Hélder Milheiro: "Não há violência nas corridas de toiros, há pedagogia"

Almoço com Hélder Milheiro

A escolha do restaurante da Fundação Champalimaud não foi inocente. Nunca provou a comida mas aquele sítio traz-lhe boas recordações. Foi ali que, dois anos antes, Hélder Milheiro foi considerado "uma revelação" pela comunidade taurina - com direito a referência num dos mais antigos blogues dedicados aos toiros, o Farpas - pela sua prestação no Prós e Contras. Aos 36 anos, feito aficionado já adulto e na comissão executiva da Federação Portuguesa de Tauromaquia há quatro anos, o beirão que assumiu a missão de "repor a verdade e modernizar a comunicação do setor vai a cerca de 40 corridas por ano. "Normalmente sozinho." Mudou-se para Lisboa para tirar Filosofia e a faculdade (na Universidade Nova) ficava mesmo à beira do Campo Pequeno; as obras da praça despertaram-lhe a atenção e assim que pôde foi ver o que andava a perder. A mulher não gosta, não tem amigos aficionados, mas desde que viu a primeira corrida, em 2006, é presença habitual nas bancadas de todo o país. Ele e o caderninho onde vai tirando notas sobre o espetáculo, uma espécie de diário que quer deixar aos filhos, quando os tiver.

Almoçamos a poucos dias da votação parlamentar para proibir a participação de menores nas corridas de toiros (acabou chumbada pela maioria dos deputados na quinta-feira). Num dos primeiros dias de sol do ano, fazemos pleno aproveitamento da esplanada do Darwin"s e Hélder Milheiro demora-se na escolha do almoço, até se decidir por um prato de legumes gratinados e uma água. Um aficionado vegetariano? A explicação é menos surpreendente: não costuma almoçar, prefere uma coisa leve para me acompanhar no brás de vieiras - nada de "comida a fingir que é outra coisa, como seitans e tofus" feitos carne.

Explica por que razão os argumentos para afastar os miúdos das praças não faz sentido. "Há crianças de 5 e 6 anos a aprender a tourear como a aprender ballet ou futebol." Não é o mesmo... Não? "O que se aprende é a coreografia. Treina-se com a tourinha (uma espécie de carrinho de mão que faz as vezes do animal) e nem se vê nada parecido com um toiro até aos 14 anos, que é quando se começa a treinar com bezerros. E há sempre enorme preocupação com a segurança: para alguém com menos de 18 anos entrar num espetáculo é preciso a validação da Comissão de Proteção de Menores; os pesos do animal e do toureiro são fiscalizados, está tudo regulado ao pormenor." Diz que a maior prova da segurança são os números. De acordo com a Associação Nacional Forcados, em 20 anos morreram seis em pegas. De toureiros não há registo. "O futebol é um desporto de família, mas há muitas mortes, há descriminação racial, é preciso fazer campanhas de fair play. Na tauromaquia acontece o contrário: há pessoas de todas as raças e classes, todos participam e se respeitam. É um espetáculo multigeracional, vai dos avós aos netos, e que passa valores de coragem e hombridade."

Não perde o fio quando chega a comida - há de ficar fria no prato à exceção de um par de garfadas engolidas no intervalo de uma pergunta. Quer explicar muito em pouco tempo - é o seu papel como membro da federação que reúne todas as associações ligadas aos toiros (criadores, toureiros, empresários, forcados e aficionados), a de comunicar com a sociedade, o "embaixador da festa". Talvez seja essa a verdadeira razão para ter escolhido um prato de legumes, comestíveis mesmo depois de frios.

