com nova gestão da GMG, sendo que estas duas controlam 50,25% da GMG.

A Global Media, entretanto, pagou o subsídio de refeição relativo a dezembro, confirmou à Lusa fonte oficial do grupo que detém títulos como a TSF, Jornal de Notícias (JN), Diário de Notícias (DN) entre outros.

Durante a audição parlamentar sobre a atual situação da Global Media Group (GMG), o ex-diretor da TSF Domingos Andrade tinha avançado que hoje tinha sido pago o subsídio de refeição relativo a dezembro.

Contactada pela Lusa, fonte oficial da GMG confirmou que "o subsídio de refeição já foi pago".

Trabalhadores contactados pela Lusa também confirmaram o pagamento e disseram que a administração da GMG ainda não informou quando serão pagos os ordenados do mês passado.

Em 28 de dezembro, a Global Media informou os trabalhadores de que não tinha condições para pagar os salários referentes ao mês de dezembro, sublinhando que a situação financeira é "extremamente grave".

A Comissão Executiva não se comprometeu com qualquer data para pagar os salários de dezembro, mas sublinhou que estava a fazer "todos os esforços" para que o atraso seja o menor possível.

O programa de rescisões na Global Media termina em 10 de janeiro, dia para o qual também foi convocada uma greve dos trabalhadores do grupo.

Em 06 de dezembro, em comunicado interno, a Comissão Executiva da GMG, liderada por José Paulo Fafe, anunciou que iria negociar com caráter de urgência rescisões com 150 a 200 trabalhadores e avançar com uma reestruturação que disse ser necessária para evitar "a mais do que previsível falência do grupo".

Domingos Andrade na Comissão de Inquérito

Na manhã desta quinta-feira, na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, no âmbito do requerimento do Bloco de Esquerda (BE) sobre a atual situação da Global Media, o ex-diretor da TSF Domingos Andrade afirmou que nunca esperou o que está a acontecer nas redações do grupo e que se está a assitir "à destruição reputacional de marcas e redações".

Na sua intervenção, Domingos Andrade disse não poder "despir de emotividade" perante a atual situação dos trabalhadores do grupo, que enfrenta um processo de despedimento até 200 pessoas.

"O que está a acontecer nas redações é uma gravidade que nunca julguei possível assistir em democracia", lamentou o jornalista.

"Nós não estamos apenas a assistir ao fim de marcas, estamos a assistir à destruição reputacional de marcas e redações", prosseguiu, referindo que isso está a acontecer "partindo a espinha dessas redações pela fome".

Além disso, "não posso deixar de ficar incomodado com a intromissão pura e simples de uma administração no espaço de opinião e de programação de uma rádio como a TSF", acrescentou.

"Se senti pressões da nova gestão? Claro que sim"

Domingos Andrade disse aos deputados que sentiu pressões da nova gestão do fundo investimento World Opportunity Fund (WOF) e relatou "apenas um episódio" passado na rádio do grupo.

"Se senti pressões da nova gestão? Claro que sim", afirmou Domingos Andrade, em resposta a questões dos deputados.

"A nova gestão ainda mal tinha acabado de chegar e o senhor Paulo Lima de Carvalho [administrador], depois de ter tentado pressionar o diretor adjunto da TSF" para que ele "dissesse quem foi que aprovou uma determinada notícia" que tinha ido para o 'site' da rádio e goradas as tentativas, tentou "fazer o mesmo comigo", relatou o jornalista.

"Isto é apenas um episódio", acrescentou.

Na sua intervenção, Domingos Andrade contou ainda que teve conhecimento oficial que iria entrar um novo fundo "em meados de maio" de 2023.

"Tive conhecimento a partir de um telefonema de Marco Galinha [que era na altura presidente executivo (CEO) da GMG] dizendo que íamos ter ajuda de um novo administrador" que se chamava Paulo Lima de Carvalho, que viria com o fundo "cujas negociações estariam em bom andamento", prosseguiu.

