"As nações em desenvolvimento olham para as Três Gargantas como prova do que o Estado pode fazer"

Água: uma biografia, do académico ítalo-britânico Giulio Boccaletti, faz uma análise do modo como as diferentes sociedades humanas ao longo dos milénios se relacionaram, e se relacionam, com um elemento que é essencial à sobrevivência, mas cuja gestão exige vasto saber e muita organização.

Qual a importância da Barragem das Três Gargantas, no rio Yangtzé, para a ambição da China de ser uma superpotência?
Muito importante. É a maior barragem do mundo, finalizada e entregue antes do previsto e abaixo do orçamento. Assim que ficou operacional, há uma década, tornou-se uma prova das extraordinárias capacidades do Estado chinês, uma nova superpotência no cenário mundial e uma aspirante à hegemonia. Mas também é um símbolo do modelo de desenvolvimento chinês, muito baseado nas infraestruturas, na gestão de cima para baixo, e que o país está a exportar para o exterior, especialmente para África. Durante o início do século XX o mundo olhou para a Barragem Hoover e as outras construções do Oeste Americano com estupefação e como modelos de desenvolvimento. No século XXI, as nações em desenvolvimento olham para a Barragem das Três Gargantas como prova do que o Estado pode fazer.

A China é também, historicamente, o grande exemplo de um Estado hidráulico, ou o Egito é ainda uma melhor explicação para a conexão entre a capacidade de construir barragens e sistemas de irrigação e um Estado centralizado?
Ambos os países se concentraram na água em momentos diferentes da sua história. A China por causa da dificuldade de gerir rios poderosos, como o Yangtzé e o Amarelo, o Egito porque é "o dom do Nilo", como disse Heródoto. Mas os Estados Unidos modernos também são um Estado hidráulico. A questão não é se alguns Estados são ou não hidráulicos, mas as escolhas que fazem na gestão da água na paisagem - o agente mais poderoso do sistema climático -, pois têm que fazer escolhas sobre como exercer e distribuir poder sobre o seu território. Nessa decisão, uma sociedade determina que tipo de Estado hidráulico será o seu.

O Império Romano era bom a lidar com a água, mas o Estado patrocinar aquedutos era até uma espécie de exceção. A gestão da água dependia da iniciativa privada?
Sim. Embora hoje nos lembremos de Roma por causa de seus aquedutos, eram estruturas em grande parte privadas, a maioria destinada a fornecer água aos centros urbanos (e muitas vezes aos banhos públicos). A verdadeira inovação da gestão da água por Roma foi a sua dependência de um vasto mercado de grãos em todo o Mediterrâneo, que garantiu que Roma pudesse contar com um suprimento constante de trigo proveniente de todos os cantos do grande mar, de todo o império. Desta forma, eles podiam proteger o seu suprimento de alimentos da variabilidade da chuva. Quando uma seca atingia Espanha, podiam obter alimentos da Turquia, e vice-versa. As instituições, em vez de infraestruturas, foram, e são, a resposta para a gestão da água.

O rio Mississípi foi crucial para os Estados Unidos se desenvolverem como uma grande potência, pois é ainda hoje importante para, no interior do país, promover a agricultura, o comércio, etc.
O Mississípi-Missouri é um sistema extraordinário. A sua bacia hidrográfica cobre 40% dos Estados Unidos continentais. É um dos maiores rios do mundo, fornecendo tanto infraestruturas de irrigação quanto de transporte, que beneficiam, naturalmente, uma das maiores e mais férteis terras do mundo. É um acidente geográfico, mas que deu aos Estados Unidos uma enorme vantagem estratégica e económica, tanto que alguns o apelidaram de "império inevitável".

A política hídrica soviética na Ásia Central é um exemplo de como não lidar com a água?
Sim. Estaline comprometeu-se com a coletivização para acelerar a produção de algodão e trigo para apoiar a industrialização. Como a Ásia Central é fértil, mas seca, grande parte da sua intervenção focou-se na construção de infraestruturas de irrigação e na tentativa de reflorestar a paisagem, para evitar a desertificação - as chamadas "grandes obras do comunismo". Mas o problema residia em que tudo isso se tornava mais um instrumento de controlo social do que um processo de desenvolvimento. Falhou e acabou a fazer falir a União Soviética.

A ideia de guerras da água faz sentido?
Não. Primeiro, porque quem pensa que a guerra pode ter uma única causa não estudou História. Basta olhar para o grande conflito atual: há tantas causas propostas quanto artigos escritos sobre ele. Segundo, porque, na medida em que se podem determinar mecanismos causais para a guerra entre Estados, a água implica mais frequentemente a cooperação do que o conflito. Pense, por exemplo, no Paquistão e na Índia, dois países que lutaram em três guerras nos últimos 70/80 anos mas que, durante esse período, continuaram a cooperar com base no Tratado de Águas do Indo, um acordo bilateral para o rio Indo que partilham. Isto não quer dizer que não devamos preocupar-nos com a água. A não gestão adequada da água pode levar a desastres económicos e sociais que podem minar a legitimidade do Estado e corroer a estabilidade da sociedade. E isso pode ser um ponto de partida para a instabilidade.

Giulio Boccaletti

Água: uma biografia

Desassossego 19,90 euros

368 páginas

leonidio.ferreira@dn.pt

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