Os jornais não eram o espelho do país. Os serviços da censura prévia encarregavam-se de dar uma imagem distorcida: as páginas da Imprensa relatavam um país sereno e feliz, trabalhador, em pleno progresso económico e social, sem dificuldades. Há 50 anos, por esta altura, Portugal sofria os efeitos de um choque petrolífero. Havia racionamento da gasolina e do gasóleo - mas uma foto das longas filas nas bombas era uma raridade. Só boas notícias..A grande notícia no dia foi sobre uma apreensão de combustível: “Apreendidos 24 mil litros de gasolina e 10 mil litros de gasóleo açambarcados por proprietários de postos de abastecimento.” A ação fora executada pela Inspeção-Geral das Atividades Económicas - prova de que o Governo trabalhava para que as bombas não secassem sem pinga. Açambarcavam à espera de que o preço subisse para vender mais caro. Os fiscais estavam de olho neles..Sabe-se, porém, que as filas nos postos de abastecimentos começaram a formar-se em dezembro e continuaram firmes e compactas por janeiro. Ir para a fila da gasolina ou do gasóleo tornou-se habitual. As atas da Assembleia Nacional provam-no. Dão conta, por exemplo, dos avisos do presidente, Carlos do Amaral Neto, sobre os horários das sessões: “Vão começar um pouco mais tarde, porque alguns deputados têm de ir para a fila abastecer o carro.”.Segundo a notícia no DN, a Inspeção-Geral das Atividades Económicas instaurou 61 processos-crime contra proprietários de postos de abastecimento. Entre os processos instaurados assumiam maior expressão os respeitantes a açambarcamento de gasolina e gasóleo, destacando-se quatro em Braga, três no Porto e um em cada um dos distritos de Santarém, Viana do Castelo e Viseu. Os faltosos “foram presos em flagrante delito, tendo-lhe sido arbitradas cauções de 5, 12, 40 e 45 contos” para aguardarem o julgamento em liberdade. .O choque petrolífero começou em outubro de 1973, quando a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) proclamou um embargo aos países que apoiaram Israel na guerra do Yom Kippur. O embargo, inicialmente aplicado aos Estados Unidos e ao Reino Unido, estendeu-se à Rodésia, à África do Sul e a Portugal.