PJ lança policial. Com casos reais escritos por quem os viveu e investigou

Chama-se Um Diamante de Histórias e assinala os 75 anos da PJ reunindo 75 testemunhos de quem fez e faz esta polícia de investigação criminal. Quase um policial, mas com casos reais. De uma inquirição na cama de Amália Rodrigues, ao grande assaltante de bancos a quem a PJ ofereceu uns ténis, contam episódios inéditos sobre casos que os marcaram, os fizeram rir, os emocionaram e os enchem de orgulho

Algumas histórias emocionam, outras provocam riso, outras profunda admiração pela coragem e tenacidade dos seus protagonistas ou ainda pela humanidade a lidar com criminosos e na influência que isso teve nas suas vidas.

Numa iniciativa inédita, a PJ partilha pela primeira vez em público algumas histórias dos bastidores de operações e episódios que decorreram nas últimas décadas, narradas por quem fez e faz esta polícia há 75 anos - um aniversário cuja comemoração se completou esta semana.

Chama-se Um Diamante de Histórias e tem testemunhos de antigos e atuais colaboradores da PJ de várias áreas e regiões do país, como investigadores, dirigentes, seguranças e peritos. São poucos os casos mediáticos, mas é a prova que na vida da PJ há uma maioria de outros que também contam.

"Além do sentido de humor, em especial nalguns dos relatos, evidencia-se, em todos, um claro sentido «de amor» à instituição Polícia Judiciária e à Justiça, numa imagem descontraída da investigação criminal, mas que evidencia formas de combinar a necessária racionalidade com a emoção e, até, de ser verdadeiramente afetivo", escreve no prefácio o diretor nacional adjunto Carlos Farinha, que coordenou a obra.

E se alguém o dia quiser contar a história da PJ e "o putativo autor quiser tocar a alma, pretender expor o ADN, desejar sentir para exibir o que de mais fino e profundo a Casa é, não poderá dispensar este livro" .

Um "cigano" infiltrado e os castanheiros do "ti João"

A edição em e-book estará disponível a partir desta quarta-feira na página oficial da PJ (www.policiajudiciaria.pt). Quem espreitar poderá ler os testemunhos de personalidades conhecidas como Maria José Morgado, Euclides Dâmaso, Alípio Ribeiro, Fernando Negrão, Francisco Moita Flores, do diretor nacional Luís Neves, e de diretor nacional adjunto Carlos Farinha.

Mas também verá que neste Diamante de Histórias boa parte dos melhores relatos são de inspetores cujos nomes só agora são conhecidos. São esses que nos dão a conhecer casos como o do inspetor infiltrado tão bem caracterizado no "boneco" que quase perdeu a investigação porque foi confundido com um "cigano" com o qual o traficante se recusava a negociar.

Histórias da brigada com nomes de filme (Bora, Bandi, Quebec, Marujo e Jacaré) que capturou um bandido foragido há meses porque o instinto do investigador prevaleceu em duas investigações que se cruzaram.

Ou da jovem que simulou um sequestro porque tinha escondido uma gravidez dos pais e tudo acabou em abraços emocionados de toda a família à porta da PJ; ou ainda daquele velho que Carlos Farinha, então nas investigações de fogos florestais, avistou debruçado sobre terra ardida, nos brutais incêndios de 2003, o "ti João Boiça", a plantar castanheiros "para os netos e filhos dos netos".

Lerá também histórias de fino recorte de humor, como a do suspeito entroncado detido em casa, praticamente nu, ostentando apenas um falo (artificial) "de dimensões extraordinárias que quase lhe roçava os joelhos" e de como os inspetores, em "grande esforço para não perderem a pose, quase trincando os lábios para não soltarem sonoras gargalhadas" o desaparelharam.

Há também quem confesse com emoção casos que os marcaram, como Orlando Mascarenhas, atual coordenador, que nunca esquece o homicídio de um jovem de 18 anos "com contornos maquiavélicos, preparado e premeditado como se de uma encenação cinematográfica se tratasse".

