O grupo Vita, criado no ano passado para acompanhar e prevenir situações de violência sexual de crianças e adultos vulneráveis no contexto da Igreja Católica em Portugal, está a preparar um conjunto de programas de prevenção para serem implementados pelos escuteiros, catequistas e professores de educação moral e religiosa. A informação foi avançada ao DN por Rute Agulhas, coordenadora do grupo, numa altura em que o tema dos abusos voltou a estar na ordem do dia, depois da associação “Coração Silenciado”, representante de um grupo de vítimas, ter sido recebida pelo Presidente da República, na semana passada, e pela Conferência Episcopal Portuguesa (CEP)..No final do encontro, Marcelo Rebelo de Sousa terá sugerido a criação de uma nova comissão tutelada pelo Estado para investigar abusos sexuais, sem a participação da Igreja, à semelhança do que aconteceu em Espanha..“A sugestão do senhor Presidente foi muito clara: não vamos dizer à Igreja para investigar a Igreja, basicamente foi o que ele nos disse. As comissões que existem têm como patrocínio a Igreja e o que nós vínhamos aqui sugerir era exatamente isso”, adiantou à Rádio Renascença Cristina Amaral, uma das representantes da associação..Confrontada com esses últimos desenvolvimentos, a coordenadora do grupo Vita respeita a perspetiva da associação (e do presidente, que com ela concordou), mas tem outra opinião: “O que faz sentido é que o Estado possa criar um grupo de estudo de prevalência dos abusos sexuais em Portugal, no seu todo. Não podemos esquecer que o abuso sexual acontece sobretudo nas famílias, nas escolas, no desporto, na net, e também na Igreja”, sustenta a psicóloga..Rute Agulhas recorda que, aquando da audição na Assembleia da República, foi uma das questões que o grupo Vita sublinhou: “a necessidade de haver um estudo de prevalência, a nível nacional, para se saber qual é a prevalência desta problemática em Portugal”. Ao contrário da sugestão veiculada pelo Presidente da República, a porta-voz do grupo Vita acredita que “se houver a ideia de que a Igreja não pode criar uma comissão independente, para analisar o que se passa no contexto da Igreja, nesse caso também nos poderíamos questionar se o Estado é suficientemente independente para analisar questões do próprio Estado”. Em suma, Rute Agulhas sublinha que o grupo em causa “é tão independente como era a comissão, apesar de não nos chamarmos assim. Somos profissionais a quem a Igreja solicitou este trabalho”, conclui..Reparar o passado, prevenir o futuro.A coordenadora do grupo Vita fala de todo um conjunto de estratégias que os profissionais que integram estão já a levar a cabo, nomeadamente os programas de prevenção mais dirigidos para crianças e jovens, e que vão ser apresentados em novembro deste ano. “Vão ser depois implementados pelos escuteiros, pelos catequistas, pelos professores de educação moral e religiosa”, revela..Rute Agulhas acredita que, em toda esta problemática dos abusos, “é preciso olhar para o passado, perceber como é que as pessoas que viveram esse tipo de situação podem vir a ser ajudadas, mas é preciso olhar para o presente também, e depois é preciso olhar para o futuro”. E por isso um dos objetivos do grupo Vita para 2024 “é perceber também o que já fizeram outros países, que boas práticas se podem adotar em Portugal.”.Depois de uma audiência que durou três horas, no final da passada semana, a associação Coração Silenciado considerou que ficou aberto um canal “diretamente com as vítimas”. Cristina Amaral, uma das representantes deste grupo, afirmou aos jornalistas que a conversa com os bispos José Ornelas e Virgílio Antunes, e ainda o padre Manuel Barbosa foi “muito positiva e objetiva”..“A nossa intenção era dar um choque de realidade sobre o tema abusos, que é muito suavizado. Saímos daqui com muita esperança”, acrescentou, confirmando que, em relação à questão das eventuais indemnizações às vítimas, vão tentar “encontrar uma via mais ou menos justa, porque nunca será justa”..Em comunicado sobre o encontro, também a CEP referiu que o mesmo decorreu “no seguimento do caminho que a Igreja em Portugal tem vindo a percorrer na proteção de menores e adultos vulneráveis”..Nos primeiros meses de funcionamento, o grupo Vita diz ter estado focado em “sensibilizar e capacitar as próprias estruturas da igreja. Há já um manual de prevenção (disponível online), apresentado em dezembro, direcionado às estruturas da Igreja. “Nós temos que mudar a forma como a Igreja olha para as crianças, para os jovens e para os adultos vulneráveis. É preciso uma mudança de cultura, em termos não só de práticas, como de hábitos, de rotinas” criar códigos de conduta, criar procedimentos de recrutamento seguro, antecipar riscos para poderes ser também antecipadas medidas preventivas”, sublinha Rute Agulhas.