"Agora, é muito duro entrar na enfermaria. Os doentes são mais jovens e há medo no olhar"

No serviço de Medicina 2-A do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, a enfermaria covid voltou a ter as 21 camas ocupadas e já teve de abrir mais 21. A maioria dos doentes são jovens e adultos, homens, entre os 20 e os 40 anos. Uns ainda livres, outros com mulheres e filhos, uns sabem como foram apanhados pelo vírus, outros não, tal foi a exposição ao risco, mas nenhum sabe o que o espera. A doença está mais rápida e grave e nada está garantido, dizem-nos. Na semana em que o país ultrapassou a barreira dos mil casos diários, mais de 60% só na região de Lisboa e Vale do Tejo, o DN ouviu o relato de uma equipa exausta, que não para há quase 15 meses, mas "ninguém desiste".

A manhã ainda tem poucas horas, mas do terceiro piso do Hospital de Santa Maria, o maior do país, já seguiu um doente da enfermaria covid do Serviço de Medicina 2-A para o oitavo andar. O destino é a unidade de cuidados intensivos respiratórios (UCIR). Nas últimas 24 horas, era o segundo a fazer o mesmo trajeto. Desta vez, um homem de 50 anos, não vacinado, infetado no dia 7 de junho, muito sintomático, sobretudo com febre e falta de ar, e que ao décimo dia da doença recorreu à urgência durante a noite. Assim que entrou começou a levar dois litros de oxigénio para manter a saturação adequada, acima dos 94%, pouco depois passou para os 15 litros, e assim que o sol nasceu houve necessidade de o passar para a oxigenação de alto fluxo.

A médica de serviço teve de lhe fazer a pergunta sacramental e que outros na enfermaria já sabem o que significa: "Quem é o seu contacto de referência?". Não é para o caso de ter de dar uma má notícia, mas "é para manter a família informada sobre o que se passa com o doente", explicam-nos. O doente tinha agravado em menos de 12 horas e o passo seguinte eram os cuidados intensivos, mesmo que não tivesse de ser ventilado.

No quarto onde estava, os outros doentes ficaram em choque. Não perceberam sequer o que aconteceu em tão pouco tempo. A equipa que o levou vai ter de regressar após o transporte e explicar a situação. "É importante que se lhes diga que o que aconteceu àquele doente não tem de lhes acontecer. É importante que se lhes diga que estamos aqui, que estamos vigilantes e que é preciso manter a calma, porque ao contrário do que acontecia há uns meses, entrar agora nos quartos depois de tirar de lá um doente para os intensivos é muito duro. Os doentes são mais jovens e ficam em choque, estão conscientes, veem o que se passa à volta, ouvem as nossas conversas, porque explicamos o que fazemos e o que vamos fazer e quando regressamos há medo nos olhares", desabafa Sandra Braz, a médica coordenadora da Unidade de Internamento para a Covid-19, desde o início da pandemia, após descer do oitavo andar.

No terceiro piso, a rotina voltou a ser esta, doentes a entrar e a serem transferidos para os andares acima. Nunca é fácil quando se atinge o momento, mesmo que seja por precaução em relação ao estado do doente, e até pelo próprio transporte, dois profissionais, um médico e um enfermeiro, auxiliares, um segurança, para ir bloqueando os circuitos e os elevadores, e uma equipa de higienização atrás para desinfetar tudo. Só depois de o doente ser entregue aos colegas, os outros regressam à base.

Mas, antes, a maioria dos doentes era idosa, muitos estavam inconscientes, e, talvez "por já terem vivido mais, não sei, não verbalizavam tanto. Agora não é assim, a maioria tem 20, 30, 40 anos, outro grau de diferenciação, e fica à espera de que lhe aconteça o mesmo. Sente-se o medo e o receio. Alguns têm filhos, a mulher também está infetada, e pensam: "E se lhe acontece o mesmo?"."

