O novo vinho é produzido a partir de castas Alvarinho e Fernão Pires.
O novo vinho é produzido a partir de castas Alvarinho e Fernão Pires.FOTO: Gerardo Santos

Amphorae, um vinho enriquecido pela experiência do barro

Tudo começou com uma ânfora antiga encontrada na Quinta de Alorna. Desafiados a usá-la para a fermentação de vinho, os enólogos fizeram do Amphorae o primeiro produto de um laboratório muito especial.
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A casa da Quinta da Alorna encerra ainda os segredos de uma linhagem feita de antigos vice-reis da Índia, um oficial morto na Europa de Leste ao serviço de Napoleão e, antes de mais, uma poetisa e uma voz insubmissa, como foi a de Leonor de Almeida Portugal, Marquesa de Alorna. Dessas vidas, e das de muitas pessoas que com eles viveram, restam, na casa da família, em Almeirim, objetos vários, entre os quais uma ânfora antiga de barro, sobre a qual se sabe apenas que é muito antiga, embora não se saiba a que época remonta nem como foi ali parar. Mas os arqueólogos já estão no terreno, a indagar, asseguram-nos.

Da descoberta da ânfora à ideia de a usar para a fermentação de vinho, à moda da tradição do vinho da talha, foi um passo, que a equipa de enólogos dirigida por Martta Reis Simões abraçou com entusiasmo. Para tal, contribuiu ainda o facto de um dos membros desta equipa, Luís Lérias, ser natural do Alentejo, que é, como o próprio reconhece, um dos “santuários” europeus de preservação desta prática, iniciada na Antiguidade Clássica.

Após muitos testes, chegou-se a um produto final que beneficia das qualidades da ânfora de barro cru. Assim surgiu o novo vinho da marca, o Amphorae, produzido a partir de castas Alvarinho e Fernão Pires, onde sobressai a combinação de aromas de laranja, pêssego, ervas aromáticas, à mistura com a nota fresca do envelhecimento no dito barro. Tudo começou na vindima manual das duas castas separadas e maceração pelicular durante 24 horas a fio e prensadas no dia imediato. O Alvarinho, após clarificado, foi colocado na talha de barro cru, enquanto o Fernão Pires iniciou espontaneamente a fermentação após 72 horas com as borras em suspensão.

Esta edição limitada de 813 garrafas, vendidas ao preço de 30 euros por unidade, em garrafeiras selecionadas e na loja online da Quinta da Alorna, é o primeiro produto nascido no laboratório Wine Creations. Como nos conta Pedro Lufinha, diretor-geral da marca, este projeto vocacionado para a experimentação “nasce da consciência de que o mercado está em crise e que, assim sendo, a nossa estratégia passa por apresentar produtos diferenciadores e apresentá-los aos sommeliers dos restaurantes, às garrafeiras premium e aos jornalistas, de modo a conseguirmos que o nosso produto seja comunicado a quem o possa apreciar.”

Pedro Lufinha, diretor-geral da marca. FOTO: Gerardo Santos

Pedro considera que este Amphorae, apresentado ao mundo com o belo rótulo da Rita Rivotti, é um bom cartão de visita do que se pretende com este Wine Creations, no qual a marca investiu cerca de 250 mil euros: “A equipa de Enologia fez muitos testes, para termos a certeza que oferecemos ao consumidor algo que realmente traga um upgrade de qualidade. Temos a ambição e a vontade de inovar no sentido de chegar a um segmento de nicho em Portugal e no estrangeiro.” De resto, esta Wine Creations, já tem em preparação mais dois vinhos, que em breve se juntarão a este produto inicial.

Também para a enóloga Martta Reis Simões, “o Amphorae 2023 marca o início e o reflexo deste projeto ambicioso através do trabalho percorrido até aqui, em que a criatividade e dedicação pelo que nos inspira e move se cruza com o conhecimento.”

No portfolio desta temporada, apresentado na passada segunda-feira, a marca incluiu ainda o Reserva das Pedras branco e tinto 2021 e o Marquesa da Alorna Branco e tinto 2019. Outra novidade é o vinho para sobremesa Quinta da Alorna colheita tardia tinto 2015. Dotado de uma cor rubi, com aromas florais, geleia de frutos e um toque leve de baunilha, é recomendado no acompanhamento de queijos fundidos, chocolates, frutos silvestres, cheesecake e bolos à base de especiarias.

Mas nem só de vinhos vive esta casa cheia de histórias que se confundem com a própria História de Portugal. Com uma área total de 2600 hectares, a Quinta da Alorna está dividida em 180 hectares de vinha, 500 dedicados a regadio e cerca de 1900 à floresta. Na área de regadio, a produção está integralmente dirigida à indústria agroalimentar, com produtos como o milho, o amendoim ou a batata doce. Na área silvícola encontramos montado de sobro, de onde se retira cortiça, pinhal manso, para produção de pinhão e eucaliptos para produção de pasta de papel. A pensar na sustentabilidade, a Quinta da Alorna dispõe ainda de seis centrais de energia fotovoltaica.

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