Baterista de banda skinhead: "Nunca ouvi as letras, só me interessava o ritmo da música"

Um do membros da banda skinhead "BiBo", um dos 27 suspeitos neonazis que está a ser julgado por discriminação racial e incitamento à violência, negou ter conhecimento das letras racistas e xenofóbicas que tocava. Outro dos arguidos ouvido nesta quarta-feira negou também pertencer ao grupo dos cabeças rapadas.

"Dentro do estádio, pedras cadeiras e petardos; gritos de guerra, braço esticado, Sig Heil!!" é o refrão de uma das músicas tocadas pelo grupo "BiBo" (Blood in Blood Out) do qual faziam parte quatro dos 27 arguidos que estão a ser julgados por suspeita de pertencerem aos Portuguese Hammer Skins (PHS), a mais violenta fação dos cabeças rapadas, em nome da qual terão cometido vários crimes contra negros, homossexuais, muçulmanos, comunistas e antifascistas.

Outras canções tocadas têm letras racistas e xenofóbicas como "SHARP"s (Skinheads Against Racial Prejudice), pretos e RASH´s (Red and Anarchist Skinheads, escutem bem a nossa voz, nesta terra sagrada serão mortos por nós", ou ainda "Ó horrível Judeu! Vais morrer esta noite!".

Ouvido nesta quarta-feira em tribunal, um dos alegados membros da BiBo, o baterista da banda Pedro Guilherme, que o Ministério Público (MP) acusou discriminação racial e incitamento à violência, garantiu aos juízes "nunca" se ter apercebido da letra das canções, muito menos do significado de PHS ou das intenções do grupo.

"Nunca ouvia as letras, a minha preocupação era o compasso, a métrica e o ritmo da música", assegurou aos juízes. "Mas tem problemas de audição?", questionou o juiz presidente Noé Bettencourt. "Horrível judeu, NS o nosso ideal, Sig Heil? Não lhe diz nada", insistia, surpreendido, o magistrado, perante as respostas negativas do arguido, baterista da banda skinhead.

Pedro Guilherme garantiu que "nunca liga às letras", é "apenas um músico", que até já tocou também com "Tito Paris e o Emanuel" e que a a sua colaboração com a Bibo foi apenas "temporária", em dois concertos e "dois ou três ensaios".

Mais tarde, esta versão viria a ser corroborada pelo inspetor da PJ que coordenou a investigação, segundo o qual Pedro Guilherme não estava referenciado como fazendo parte dos PHS ou de outros grupos de extrema-direita violenta e que se afastou.

Outro arguido a ser inquirido foi Luís Ribeiro, empresário, acusado de discriminação racial e tráfico de armas. Segundo o MP, na altura dos factos tinha uma empresa dedicada à venda online de vestuário ultra, associado às claques de futebol e ao hooliganismo.

Não sabia que petardos eram ilegais

Alega o despacho de pronúncia, que na busca domiciliária, para além do stencil que serviu de molde para produzir t-shirts "Refugees are not welcome" usadas numa manifestação de 2015 (referida também neste processo por ter tido a participação de elementos do PHS ), foram ainda apreendidos um bastão em madeira, 13 tochas de fumo, dois petardos, uma peça de vestuário com inscrições nacionalistas e material diverso de propaganda à causa nacionalista.

Ribeiro, que viria a assumir em tribunal ter uma tatuagem com um "símbolo de Portugal" (cujo significado não explicou ao juiz), negou pertencer "ou querer pertencer" ao PHS e garantiu que se tinha limitado a fazer as t-shirts a pedido de dois dos arguidos, Rui Veríssimo e Miguel Afoito, que conhecia de outro contexto. Confirmou ainda conhecer "há alguns anos", do Sporting, Bruno Monteiro, outro arguido e que foi líder dos PHS depois de Mário Machado.

Alegou desconhecer que as t-shirts seriam para uma manifestação anti-refugiados e que apenas se apercebeu "no momento em que as entregou", no próprio dia, perto da Assembleia da República, onde a mesma de estava a realizar. Sobre o material pirotécnico apreendido, alegou que, "nessa altura não fazia ideia que era ilegal" e que o "bastão", não era mais que um "pequeno taco de basebol, com a respetiva luva e bola, comprado na loja do Sporting", que tinha adquirido para "dar uns toques com o filho".

Começou a ser ouvido o inspetor da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ, Paulo Vaz, que coordenou a investigação, mas pouco foi questionado sobre os casos e crimes violentos que sustentam o processo.

O juiz quis analisar caso a caso e no primeiro, a agressão aos militantes comunistas que desencadeou toda a investigação, pouco foi explicado sobre as provas na posse das autoridades.

A procuradora do MP para o julgamento, Rita Brandão, preocupou-se mais em saber sobre a forma como a PJ tinha feito a investigação e o historial do PHS, o que foi aproveitado pelos advogados para inquirirem ainda mais o inspetor sobre meios de investigação e como são monitorizados este grupos - o que pode ser interessante para os próprios.

A surpresa do guarda prisional

Paulo Vaz não deixou de salientar a sua "surpresa" e da equipa da UNCT quando identificaram o arguido João Vaz, um guarda prisional, que está acusado por crimes de ofensa à integridade física qualificada, discriminação racial e detenção de arma proibida.

"O aparecimento do João Vaz, um guarda prisional, foi algo que nos surpreendeu, pois apesar de já termos conhecimento da sua ligação às claques e alguma simpatia nacionalista, não tínhamos registo de ligações à extrema-direita a este nível. Foi um sinal de alarme", declarou.

Um dos casos de que este polícia está acusado de coautoria é o do espancamento que deixou um militante comunista à beira da morte. Interrogado na semana passada em tribunal, manteve a versão da fase de inquérito, segundo a qual apenas assistiu às agressões ao militante, não tendo participado.

Negou alguma vez ter pertencido aos PHS ou ter agredido alguém, mas teve dificuldades em explicar porque razão foi encontrada uma soqueira, um cachecol daquele movimento neonazi e um livro escrito por Hitler numa busca efetuada à sua residência. João Vaz foi associado a este caso porque testemunhas o viram no local e por ter deixado cair a sua carteira no local, tendo sido logo identificado pela PSP.

Estão a ser julgados 27 homens por suspeita de pertencerem aos PHS e de terem cometido um total de 77 crimes entre 2013 e 2017, entre os quais tentativa de homicídio, ofensa à integridade física qualificada, discriminação racial e sexual e detenção de arma proibida.

Este caso foi desencadeado em 2016 quando uma operação da UNCT deteve 20 suspeitos. Na altura o tribunal libertou-os todos, mas a investigação da UNCT levou a um total de 36 arguidos e à junção de novos casos , tendo o MP, em junho de 2020, acusado 27.

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