Conseguiu chegar ao assassino e todos os anos na data do homicídio, Natal e Páscoa recebe uma chamada telefónica da avó do jovem agradecer a justiça que no seu entender foi feita. "Manifesta o seu apreço e agradecimento por a Polícia Judiciária ter investigado e descoberto o autor do homicídio, pelo apoio, moral e psicológico. Procura encontrar uma voz amiga na resposta às suas angústias, memórias e lembranças do ocorrido naqueles já longínquos dias, mas que para aquela família é como se ainda fosse hoje", escreve.

Mas também as que destacamos aqui: uma história que passou pela casa de Amália Rodrigues; a do "segredo guardado" das inspetoras da PJ; a do jovem agente "cowboy" que disparou negligentemente sobre o subinspetor; as bem humoradas operações das "ovelhas motorizadas" e das "buscas à reforma agrária"; e o testemunho do atual diretor-nacional, Luís Neves, que escolheu contar exemplos de como valorizar o lado humano dos delinquentes os pode salvar e compensar a sociedade.

"A PJ na cama com a Amália"

"Poucos saberão que em meados da década de oitenta do século XX, a divinal Amália Rodrigues foi a protagonista de uma investigação, insólita e pitoresca, levada a cabo na 13.ª Secção da Diretoria de Lisboa" escreve Carlos Nunes Gomes, coordenador de investigação criminal na reforma.

Numa altura em que o seu departamento estava atolado de queixas de assaltos a residência havia uma queixosa que já tinha sido notificada duas vezes e não comparecia. No meio dos processos havia uma denúncia feita à PSP segundo a qual numa madrugada tinha sido "encontrado um indivíduo, estranho à família, a dormir num dos quartos da residência".

Era a casa de Amália. A fadista estava "adoentada" e pediram para que fosse à sua residência recolher o depoimento. "Toquei à campainha e fui recebido por uma senhora simpática que me conduziu a um salão espaçoso e bem decorado do primeiro andar, a dar para a Rua de São Bento, onde fiquei a aguardar. (...) Não sei quanto tempo depois, uma outra senhora, muitas mulheres havia naquela casa, assomou à sala e perguntou:

- A dona Amália manda perguntar se não se importa de falar com ela no quarto?

Eh pá, esta agora. Os meus trinta e poucos anos arrepiaram-se, mas serviço é serviço. Entrei por ali adentro e fui desaguar num quarto onde a Amália se encontrava, deitada na cama, acompanhada por outras senhoras que, posteriormente, soube serem suas colaboradoras em diversas funções. À minha entrada exclamou com ar brejeiro:

- São todos assim lá na Polícia? Se calhar fizemos mal em não ir lá!!!!!! - Arrancando sorrisos e gargalhadas das presentes. - Olhe, sente-se aqui na cama ao pé de mim e faça lá as suas perguntas", desafiou Amália, segundo conta Carlos Gomes.

Amália pediu a uma das mulheres, a que tinha encontrado o homem a dormir, que contasse a história: "Aí pelas 5h30 da manhã, quando me levantei, passei no corredor e de um quarto alguém perguntou as horas. São cinco e meia, respondi. Quando cheguei mais adiante gelaram-se-me as pernas e apertou-se-me o coração. Naquele quarto não era suposto estar ninguém, o que raio fazia um homem ali? Fui depressa acordar a dona Amália e as outras.

- Exatamente! - prosseguiu a dona Amália - Um homem? perguntei eu. Vamos lá espreitar. Fomos devagar pelo corredor e lá estava ele. Deitado na cama a dormir, as calças penduradas na cadeira, os sapatos debaixo. Lá arrumado era ele. Não fizemos barulho e chamámos a Polícia, que o levou. O rapaz parecia apalermado e estava assustado, era ainda um menino".

Carlos Gomes revela que já falou com ele entretanto e que não havia nada a temer. "O rapaz foi com uns amigos jantar à Casa do Alentejo. Ele não pode beber, mas naquela noite pensou que só um copito não faria mal. Ficou desorientado e ao passar aqui para sua casa, subiu por um caixote do lixo e trepou à varanda que estava aberta. Depois encontrou o quarto e deitou-se. O resto já sabem. Ele acaba por ser um bom moço e trabalha num hotel de luxo aqui da cidade. Podem ficar descansadas", afiançou.

