Um doente que sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) entra numa junta médica. Consegue andar sem ajuda, move os braços com agilidade e articula as palavras sem aparente dificuldade. Para os peritos, para a entidade patronal e para o cidadão comum, a recuperação é total; o caso está encerrado. Mas, dentro de portas, a família depara-se com um desconhecido. "Esta não foi a pessoa com quem eu me casei" ou "este já não é o meu pai", são desabafos que o neurologista Pedro Nascimento Alves escuta com demasiada frequência na Unidade de AVC do Hospital de Santa Maria, em Lisboa."O doente tem um AVC, às vezes, felizmente, recupera a força muscular, volta a conseguir andar, consegue voltar a falar... mas algumas destas sequelas implicam alterações importantes da memória, da orientação, da concentração", explica o médico de 38 anos. São as chamadas sequelas cognitivas e comportamentais invisíveis, um território cinzento que a sociedade e o próprio sistema de saúde tendem a secundarizar assim que a reabilitação física está assegurada. "Do ponto de vista médico-neurológico, damos muita relevância a esses fatores (...). Do ponto de vista social, às vezes é difícil passar esta mensagem."É precisamente para resgatar estes doentes do esquecimento cognitivo que Pedro Nascimento Alves desenhou um ensaio clínico pioneiro, agora viabilizado pelo financiamento de 150 mil euros da Bolsa CUF D. Manuel de Mello. No entanto, se o prémio representa o "oxigénio" indispensável para a ciência avançar, o caminho que o investigador enfrenta expõe as fragilidades estruturais de quem tenta fazer ciência de elite em Portugal.A revolução da "reciclagem" personalizadaA grande inovação do projeto assenta numa ferramenta informática desenvolvida pela equipa, batizada de Neuro T-Map. Até hoje, os ensaios clínicos para tratar sequelas cognitivas falhavam porque administravam o mesmo fármaco a todos os doentes, sem critério. "Não havia forma de medir se aqueles doentes, de facto, tinham o circuito de neurotransmissores lesado ou não", aponta o investigador.O Neuro T-Map veio mudar as regras do jogo ao permitir mapear, de forma minuciosa, quais as autoestradas químicas do cérebro (neurotransmissores como a acetilcolina, a serotonina ou a dopamina) que foram destruídas pelo AVC. Sabendo exatamente onde está o corte de comunicação, a equipa avança para uma abordagem cirúrgica e personalizada, utilizando fármacos que já existem no mercado e que são usados noutras patologias, como o donepezilo (para o Alzheimer) ou a sertralina (para a depressão)."O que nós conseguimos agora perceber é: no doente X, o problema é a acetilcolina, e, portanto, nós vamos dar um fármaco que modula a acetilcolina; no doente Y, o problema já é mais a serotonina e, portanto, nós vamos modular a serotonina", sintetiza.Além de inovadora, a técnica é profundamente democrática. Apesar de ter sido desenhada com recurso a exames de alta complexidade e custos elevados — como a tratografia por ressonância magnética e exames de medicina nuclear PET —, a sua aplicação diária foi pensada para o comum hospital do Serviço Nacional de Saúde (SNS). "Nós não estamos dependentes de exames complementares caros ou que não existam nos hospitais (...). Nós podemos pegar naquilo que o doente faz por motivos clínicos, qualquer doente com AVC, e fazer o mapeamento a partir desse exame." Na prática, o doente não paga mais nada nem é submetido a radiação extra: "O doente só tem de fazer uma ressonância ou uma TAC durante o seu internamento. Nós só basicamente analisamos essa TAC de uma forma mais avançada."Fazer ciência nos intervalos das urgênciasSe a ciência parece simples no papel, a sua execução em Portugal é uma corrida de obstáculos. O financiamento de 150 mil euros é, na verdade, um balão de oxigénio que serve para cobrir despesas que escapam ao olhar comum. "Temos de adquirir medicamentos que os doentes não fariam no seu percurso clínico habitual, e temos de adquirir também o placebo. Por estranho que pareça, o placebo acaba por ser mais caro do que os medicamentos em si", revela Pedro Nascimento Alves, aludindo às exigências logísticas e de segurança de um ensaio clínico de dupla ocultação. Há ainda seguros de doentes a pagar, equipamentos técnicos e recursos humanos externos, como neuropsicólogos.Mas o maior obstáculo à investigação médica em Portugal não se mede em euros: mede-se em horas. O neurologista que agora lidera este projeto de ponta acumula a investigação com a exigente prática clínica no hospital público. "Não existe depois uma carreira de médico-investigador, ou seja, eu não tenho tempo alocado à minha atividade clínica para fazer investigação. É tudo um bocadinho por gosto, por iniciativa das pessoas."O cientista que hoje recebe o maior prémio nacional para jovens médicos doutorados é o mesmo clínico que, horas antes, cumpria o seu banco de urgência em Santa Maria, dividindo-se entre telefonemas urgentes sobre doentes agudos e a gestão de um ensaio clínico de fase II que acompanhará 100 doentes durante dois anos. "Temos de cumprir essas horas de banco (...). É tudo o resto como o das outras pessoas e, portanto, do ponto de vista de organização faz falta, sim. Seria muito bom se se criasse uma verdadeira carreira de médico-investigador."A urgência do projeto é também biológica. A equipa determinou que os fármacos têm de ser introduzidos logo nos primeiros sete dias após o AVC. "Depois dos primeiros dias (...), há aqui um conjunto de processos de inflamação, de morte neuronal e de plasticidade neuronal" que tornam as lesões irreversíveis. "A ideia de ser precoce é a ideia de que alguns circuitos ainda podem ser reativados", conclui o médico.Com o financiamento assegurado, Pedro Nascimento Alves e a sua equipa multidisciplinar de oito a dez pessoas preparam-se para iniciar a fase II do ensaio. Sabem que a aplicação direta nos doentes ainda exigirá uma futura fase III, mais ampla. Mas o primeiro passo para resgatar a identidade perdida de milhares de sobreviventes de AVC já começou — erguido sobre a generosidade de uma bolsa e, acima de tudo, pela insistência de quem recusa deixar a ciência portuguesa morrer na gaveta.