O então diretor da TSF foi ver quem era Paulo Lima de Carvalho, apercebendo-se que este tinha trabalhado em "várias áreas", entre as quais na Casa da Música, no Porto, e "que também tinha ligações a uma empresa de assessoria para a comunicação "e que tinha ligações a um familiar de Luís Bernardo de outra empresa que se chama WL Partners".

Além disso, Domingos Andrade leu uma investigação na revista Sábado sobre o tema e diz ter ficado "apreensivo, tendo em conta algum histórico que já havia no próprio grupo como tentativa de controlar as parcerias com as câmaras municipais".

Entretanto, Paulo Lima de Carvalho "acabou por assumir praticamente a gestão de todas as áreas, menos a minha, que tratava, sobretudo, a questão editorial, daquilo que eram as necessidades das redações", prosseguiu.

Domingos Andrade garantiu que nunca teve conhecimento de qual era o objetivo dos acionistas, nem nunca teve uma reunião com o José Paulo Fafe [atual CEO da GMG], nem com Diogo Agostinho, "administrador que saiu agora recentemente acusado de traição pela própria administração" atual, de acordo com as notícias.

O jornalista teve uma reunião com os administradores Paulo Lima de Carvalho e Filipe Nascimento, depois de toda a equipa da Comissão Executiva ter chamado o então diretor executivo Pedro Cruz "convidando-o" para ser seu interino, "ao que ele terá recusado".

Nessa reunião, "a única que tive, basicamente o que me disseram é que me queriam afastar da TSF, era preciso encontrar uma solução no regresso a casa, no regresso ao Jornal de Notícias e eu respondi, do princípio ao fim" que pretendia continuar diretor da rádio enquanto a redação assim o entendesse, salientou Domingos Andrade.

Depois disso, "não tive mais nenhuma reunião com ninguém, nem sequer que me permitisse perceber as razões da minha saída quer como administrador para a área editorial da Global Media, quer como diretor da TSF".

Questionado sobre a situação financeira do grupo antes da entrada do WOF, o jornalista disse que "tanto quanto é do conhecimento público o grupo fecha o primeiro semestre com um EBITDA [resultado antes de impostos, juros, depreciações e amortizações] de 430 mil euros".

Este era "o quadro que havia no primeiro semestre de 2023", acrescentou.

Recordou ainda que em fevereiro passado, a Comissão Executiva "no seu todo" aprovou aumentos salariais para "compensar as graves dificuldades" que as pessoas estavam a sentir.

Primeiro foi aumentado o subsídio de refeição e depois proceder-se-ia a um aumento do salário escalonado.

"Esse aumento salarial parou partir do momento em que entrou o novo administrador", que pediu para aguentar os aumentos salariais até setembro.

A atual Comissão Executiva, liderada por José Paulo Fafe, tem esgrimido acusações aos restantes acionistas da GMG, acusando de terem protagonizado situações "ética e moralmente condenáveis" que contribuíram para a atual situação difícil do grupo e que "raro é o dia" em que não é apanhada "de surpresa".

Questionado sobre se havia ou não conhecimento por parte do WOF sobre as contas reais da empresa, Domingos Andrade foi perentório: "Não me parece que se façam 'due diligence' [análise e investigação] e que depois não se perceba" o que lá está.

"A destruição de valor tem sido tão grande, tão grave, tão gritante, eu não consigo sequer vislumbrar o que pode acontecer daqui para a frente", acrescentou.

A GMG não é a "mercearia da esquina", tratam-se de "marcas essenciais e absolutamente estruturantes para a construção da nossa democracia", reforçou, salientando que há um "cardápio" de entidades, ferramentas para regular a atividade dos media, considerando que isto terá impactos para o setor.

O WOF detém 51% das empresas Palavras Civilizadas e Grandes Notícias, onde os acionistas Marco Galinha e António Mendes Ferreira são detentores dos restantes 49%, de acordo com nova gestão da GMG, sendo que estas duas controlam 50,25% da GMG.

"De facto, o WOF tem uma participação indireta em redor de 26,0% no GMG", contando com participações de 29,35% de Kevin Ho e 20,40% de José Pedro Soeiro, segundo a Comissão Executiva.

Notícia atualizada às 14:04

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