"Feito o auto, demorei mais um pouco na conversa. O serviço da PJ provoca sempre esta curiosidade e o ambiente era de facto muito descontraído. Levantei-me, fiz as despedidas e já à saída do quarto oiço a dona Amália:

- Ó senhor Agente, o rapaz será bom moço e trabalhador, mas não deve ser muito apurado da cabeça! - Porque diz isso? - Então o gajo com tanta mulher cá em casa foi-se deitar sozinho?

Despedi-me daquele adorável convívio com a certeza de levar no bolso uma história para contar aos meus netos".

Um par de ténis para a fuga de "Chiquitá"

O diretor nacional da PJ, Luís Neves, decidiu contar histórias sobre como valorizar o lado humano dos delinquentes os pode salvar e compensar a sociedade. Embora nem sempre. Durante vários anos na antiga Direção Central de Combate ao Banditismo (DCCB), atual Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT), Luís Neves escolheu três episódios.

O primeiro, de 1997, sobre um homem que, em dificuldades financeiras e "pretendendo organizar o batizado de dois filhos, decidiu comparticipar no roubo de uma agência bancária local". Foi preso no próprio dia e na data do batizado estava em preventiva.

Neves e a sua equipa, sensíveis ao desgosto do homem, requisitaram "o preso junto do Estabelecimento Prisional de Lisboa (EPL) e conduzimo-lo ao evento sob custódia, com total discrição. Durante um par de horas, beneficiou do contacto com os entes mais próximos e familiares mais queridos. (...) Sem incidentes, e muito grato pela oportunidade que lhe concedemos, CS regressou à prisão.

Foi julgado e condenado numa pena de prisão relativamente elevada e cumpriu o seu tempo de penitência. Hoje, é quadro responsável numa empresa contactando-me tempos a tempos".

A segunda é semelhante, e envolve uma vaga de assaltos a bancos em 1992. Um dos envolvidos era um jovem de 25 anos, desempregado, que "vivia num quadro de extrema precariedade" com a sua namorada, grávida.

Acabou por ser detido, tal como o resto do gangue, mas o seu "frágil contexto" e o seu arrependimento acabaram por tocar os inspetores. A sua colaboração foi até "crucial para o total desmantelamento da rede criminosa".

Pouco tempo depois de estar preso, "os seus agentes captores, em serviço na DCCB, levaram-no a visitar e a conhecer a sua filha recém-nascida, ao terceiro dia de vida, numa maternidade da capital".

Meses mais tarde, um seu irmão morreu no norte do país e, mais uma vez, Neves organizou a sua deslocação ao velório e funeral.

"Ele próprio e a família mais próxima ficaram profundamente emocionados, gratos e reconhecidos pelo gesto. Convidaram-nos, inclusive, a participar num jantar na modesta casa dos seus pais, onde jantámos na companhia de mais de 30 familiares do homem que acompanhávamos".

CS foi condenado a oito anos de prisão e "é hoje, e desde há cerca de 20 anos, motorista de uma empresa e respeitável homem de família. Com um comportamento de cidadania irrepreensível e sem mácula posterior".

A terceira história do diretor-nacional não acabou tão bem, mas não se pode dizer que não tentou. Trata-se de "Chiquitá", como ficou conhecido um dos maiores, se não o maior, assaltante de bancos no nosso país.

No dia da captura, no antigo quartel-general da DCCB, na avenida José Malhoa, a que chamavam "Base Mike"o jovem angolano lamentava-se: "«Chefe Neves, chefe Neves, Chiquitá é um desgraçadoooo!!! Chico não tem nadaaa!!!... não tem escova de dentes, não tem roupa, não tem calçado... não tem nadaaa!!!».

