António José Seguro, Presidente da República
António José Seguro, Presidente da RepúblicaJOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Associação de vítimas de abusos na Igreja cancela reunião em Belém e quer ser recebida por Seguro

Porta-voz da associação garante que “não vamos reunir com assessores e queremos reunir com o Presidente, a quem queremos entregar um dossiê sobre o processo”.
Publicado a
Atualizado a

A associação Coração Silenciado, que representa as vítimas de abusos sexuais na Igreja, cancelou esta segunda-feira uma reunião com assessores presidenciais e pediu para ser recebida por António José Seguro, à semelhança do que sucedeu com Marcelo Rebelo de Sousa.

“Não vamos reunir com assessores e queremos reunir com o Presidente, a quem queremos entregar um dossiê sobre o processo”, afirmou à Lusa António Grosso, porta-voz da associação.

“Na sexta-feira às 18:35 recebemos um mail a marcar para as 14:00 de hoje” uma reunião em Belém, com a Casa Civil”, mas “nós queremos falar com o senhor Presidente da República e isto fica sem efeito até que consigam a reunião com o senhor Presidente”, afirmou o dirigente da associação.

Já “tínhamos sido recebidos pelo ex-Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e queremos o mesmo com o doutor António José Seguro”, a quem a associação vai pedir apoio para tentar fiscalizar o processo de compensações, explicou.

A associação vai entregar um “dossiê no sentido que o Estado assuma alguma responsabilidade em todo este processo, designadamente na revisão e auditoria de todo o processo de apoio e compensações às vítimas de abusos sexuais no contexto da Igreja Católica portuguesa, porque tudo foi feito em causa própria, com muitas deficiências, muitas ilegalidades e muita falta de respeito pelos direitos humanos das vítimas”.

Em particular, a associação contesta o facto de a comissão da Igreja ter considerado “40 pessoas inelegíveis para compensações, apesar de compreender o sofrimento das vítimas”, porque correspondem a “casos que estão arquivados noutro Estado, no Vaticano”, salientou.

Por isso, “queremos expor toda essa problemática ao Presidente da República, para que deixe de haver omissão do Estado que tem responsabilidade no cuidado de crianças e jovens que nós éramos”, disse António Grosso.

As vítimas querem que o "Estado, de uma vez por todas, assuma a responsabilidade de ter algum papel em todo este processo, que foi todo ele desenvolvido em causa própria, aberto e fechado em causa própria, com muitas ilegalidades, com muita falta de respeito pelas vítimas", afirmou anteriormente António Grosso, que critica o silêncio de António José Seguro.

Em setembro, a associação irá também enviar o dossiê ao parlamento sobre esta matéria, para que o Estado faça "uma revisão e uma auditoria a todo este processo que a Igreja desenvolveu dentro de portas, com muita falta de transparência, desde logo porque os relatórios que serviram de base à fixação de valores das compensações foram escritos pelas comissões de instrução de acordo com o regulamento estabelecido" pelos bispos.

Em resposta a estas críticas, a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) já manifestou a sua disponibilidade para colaborar com a sociedade civil no combate aos abusos sexuais, mas não quis comentar as iniciativas da associação.

"As vítimas são livres de apresentar as suas preocupações às instâncias que considerem adequadas", respondeu à Lusa fonte da CEP.

Em abril, o presidente cessante da CEP, José Ornelas, estimou que as investigações internas dos abusos, o apoio às vítimas e as compensações implicaram uma despesa total de três milhões de euros à Igreja em Portugal.

As vítimas de abuso sexual na Igreja Católica vão receber entre 9 mil e 45 mil euros e já foram aprovados 57 pedidos, faltando definir montantes para nove casos, perfazendo, até ao momento, o valor de 1.609,650 euros.

Há casos que estão a decorrer nos tribunais e investigações no Ministério Público e José Ornelas disse esperar que as "instituições do país funcionem para que essa investigação possa ser feita de uma forma isenta e também para que as pessoas possam ser convocadas" pelas autoridades.

António José Seguro, Presidente da República
Governo vai propor isenção de impostos nas indemnizações às vítimas de abusos na Igreja Católica
Diário de Notícias
www.dn.pt