Na enfermaria covid da Medicina 2-A, a lotação de 21 camas já está esgotada. Há um mês que não param de receber doentes. "Foi subitamente", conta Sandra Braz, que encheram as 21 camas, que até estavam a pensar reduzir por a ocupação nos últimos tempos ser apenas de 20% a 25%, mas há uma semana tiveram de abrir outra enfermaria, mais 21 camas. E na manhã de ontem, dois dias depois de lá termos estado em reportagem, na hora de passar o turno, havia 23 internados nas duas enfermarias e mais 13 em cuidados intensivos. Há dois dias estava pior, com 26 internados e, na sexta-feira da semana passada, o turno tinha acabado com quatro doentes prestes a seguir para cuidados intensivos, "felizmente, não foi preciso", recorda a médica, mas, na terça-feira, dia 16, a UCIR teve de aumentar o número de camas de oito para 16.

A compensação é que, numa semana, houve uma morte

A única compensação é que a mortalidade diminuiu em relação às vagas anteriores. Nos últimos dias, não houve mortes nem no terceiro nem no oitavo piso, "só uma na última semana", mas de uma forma ou de outra, dia a dia, doente a doente, há sempre marcas que vão ficando. Isso não muda com as vagas a que aquela equipa tem vindo a assistir há mais de 15 meses. E o espírito continua a ser o mesmo, "estamos cá, ninguém desiste", apesar de "estarmos no limite, em exaustão, e alguns apenas com uma semana de férias", confessa Sandra Braz, num momento de pausa, sentada na sua sala e onde três dos seus internos continuam o trabalho.

Ao todo, são nove médicos, três assistentes, três internos do primeiro ano, um do quarto e dois ainda em formação geral. "Somos muito poucos e mantemos a mesma atividade de bancos e consultas, mas o pior são as urgências internas, os doentes são muito instáveis e tentamos que estejam quatro profissionais em cada turno, mas, provavelmente, vamos ter de diminuir, porque ao fim de um mês são muitas urgências. Só para ter noção, em sete dias fiz três noites, e, se calhar, sou a que estou numa posição mais confortável, porque os meus internos quase de certeza fizeram quatro ou mais", continua a médica, sempre no mesmo tom, pausado e quase sussurrante. "Há dias que temos três que estão de saída de manhã, mas não vão embora. Ficam, nem que seja só para apoio moral a quem cá está, porque já não se consegue pensar ou mexer", mas ficam, o serviço é grande e os doentes estão instáveis.

"Antes, a maioria dos doentes era idosa, muitos estavam inconscientes, e verbalizavam tanto. Agora, não é assim, a maioria tem 20, 30, 40 anos, outro grau de diferenciação, e fica à espera de que lhe aconteça o mesmo."

O espírito é o mesmo para todos os profissionais, quer sejam médicos, enfermeiros ou assistentes operacionais: "Estamos cá, muito cansados, mas estamos cá", remata Estela Escada, a enfermeira-chefe do serviço, sorridente, convicta, de figura franzina, mas "a valer por muitos", como comentam à nossa volta.

O foco tem de ser sempre a vigilância, tanto dela como da sua equipa, 20 profissionais, como diz também, parecem muitos, mas não são. E quando não estão junto dos doentes estão na sala de trabalho, mas com o olhar de alguém nos monitores através dos quais observam os quartos.

Quando há necessidade de entrar pela porta que está a meio do corredor, todos sabem que não o fazem sem proteção, e, hoje, já foram tantas as vezes que o fizeram, que já nem precisam de contabilizar todos os passos ou ter algum colega a ajudá-los. "Já é automático. Cada um de nós sabe o que fazer e com que equipamento se sente confortável."

O momento é de algum descanso. Sandra Braz sabe que tem de falar com a família do doente que seguiu para o oitavo andar. "Prometi-lhe que quando descesse o faria. À partida, é um doente clássico, não penso que vá atingir um estado mais grave, mas se há coisa que aprendi com estes doentes é que nada está garantido." Para já, há a dizer que "o transporte correu bem e que o doente está estável", afirma, demonstrando alívio no rosto, escondido pela máscara.

A grande preocupação é que "os doentes estão a agravar muito rapidamente. É uma característica desta fase e destes doentes mais jovens. Desenvolvem uma resposta hiperinflamatória rapidamente. Foi o que aconteceu com o doente que fui levar. Parecia estar tudo bem, só, entre aspas, precisava de dois litros de oxigénio, rapidamente passou aos 15 e já está nos cuidados intensivos", acrescentando ainda: "Na sexta-feira, deixámos quatro doentes em enfermaria que achávamos que nas horas seguintes iriam precisar também dos intensivos. Felizmente não precisaram, mas podem imaginar como é difícil num hospital destes, que está a ser constantemente contactado por outras unidades para receber mais doentes - ainda ontem tivemos um telefonema de Torres Vedras para a admissão de um doente crítico - começar a ver as camas a ficarem ocupadas e a ter de gerir as vagas em intensivos? Esta é agora a minha grande preocupação."