"O espetáculo tauromáquico não traduz violência, é pedagógico e recomendável, é extremamente didático porque ensina às crianças a forma de estar na vida." Diz que os seus argumentos resultam de um estudo exaustivo sobre a arte e os bastidores da tauromaquia. Especializado em comunicação e marketing digital, Hélder Milheiro só se tornou aficionado depois de saber tudo o que havia para aprender sobre o assunto. Acredita que há três pilares éticos fundamentais. O primeiro é o toiro, que é criado quase em total liberdade, "em enormes áreas, de forma a manter-se o mais toiro possível, o mais selvagem - e que nos passa o valor da natureza e da sua natureza animal". Segue-se o espetáculo, em que o "homem arrisca a vida ao encarar o toiro", traduzindo duas ordens de valores: os do animal, combativo, que nunca desiste de investir; e os do homem, corajoso, leal para com o toiro porque o encara e se expõe de uma maneira que permite ser colhido; solidário, pronto a saltar a qualquer momento para ajudar um companheiro de lide. E por último o público, "que está na bancada e absorve os valores éticos, culturais e artísticos passados por estes dois elementos, que absorve a excelência humana, aprende a estar sereno perante o perigo, a ser frontal e leal".

Coragem, bravura, frontalidade, solidariedade: são estes os valores que Hélder assegura que se aprendem nas corridas - o oposto da violência. E defende que o toiro é, de todos os animais de criação, aquele que mais qualidade de vida tem. Até contribui para a biodiversidade - "criado em zonas muito extensas não cultivadas, ao seu redor há um crescimento exponencial da flora e da fauna naturais e muitas ganadarias participam em programas de conservação do lince-ibérico, por exemplo".

Mas quando é levado para a arena e lidado, sofre, sente dor. Hélder Milheiro não o nega. Recorre a estudos desenvolvidos na Faculdade Complutense de Veterinária de Madrid e na Faculdade de Veterinária de Lisboa para justificar que é no transporte que se verifica o pico de stress para o animal e que "ele é capaz de recuperar a calma em 30 minutos, tempo recorde, por comparação com qualquer outro animal". "Quando entra na arena, o stress baixa drasticamente." Diz que o facto de, ao ser-lhe colocada uma bandarilha, o toiro continuar a investir em vez de fugir - "reação normal a situações de dor" - é prova de que "já é resistente à dor". "Estamos a falar de um animal com mais de 300 anos de seleção tendo em conta o seu comportamento de bravura, capacidade de lutar e resistir na luta, superação da dor."

Já dei cabo do brás e o prato dele ainda não vai a meio. Considera que os argumentos contra as corridas são marcados por puro preconceito e "ódio visceral". É a única razão que vê, por exemplo, para a recusa do presidente da Liga Portuguesa contra o Cancro em receber as receitas da corrida solidária que estava a ser organizada nos Açores, no mês passado. A corrida aconteceu na mesma e o dinheiro foi entregue ao Hospital de Angra do Heroísmo. "A relação da tauromaquia com a Liga dura há muitos anos, o que houve foi uma reação extemporânea, sem nexo - e que levantou problemas internos porque muita gente não concordava com o presidente" (a direção açoriana demitiu-se em bloco).

Lembra que as causas sociais sempre tiveram uma ligação forte à tauromaquia e dá como exemplo os festivais que acontecem todos os anos no início da temporada, entre fevereiro e abril. "São 20 ou 30 espetáculos cujas receitas vão para causas sociais." O dinheiro angariado depende da dimensão das corridas, mas a federação aponta para valores de cerca de um milhão de euros. "Além dos espetáculos para fim solidário, a atividade tauromáquica é uma das financiadoras das causas sociais do país", reforça Milheiro - os legumes esquecidos na ponta do garfo.

Quase 90% das praças são propriedade de Misericórdias ou IPSS e as instituições recebem as rendas - só o Campo Pequeno, que pertence à Casa Pia, paga 700 mil euros todos os anos. Num dos eventos solidários mais recentes, o festival taurino do Campo Pequeno, em março, à Fundação LVida foram entregues 30 mil euros. Informação que não é conhecida por muitos. "O problema é que quem não gosta de corridas não quer analisar os dados, o espetáculo, antes procura uma imagem mínima e demagógica para acentuar o preconceito. Eu respeito que se seja antitaurino, mas exijo que haja respeito por quem pensa de forma diferente."

