"A tecnologia não para e daqui a 20 anos isto será história"

Se tudo correr como planeado, quando forem 12.55 em Portugal, a sonda Cassini vai incendiar-se na atmosfera de Saturno, após uma série de 22 mergulhos inéditos entre o planeta e os anéis que começou em abril

Vinte anos após ter sido lançada no espaço, a sonda deixará de emitir sinais, mas só 83 minutos após o mergulho no planeta é que a Terra receberá os últimos dados recolhidos. "Será como um eco", disse Earl Maize, responsável pelo projeto Cassini no Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, em Pasadena, na Califórnia.

É o final de uma missão que nos últimos 13 anos revelou informações importantes sobre Saturno, as suas Luas e os seus anéis. Até então, nunca nenhuma nave tinha estado tão próxima do planeta.

Além da sonda Cassini, Rui Agostinho "tira o chapéu" a vários projetos que aconteceram no espaço nos últimos anos. O diretor do Observatório Astronómico de Lisboa destaca, por exemplo, o da sonda Rosetta, que aterrou no cometa 67P.

A Cassini operou durante quase mais uma década do que era suposto. Como é que isto é possível?
Isto é possível em qualquer missão se forem asseguradas algumas condições. Por um lado, o combustível que é necessário para a sonda reprogramar trajetórias. O combustível é contado aos quilos para uma trajetória inicial, que é planeada para um certo tipo de estudos. Se sobrar alguma coisa, é possível aumentar o programa científico. Mas se a sonda for deixada na órbita e continuar a fazer trabalho importante, este aspeto não faz falta. O outro aspeto a ter em conta é o consumo energético. As baterias, associadas aos coletores solares, são planeadas para determinado tempo de vida útil. Se se mantiverem ativas, é possível manter os instrumentos a funcionar mais tempo, coletando dados.

Durante quanto tempo pode operar uma sonda?
A priori não se consegue saber. Para fazer as contas é necessário ter em conta os instrumentos necessários para a missão, a energia que vão gastar e durante quantos anos. E desenha-se a nave para isso. Os cálculos vão ser feitos ao quilo, por causa do foguetão que vai lançar. Por exemplo, colocam-se os painéis solares para irem recarregando as baterias consoante os anos da missão. Se durar mais, é uma sorte. Mas ninguém sabe quanto tempo tem para lá do programa científico. Não é possível prever quantos anos mais a sonda vai operar além dos previstos. É tramado lançar qualquer coisa para o espaço. A carga útil de um foguetão é 1%. Por cada quilo que queira por no espaço, precisa de 99 quilos de foguetão. E os lançadores têm limites. Atualmente, não há nenhum lançador com a capacidade que o Saturno 5 teve, aquele que lançou os homens para a Lua.

Porquê esta decisão de despenhar a sonda contra Saturno?
Fez-se o mesmo com a sonda Huygens, que ia a bordo da Cassini e que entrou na Titã. Estamos a falar de atmosferas muito densas. Quando se faz fotografia dos planetas, deteta-se apenas a luz que vem da parte superior da atmosfera. É tramado ver o interior. O truque é fazer a sonda entrar no planeta e, enquanto vai caindo, enviar informação. Pelo menos a parte inicial da entrada na atmosfera dá muito mais dados do que aqueles que são possíveis obter de fora. É melhor "perder" a sonda do que simplesmente deixar apagar os instrumentos.

Há quem considere que este é um dos projetos mais bem-sucedidos da NASA. Concorda?
É um dos grandes projetos. A missão chegou a ser estendida duas vezes, vai atingir os 20 anos. A máquina funcionou tão bem, que todos os instrumentos trabalharam muito além do projeto inicial dos quatro anos. Por outro lado, a informação que se recolheu com a Cassini foi única, porque as únicas sondas que lá tinham passado perto foram as Voyager 1 e 2 com voos de passagem. A análise científica de Titã foi espetacular, deixou a comunidade científica a bater palmas, porque não tinha sido feito nada do género, exceto para a nossa lua. Mas há vários projetos que aconteceram no espaço que são de se tirar o chapéu, que conseguiram marcar e fazer coisas nunca antes vistas. Vou mencionar apenas o da Rosetta, mas há mais. Como é possível pousar num núcleo cometário? Há uma série de detalhes impressionantes associados. A tecnologia não para e daqui a 20 anos isto será história.

Até onde pode ir uma sonda?
As Voyager já vão a 140 unidades astronómicas, sendo que uma unidade astronómica é da Terra ao Sol. Mas temos objetivos gravitacionalmente presos ao sol nas centenas de unidades astronómicas. A última etapa são os cometas de núcleo pequeno que são afastados às 100 mil unidades astronómicas. Podemos olhar para esta como sendo a área de controlo gravítico por parte do sol. Além da Voyager, temos a New Horizons. Fez um estudo incrível sobre Plutão, mas de passagem. Não ficou a gravitar e foi redirecionada para estudar um transneptuniano. Esta é a próxima meta.

Exclusivos