Mesmo assim, "o ambiente de hoje não é de forma alguma o que se viveu em dezembro, janeiro e fevereiro. Também não é o que se viveu há um ano, porque se sabia menos, mas é preocupante a vários níveis. Nas últimas semanas, tivemos um aumento muito significativo de internamentos e, como disse, o perfil dos doentes é diferente e a doença está mais rápida e mais grave".

Hoje a maioria está entre os 20 e os 40 anos, mas, "já tivemos cá pessoas com 50 e poucos, com uma primeira dose de vacina, muitas vezes dada há uma semana ou duas, e até alguns que foram vacinados já com sintomas", admite.

"Que isto fique muito claro, porque estamos a falar da ineficácia da vacina em determinada altura, se as vacinas têm duas doses é por algum motivo", sublinha. "Aliás, posso dizer que isto aconteceu com cerca de um quarto dos doentes que passaram por aqui. Na semana passada, tivemos uma senhora de 60 anos, que não estava vacinada, embora os nossos doentes sejam sobretudo homens, saudáveis, alguns com excesso de peso ou obesidade que entram no hospital no oitavo ou no décimo dia da doença e que evoluem rapidamente para necessidade de suporte ventilatório e internamento em UCI."

Portanto, "o que me preocupa mais é a gestão de vagas em cuidados intensivos. Na enfermaria, vamos conseguindo gerir as camas, o problema são os doentes críticos, porque o internamento em cuidados intensivos tem uma duração que não se assemelha à do internamento aqui. E, para nós, do ponto de vista científico e até emocional, é muito difícil termos um doente crítico e saber que a única solução é tratá-lo aqui, com condições de segurança, sim, mas não nas condições ideais, como as que há numa UCI. Isto foi o que aconteceu no início do ano e é o que me preocupa neste momento", reforça a médica, enquanto ajeita a franja, suspira, enquanto na sala há espaço para o som do teclado dos computadores usados pelos internos. Olham-se, aguardam que saiamos da sala para falarem com familiares.

"Não olho para a morada dos doentes"

A médica repete que ainda tem de contactar a família do doente, como sinal de lembrete, mas também com os outros doentes do quarto e ainda com outra doente. E à pergunta de onde são os doentes que ali estão, responde prontamente: "Não olho para a morada dos doentes. A nossa decisão, desde a direção clínica até aos médicos no serviço de urgência, é a de aceitar e internar aqui todos os doentes que surjam por sua vontade. A única exceção são os dias muito complicados, como já houve nesta fase, num fim de semana - e porque isto é tudo muito dinâmico, hoje temos 18 doentes cá em baixo e oito na enfermaria de cima, mas pode mudar - em que houve uma situação complicada que motivou a transferência de um doente que aqui chegou para outro hospital, mas a regra não é essa. A regra é admitir os doentes independentemente da sua área de residência. Às vezes, sei onde moram no dia da alta, porque planeamos as consultas de seguimento, ou quando abrimos o sistema informático para falar com os familiares e a morada está lá", explica a médica. A enfermeira Estela ressalva: "Não sabe as moradas, mas sabe de cor o nome de todos os doentes."

É assim que Sandra Braz funciona, desde a primeira vaga, os números e o perfil dos doentes internados também são ditos sem ter de olhar para a folha de registo, mas, "às vezes, já é difícil pensar", reconhece, embora diga: "Estávamos à espera disto. Era inevitável. Houve um desconfinamento e o que está definido como sendo a taxa de vacinação é importante, mas não é a desejável. E um desconfinamento com uma taxa de vacinação que não é a adequada, para mim, é óbvio que iria dar nisto. Não estou a atribuir a culpa a ninguém, porque do ponto de vista mental é impossível continuarmos fechados, do ponto de vista económico é impossível o país continuar parado, e no processo de vacinação, que é de uma complexidade tal, está a fazer-se o melhor que se consegue, mas a realidade está aí. Não nos surpreendeu, agora só temos de manter a nossa capacidade de decisão e fazer o melhor pelos doentes".