No fim do dia, para Hélder Milheiro, o que está em causa é o valor da liberdade, e foi por isso que decidiu assumir um lugar na Protoiro, apesar de o seu trabalho ser sobretudo feito para empresas que nada têm que ver com esta área. "Estou na Protoiro por imperativo cívico: estão em causa direitos e liberdades que não admito que sejam atacados. Liberdades culturais, constitucionalmente protegidas. A cultura tem de ser diversa." Não aceita, por isso, o que considera serem ataques sem sentido à tauromaquia. Como a votação, no ano passado, do fim dos apoios públicos ao setor. "Esses apoios nunca existiram. Recebemos zero do Estado; somos tutelados pelo Ministério da Cultura e recebemos zero. E também não recebemos fundos da Agricultura" - o que existe mais parecido são apoios às vacas leiteiras. "Para os toiros não há nada."

Hélder cresceu numa aldeia, rodeado de animais, e acredita que o preconceito contra as corridas resulta de um movimento de urbanização e afastamento da realidade dos bichos. "Fala-se hoje mais do que nunca dos direitos e da proteção dos animais, mas a partir de um conceito absolutamente artificial porque não se conhece a realidade e o ciclo de vida do animal. A ânsia de se tentar desurbanizar gera uma desurbanização artificial. De tal maneira que já não é a vida dos animais que é elevada à condição humana, é a dos humanos que é rebaixada. O animalismo é uma forma de anti-humanismo." Recorda as ondas de solidariedade geradas nas redes sociais em defesa de animais. Como o caso do cão que matou um bebé em Beja, há três anos. "Como dizia o Elísio Summavielle [presidente do CCB], toda a gente se recorda do nome do cão, o Zico, mas quase ninguém sabe como se chamava a criança."

Ao fim de duas horas de conversa, Hélder troca finalmente os legumes pela lista de sobremesas. Hesita na pavlova, pede conselho, acaba por decidir-se pelo muffin de chocolate, que vem acompanhado pelos cafés e já a pressionar o pedido da conta. Chegou a hora de falar de números. Afinal quanto dinheiro move a tauromaquia? A federação pediu um estudo de impacto económico mas ainda não tem os resultados. Por enquanto, só pode falar do comércio ganadeiro: "No ano passado rendeu, internamente, 3,5 milhões de euros em Portugal. Se lhe somarmos as exportações - que cresceram 62% no ano passado -, são mais 1,5 milhões.

Quanto ao espetáculo, os preços variam muito, mas um bilhete de temporada para o Campo Pequeno - que teve em 2015 uma taxa média de ocupação de 81,3%, num total de 60 mil espectadores - varia entre os 198 euros e os 2464 euros (camarote de primeira ordem com oito lugares), incluindo 12 corridas. Para uma única noite os preços vão dos dez aos 75 euros. Mas os bilhetes são apenas uma parte. "Se pensarmos em ciclo de valor: uma pessoa que vai ver a corrida, em família, mete gasolina, janta, o valor económico é muito superior", assegura Hélder Milheiro, o muffin a desaparecer a uma velocidade surpreendente.

Diz que as vozes dos antitaurinos não representam a realidade nacional e que as corridas continuam a ser um sucesso. No ano passado, estiveram em praça meio milhão de pessoas, mas o número é seis vezes maior quando se considera todos os que estão envolvidos no espetáculo; houve mais de mil eventos de rua. "E já muita gente nova: nas bancadas é mais de um terço do público e só forcados são mais de 1500, é sangue novo."

Já com o café bebido, diz que não esconde o gosto e o envolvimento no mundo dos toiros, mas na sua página de LinkedIn a tauromaquia foi empurrada para o fim da lista de interesses, entalada entre a filosofia e os livros. Referências ao trabalho feito para o Campo Pequeno e a Protoiro não há. "A página está desatualizada", justifica. "E de qualquer modo, o meu perfil profissional não é taurino, trabalho como freelancer para várias marcas. Mas também é uma forma de proteger os meus clientes de ataques. Já aconteceu contactarem empresas onde eu trabalhava, atacarem a minha vida profissional. Depois do Prós e Contras recebi muitos insultos e ameaças. Mas nunca tive problemas com empregadores." E nunca teve medo? É uma questão de atitude: "Temos de ser bravos como os toiros."

Darwin's café

>Couvert

>Legumes grelhados gratinados com queijo brie e ovo escalfado

>Brás de vieiras, coentros, funcho e manga assada com balsâmico

>Muffin de chocolate com gelado

>Imperial

>Água

>Cafés

Total: 52 euros

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.