Patrícia Sampaio, medalha de prata nas últimas Olimpíadas, entra no pavilhão da Escola Secundária Santa Maria, em Sintra, e é aplaudida com entusiasmo pelos jovens participantes do 5.º Judo Camp, que ali se realizou entre 5.ª feira e ontem, numa iniciativa do Sport União Sintrense. .A seu lado, numa breve preleção aos atletas (cerca de 150, todos federados, os mais novos com 7 anos de idade) está Carlos Lopes, o nosso primeiro campeão olímpico de sempre. Ambos falam da importância que o treino e o trabalho árduo desempenham na conquista dos resultados com que todos sonham, mas também do poder de enfrentar a adversidade. Carlos Lopes recorda como, antes das medalhas e da glória olímpica, uma lesão o levou a ser dado como inapto para a prática desportiva. Até que entrou em ação Kiyoshi Kobayashi, japonês, radicado em Portugal desde o final da década de 1950, que, para além de médico, foi um judoca de exceção e grande responsável pelo desenvolvimento da modalidade no nosso país. Carlos Lopes voltou às pistas e conquistou o Ouro Olímpico na maratona dos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984..Renato, filho e continuador da obra de Kiyoshi, também ele judoca Olímpico (nos jogos olímpicos de Seul, em 1988), é a “alma” deste Judo Camp e, como sugere a atenção extrema que põe em todos os detalhes, um entusiasta do ensino da modalidade que começou a praticar aos oito anos de idade: “Já estamos na quinta edição”, conta ao DN. “e a adesão continua a crescer. Para além de termos judocas de clubes de todos os pontos do país, também contamos com inscrições de atletas espanhóis e marroquinos. O mais novo tem 7 anos e depois é um crescendo de idades.”.Carlos Lopes, Orujov Rustam, Renato Kobayashi e Patrícia Sampaio.Crédito: Leonardo Negrão.Nesta edição, para além da muito festejada “lição” de Patrícia Sampaio, o estágio teve a participação do atleta Olímpico Orujov Rustam, do Azerbaijão, vice-campeão Olímpico em 2016 e duas vezes vice-campeão do Mundo em 2017 e 2019 na categoria de menos 73 Kg. O valor deste convívio entre consagrados e atletas ainda em formação é reconhecido pela olímpica Patrícia Sampaio, que nos admitiu gostar muito de experiências como esta: “Gosto muito de tudo no judo, incluindo esta vertente de passar ensinamentos aos mais novos. Mas, se calhar, mais do que ensinar é, na verdade, uma partilha de reflexões e de vivências, que também me interpela. É um estimulo diferente do que me proporciona a competição.” Sentindo que o judo está a crescer em Portugal (e que a sua medalha aumentou ainda mais a popularidade desta prática), Patrícia acrescenta que fica contente, mas que “importa passar a mensagem de que só com muito trabalho diário se chega a grandes resultados.”.Crédito: Leonardo Negrão.Se alguém sabe de Pedagogia da prática desportiva é Renato Kobayashi. Para além de professor no Colégio Militar, dirige o judo no Sport União Sintrense, onde ele próprio começou a treinar com outro dos impulsionadores da modalidade no nosso pais, Mestre Bastos Nunes. Quaisquer que sejam as idades ou os objetivos dos formandos, Renato procura incentivar uma visão integrada do desporto, que não se esgote na hora do treino: “No Sintrense, temos um projeto de combate à obesidade, sobretudo nas crianças, em que fazemos palestras sobre nutrição junto das famílias. O nosso objetivo é sobretudo mudar mentalidades e mostrar que, ao contrário do que se pensa, comer bem não tem de ser caro. Temos contado, nestas atividades, com o patrocínio do Grupo Bel, o que tem sido decisivo para que possamos continuar.” .Quem tem uma palavra a dizer são as autarquias - neste caso, o Judo Camp conta com as colaborações da Câmara Municipal de Sintra e da Junta de freguesia da Portela de Sintra. Bruno Parreira, vice-presidente do município, fala da importância de envolver as comunidades nos programas municipais de desporto. E vai dizendo que também, nessa matéria, há ainda muito por fazer: “Temos de acabar com a ideia de que queremos medalhas de quatro em quatro anos, mas sem nada fazermos para que o padrão mude. Não é aceitável que se fique muito maçado porque a Câmara fecha a estrada, uma vez por ano, para uma prova de ciclismo ou atletismo.” Bruno Parreira não hesita em dizer que, para a maior parte da população, o desporto único ainda é o futebol e que, ainda assim, mais importante do que a prática, é a filiação clubística: “O desporto é indutor de cidadania e de saúde, mas se a comunidade não percebe esse valor, as autarquias não têm capacidade de atrair investimento para o setor.”