A mensagem é aquela de que todos estão fartos, mas não praticam

O pensamento da equipa é sempre este, e se tivessem de passar uma mensagem para o mundo de fora, passariam aquela que " todos dizem estar cansados de ouvir, mas que não colocam em prática": medidas de proteção, uso de máscara e higienização de mãos. Portanto, ao fim de 15 meses, a médica diz: "Continuo a ficar revoltada quando vejo determinados comportamentos na rua. Consigo compreender que as pessoas estejam cansadas e queiram ir a um restaurante, ao cinema e fazer outras coisas, mas não compreendo que ainda não percebam que há uma diferença entre conversar, mesmo ao ar livre, com uma máscara na cara ou sem ela. Continuamos no cenário de que só acontece ao vizinho do lado, não é assim."

E volta à vacinação: "É preciso perceber que ter uma dose de vacina não é suficiente e ter duas também não. Ninguém disse que a eficácia da vacina é de 100%. A vacina conseguiu reduzir o risco de transmissão e a gravidade da doença, mas tal não significa que a pessoa não tenha de se preocupar com nada e deixar a máscara para trás. Quem dera, não é assim. Sejam prudentes. Está toda a gente cansada desta mensagem, mas também só a repetimos porque diariamente vimos que não está a ser posta em prática."

"A vacina conseguiu reduzir o risco de transmissão e a gravidade da doença, mas tal não significa que a pessoa não tenha de se preocupar com nada e deixar a máscara para trás. Quem dera, não é assim. Sejam prudentes."

Os exemplos são diários, quer nos transportes públicos, com pessoas que fingem estar de máscara, mas que a usam abaixo do nariz, "já chamei a atenção várias vezes e já recebi várias respostas, como: "Tenho uma dose da vacina, tenho as duas", etc. Eu vou sempre dizendo, é para pôr. Está na nossa mão fazer algo. Isto não pode ser feito nem pelo governo nem pela Direção-Geral da Saúde". A verdade é que alguns só têm noção de tal quando passam por um internamento, e outros "nem com este internamento perceberão isso, mas são a exceção", diz Sandra Braz. "Temos um doente muito jovem que teve tanta exposição ao risco, festas e convívio, que não faz ideia de onde foi infetado" ou mesmo quem pode ter infetado. Outros, não, sabem-no. São pessoas com uma vida normal, trabalham, têm filhos na escola e andam de transportes públicos."

Uma imagem que traduz bem a expressão: "Afinal, não acontece só aos outros." E, mais uma vez, a questão é a dos recursos humanos nas unidades de saúde, o que aguentam e os meios que têm. Um dia depois da nossa ida a Santa Maria a ministra da Saúde disse que "os hospitais já estão preparados para receber mais doentes".

Quem lá está há um mês que vem a registar mais horas, mais noites de urgência, mais cansaço e preocupações acumuladas. Nesta semana, Portugal passou a barreira dos mil casos diários por três dias consecutivos, com a Grande Lisboa com mais de 60% dos casos. Os especialistas pediram mais restrições para a região, o governo proibiu as saídas e as entradas desta área durante o fim de semana.

Os profissionais de saúde acreditam que a vacinação não deixará que esta fase atinja a dimensão da anterior, mas, como nos dizem, nesta pandemia nada é garantido, mesmo ao fim de 15 meses, que mais parecem "ter o dobro do tempo".

No início da pandemia e no pico da doença todos ajudaram. Sandra Braz sublinha que "a resposta que o hospital deu deve-se muito ao trabalho dos internos, de medicina interna, infecciologia, pneumologia, mas não só. Tivemos o apoio de todas as especialidades. Vieram colegas de de oftalmologia, otorrino, cirurgia, dermatologia, para as unidades de internamento covid para ajudar, mas a vida continua e eles não podem continuar aqui, têm de estar nos seus serviços e com os seus doentes".

A manhã está no final. A médica equipa-se para, como prometido, falar com os outros doentes. Nós, não pudemos passar a linha vermelha. Os doentes são mais jovens e mais reservados. Do lado de cá, a certeza que se traz, e citando a enfermeira Estela, é que ali está "uma equipa muito resiliente e de qualidade".

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