Cansado de o ouvir e "sensível com o nível de penúria e de míngua de recursos em que o Chiquitá coexistia, decidi ir às compras. Para além de objetos comuns de higiene e uso pessoal, e para seu gáudio e regozijo, comprei-lhe um par de ténis. Assim foi para a cadeia", conta Luís Neves.

Passado uns tempos Chiquitá evadiu-se da prisão e logo uma nova vaga de roubos se registou. "Testemunhas inquiridas descreviam o líder do grupo de assaltantes como uma figura ágil e que mal entrava na agência alvo saltava logo para cima do balcão, isto apesar de coxear".

Souberam que quando saltara muro da prisão tinha magoado um pé mas que isso, "não o impediu, mesmo coxeando e calçando os incontornáveis ténis, de prosseguir na senda criminosa, retomando a rentável razia em dependências bancárias".

Seria recapturado algum tempo depois. Entretanto, claro, tive de ouvir e suportar algumas «bocas» e comentários bem-dispostos: «Andamos a comprar e a oferecer ténis para facilitar a fuga de assaltante".

"Nunca deixei de fazer prevalecer o lado mais humano, solidário e, porventura até filantropo. (...) digamos que se trata de uma postura ideológica. Somos Homens, não somos esbirros nem sequazes", sublinha Luís Neves. Chquitá viria a fugir outras vezes e sempre apanhado, encontrando-se preso atualmente.

Marechal Tito e uma "segurança pouco segura"

Lourenço Martins, diretor-geral da PJ entre 1977 e 1982, conta um episódio risível no contexto da visita a Portugal, em 1976 do Marechal Josip Broz Tito, presidente da então Jugoslávia. A PJ foi convidada para fazer segurança mas o que ninguém sabe é que a primeira equipa teve um grave percalço.

"Sob o comando do subinspetor Seiça foi designada uma pequena equipa e lá partiu para as terras do Sul, numa velha carrinha Mercedes. O nosso subinspetor era uma figura imponente, que se distribuía entre o metro oitenta e noventa, sempre aprumado, bem vestido e muito respeitador no trato. Nessa equipa resolveu incluir um irrequieto agente, o qual começava a dar nas vistas por se voluntariar na captura de condenados evadidos, mesmo os mais perigosos. De estatura média, farta cabeleira, parecia «ligado à corrente» e sempre especialmente preocupado com a metralha, não raro se fazendo acompanhar de mais de uma pistola, que distribuía pela sovaqueira e pela cintura".

Quando chegaram ao destino, no Algarve, "no preciso momento em que o subinspetor abria a porta traseira e colocava o pé direito no chão, o jovem agente abria também a porta dianteira e, por obra do destino e da sua desarrumação, o revólver que ainda andava à solta, veio do tablier onde momentaneamente se encontrava, escorregou em modo rápido e tombou para fora da carrinha, batendo no solo de betão num estalido seco, logo seguido de um disparo forte.

Instalou-se na equipa algum pânico, uns pensando que tinham sido alvejados, outros que se iniciara um tiroteio no aeroporto. Tudo serenou quando, logo de seguida, se ouviu a voz cava do subinspetor:

«Ah, ladrão que já me furaste!». (...) Na verdade, o subinspetor deitava a mão ao joelho, por onde começava a espirrar o sangue, que se via pelo buraco da calça e já ensopava o tecido.

Todas as atenções convergiram para o queixoso subinspetor, agora em preparativos para o levarem ao hospital de Faro, a começar pelo agente da metralha, que aquele logo invectivou em ordem incisiva: «Não me toques, segurem-no, tirem-lhe as armas e remetam-no para Lisboa!» E assim foi.

"A Polícia não é para mulheres"

Carina Cruz, na PJ desde 2015 na Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes (UNCTE) escreve sobre uma operação em que uma brigada de três homens e três mulheres dominaram um grupo de seis traficantes, que segundo os colegas estrangeiros eram "malíssimos". Quando a brigada entrou num armazém onde estavam os traficantes, Carina ficou com uma colega a controlar uma das áreas.

