Bacalhau ainda é tradição mas os jovens estão a mudar os hábitos

Hotéis recebem cada vez mais reservas para a noite de consoada. Menus aliam tradição e pratos gourmet

Durante anos, Maria Maia, 56 anos, viu-se obrigada a fazer dois pratos para o jantar de Natal: bacalhau cozido com todos para os adultos, bifes com cogumelos para os miúdos e para a sogra. "Não porque não gostassem. Mas, se é um dia de festa, porque não comerem o prato preferido? Isso acabou quando mudei de emprego e deixei de ter tempo." A solução mais prática, até porque vivem perto da zona da Bairrada, foi comprar leitão: "O que interessa é que estejamos todos juntos, que possamos sentir a alegria de estar em família."

Para a maioria dos portugueses, não há Natal sem bacalhau cozido. Há zonas, contudo, onde esse não é o prato típico e cada vez mais casas onde, muito graças às novas gerações, se levam outros pratos à mesa. Até os próprios restaurantes dos hotéis, que neste ano registaram um crescimento acentuado nas reservas, procuram ter um menu que agrade a todos.

"Há muita juventude, que já não está tão ligada ao bacalhau, ao polvo e ao peru como as gerações mais velhas. É por isso que também temos risotos, massas e outro tipo de pratos de carnes no menu", explicou ao DN António Pereira, diretor-geral do Sheraton Lisboa.

Virgílio Nogueiro Gomes, investigador em História da Alimentação, diz que as tradições têm vindo a perder-se. "Há um desvio comodista para não continuar com a tradição. Até porque as novas gerações nem sempre entendem a necessidade de manter estes elementos identificadores da população, e também a deseducação que permite não gostar de muitos produtos."

Na opinião do professor de Gastronomia e Cultura e da História da Alimentação, há o "comodismo de só comer o que mais se gosta". De tal forma, diz, que "até pizas já vão à mesa de Natal...!"

Nos vários take away contactados pelo DN, o bacalhau continua a ser dos mais pedidos, mas não o tradicional. "O que sai mais é o bacalhau com broa e com natas, peru, rosbife, cabrito e arroz de pato", diz ao DN Margarida Coutinho, do Puro Acaso, em Lisboa.

No Nacional, em Coimbra, o top é semelhante. "Não vendemos o cozido. Os mais pedidos são o bacalhau com broa, o peru, o arroz de pato e o cabrito", adianta ao DN Filipe Viseu, o proprietário, que espera mais encomendas do que no ano passado. Para Virgílio Gomes, "já é bom comerem bacalhau", seja lá de que maneira for.

Reservas com mais antecedência

Cada vez mais portugueses escolhem passar o Natal em hotéis ou em restaurantes. António Pereira diz que, pela primeira vez, o Sheraton vai abrir também o restaurante panorâmico devido à elevada procura. "Nos últimos quatro anos, os hotéis enchem à última hora. Por incrível que pareça, neste ano, os portugueses começaram a fazer as reservas no final de novembro", revela. Na opinião deste responsável, essa antecipação pode ser reflexo de um sentimento de "melhoria na economia".

Esta realidade é percecionada pelos hotéis Tivoli. "Cada vez mais as famílias portuguesas procuram os nossos hotéis para a noite de consoada - sejam grandes famílias ou casais - e as reservas são feitas cada vez mais cedo", diz fonte do grupo.

No Crowne Plaza, no Porto, a procura também é cada vez maior. "As famílias querem, cada vez mais, uma solução confortável, cómoda e divertida, onde possam usufruir em pleno de uma noite especial", refere a diretora comercial Maria Manuel Ramos. Nos hotéis Vila Galé, Catarina Pádua, diretora de marketing, fala de um crescimento de cerca de 25% em relação a 2015 nas reservas da noite de 24 para 25.

A preocupação dos hotéis é levar para as mesas os sabores tradicionais da quadra, mas oferecer algo mais. "É obrigatório ter bacalhau, polvo e peru, mas temos de inovar, criar", diz António Pereira.

viagens Quatro em cada dez portugueses vão gozar férias fora de casa durante o período de Natal e final de ano. É o que diz um estudo do Instituto de Planeamento e Desenvolvimento do Turismo (IPDT), que aponta para um crescimento de quase 6% face ao ano passado. Ao DN, Pedro Costa Ferreira, diretor da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), confirma: "Os últimos indicadores apontam para um crescimento nas viagens de 12% em relação a igual período do ano passado."

Em Portugal, Algarve e Madeira são os destinos mais procurados. Lá fora, Brasil, Nova Iorque, Paris e Dubai, tal como Cabo Verde - cuja oferta é reforçada - lideram as preferências dos portugueses que optam por passar estas duas semanas fora do país. "Nos destinos, a procura é muito eclética e não é muito diferente do ano passado", frisou.

Mais portugueses a ir para fora no Natal e fim de ano

Segundo Pedro Costa Ferreira, "há um crescimento, que também se sentiu ao longo do ano. Não é surpresa. É sinal de alguma confiança". De acordo com o representante do setor, "o lazer dos portugueses tem vindo a recuperar nos últimos três anos. Fechamos este ano já com os números que tínhamos antes da crise".

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