Mosquito aedes albopictus transmite chicungunya e está identificado em Portugal desde 2017.
Mosquito aedes albopictus transmite chicungunya e está identificado em Portugal desde 2017.Genilton Vieira IOC/Fiocruz

Alterações climáticas estão a globalizar doenças antes tropicais

Investigador da Fundação Oswaldo Cruz, instituição brasileira de referência na área da saúde pública, explica que a alta das temperaturas e os movimentos de pessoas com a globalização fazem com que doenças antes típicas dos países do centro do globo terrestre migrem para outras zonas. Portugal está em área de risco para surtos de chicungunya.
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O alerta feito pelo estudo publicado na revista científica britânica The Royal Society sobre o risco de surtos de febre chikungunya em Portugal e noutros países do sul da Europa faz todo o sentido dentro de um novo quadro que começa a ser identificado pela ciência. “Nós temos observado a ocorrência cada vez mais frequente de doenças antes chamadas de doenças tropicais, que só existiam nos trópicos, acontecendo em outros países”, explica o investigador e especialista em infetologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Rivaldo Venâncio.

E o que tem feito estas doenças tropicais migrarem dos trópicos para zonas mais altas do globo? Segundo o especialista, o fenómeno resulta de uma combinação de temperaturas elevadas com uma maior circulação de pessoas entre países. “Cada vez mais, com essas mudanças climáticas, com a elevação da temperatura média mundial, há uma tendência de esse termo ‘doença tropical’ ir desaparecendo paulatinamente. Com a globalização que está aí, as pessoas podem transitar de um continente para outro em algumas horas e, consequentemente, essas doenças passam a acontecer em todos os continentes de forma rotineira”, completa Rivaldo Venâncio.

Zona Tropical concentra altas temperaturas e chuva abundante, o que favorece a proliferação de mosquitos vetores de doenças.
Zona Tropical concentra altas temperaturas e chuva abundante, o que favorece a proliferação de mosquitos vetores de doenças.

Os mosquitos

Muitas destas doenças são viroses, como a malária, a dengue ou a febre chikungunya, e são transmitidas por mosquitos que, ao picarem uma pessoa infetada, passam a ser vetores de transmissão do vírus. No caso da febre chikungunya, o vírus, com o mesmo nome, pode ser transmitido pelos mosquitos Aedes aegypti e, mais frequentemente, pelo Aedes albopictus.

Este último, também conhecido como mosquito-tigre asiático, foi identificado em Portugal pela primeira vez na região Norte, em 2017, segundo a Rede Nacional de Vigilância de Vetores (REVIVE), do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, com ocorrências posteriores no Algarve e no Alentejo, chegando a Lisboa em 2023 e à região Centro em 2024.

No relatório mais recente, a REVIVE refere que a presença do mosquito-tigre significa uma “situação de estabelecimento e dispersão geográfica, representando uma situação de risco acrescido para a Saúde Pública que vai exigir um esforço de monitorização constante, bem como medidas de controlo eficazes com vista à redução/erradicação das populações detetadas e que impeçam a dispersão deste mosquito para outras regiões”.

Rivaldo Venâncio, investigador da Fiocruz.
Rivaldo Venâncio, investigador da Fiocruz.Peter Ilicciev/Fiocruz

O alerta

Até agora, não há registo de casos autóctones de chikungunya em Portugal, ou seja, casos originados no país, uma vez que os mosquitos identificados até hoje não portavam o vírus. No entanto, com a subida da temperatura média e o favorecimento da proliferação do mosquito, é necessária maior atenção, reforça o investigador Rivaldo Venâncio. “Cada vez mais o inverno tende a ser mais curto. Então, essa temperatura média um pouco mais elevada, com a abundância de água das chuvas, favorece a proliferação do mosquito. Lembrando que o mosquito aedes, tanto o aegypti e quanto o aedes albopictus, pode se reproduzir em quaisquer lugares que acumulem água, independentemente do tamanho, desde uma tampinha de garrafa até uma piscina que não foi adequadamente tratada”, alerta o especialista em infetologia.

O estudo britânico indicou que Portugal, Grécia, Espanha, Itália e Malta estão na zona de maior risco, além de referir que as temperaturas mais altas favorecem também a replicação do vírus no corpo do mosquito. “Estamos chegando no verão europeu, tem a intensificação do Turismo de várias regiões do mundo para aí, levando pessoas que podem estar com o vírus e não ainda com a doença. Como aí tem o mosquito, a hipótese é de que possa acontecer a transmissão”, explica Rivaldo Venâncio, destacando que, mesmo antes do verão, já há repercussão na mudança do padrão “tropical” da doença. “Cerca de dois meses atrás, houve chicungunya em França, num período de relativa baixa temperatura. Já vimos alguns casos autóctones importados em Espanha, em algumas localidades na parte mais alta dos Estados Unidos, que, por ter temperaturas mais baixas, não se observava essas doenças”.

Instituição brasileira de referência na área da Saúde Pública, a Fiocruz está em fase de estruturação de um escritório em Lisboa, além de já ter parcerias ativas com várias entidades nacionais, como o Instituto Doutor Ricardo Jorge, Universidade Lusófona, Universidade de Coimbra e o Instituto de Ciências Nucelares Aplicadas .à Saúde. Toda a “expertise” na “monitorização, diagnóstico e manejo clínico destas enfermidades” está “à serviço da população e das autoridades de Portugal”, afirma Venâncio.

Mosquito aedes albopictus transmite chicungunya e está identificado em Portugal desde 2017.
Pesquisador da Fiocruz explica alerta sobre risco de surtos de chicungunya em Portugal e sul da Europa
Mosquito aedes albopictus transmite chicungunya e está identificado em Portugal desde 2017.
Portugal na área de maior risco na Europa de transmissão do vírus Chikungunya
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