"Até que vimos um dos «malíssimos», talvez alertado pelas luzes das nossas lanternas, a dirigir-se para o bloco de escritórios. Olhámos uma para a outra e sorrimos, não foi preciso dizer nada. Estávamos sem comunicações e tínhamos apenas um par de algemas. (...) Ouvimo-lo aproximar-se, enquanto gritava: "Oh! Oh!" batendo com a mão nas portas. (...) Acabou por me encontrar primeiro. Identifiquei-me, em surdina e, de imediato, a minha colega apressou-se em apoiar-me.

Controlámos o suspeito, tão silenciosamente que o poderíamos ter feito numa sala de cinema. Só não o conseguimos algemar. O «malíssimo» era tão grande que apenas um par de algemas não chegava. Mas ele seguiu às nossas indicações. A assertividade tem destas coisas, é sem género e sem estatura".

Despachado este, Carina foi apoiar os colegas que estavam noutro ponto em confronto com os traficantes. "Continuei, e vi que o meu chefe estava entre dois «malíssimos» e, quando controlou o primeiro, o outro fugiu em direção à porta do armazém. Eu estava no caminho.

Disse-lhe que parasse e se deitasse no chão. Vi nos seus olhos que não o ia fazer. Ignorou-me, enquanto corríamos convergentemente. Quando nos aproximámos, ele fez por se desviar, mas não muito, no fundo eu era «só» uma mulher e o «malíssimo» até era grande. Confiante, contornou-me.

O seu descrédito beneficiou-nos a ambos, resultou num ângulo de abordagem mais favorável para mim, e mais seguro para os dois. Consegui alcançá-lo, fomos para o chão e contive-o".

Recorda que, "em retrospetiva, todo o serviço foi digno de compêndio escolar de polícia, um dos muitos que me orgulho de ter vivido. E, naquele dia, no momento da abordagem, três homens e três mulheres, prenderam seis «malíssimos».

No dia seguinte, o que corria entre os detidos no estabelecimento prisional, era que mais de 40 polícias haviam irrompido de surpresa pelo armazém. A magia da perceção. Quando fomos apresentá-los a primeiro interrogatório judicial, no caminho, um deles virou-se para mim e disse: "És forte, mas justa".

Não reagi, desejei-lhe apenas boa sorte. Mas, admito, que revi a nossa Polícia naquelas palavras. Quanto à operacionalidade das mulheres na polícia? Que continue um segredo bem guardado".

"Ovelhas motorizadas"

Vítor Agostinho, inspetor, conta que em meados dos anos 80, altura da adesão à CEE, se investigavam fraudes aos subsídios europeus. Calhou-lhe um caso que envolvia apoios aos rebanhos de ovelhas no Alentejo, em 1989, envolvendo "milhares de contos suspeitos", nas zonas de Alcácer do Sal, Torrão, Vila Nova da Baronia, Alvito, Portel, Vidigueira, Cuba, Beja e Serpa.

Os principais aliados dos investigadores foram os próprios pastores que estavam incomodados com a reputação que lhes estava a ser imputada. Em causa estava a contagem dos animais que devia ser confirmada para ver se batia certo com o número apresentado para a obtenção dos subsídios.

"Após outras e diversas diligências pelo Alentejo profundo, um dos pastores comentou que quando se encontrava em casa, em noites alternadas, via passar uma camioneta «carregada de ovelhas, sempre a coberto da noite» (deve ler-se com sotaque alentejano)".

Identificado o mandante deste serviço de transporte, um homem e o seu filho, o caso esclareceu-se: "Por insuficiência de profissionais de fiscalização, o Ministério da Agricultura (INGA) efetuava as marcações, mês, dia, hora e local onde o rebanho deveria pastar, para que conjuntamente com os seus proprietários, efetuassem a avaliação/contagem do rebanho e ver se estavam de acordo com o número de cabeças indicado no pedido de subsídio que haviam apresentado na candidatura. Assim, conhecedores dos locais das fiscalizações, todas as noites e de acordo com as necessidades, carregavam o gado em camionetas e colocavam em cada local previamente agendado. As cabeças de gado eram sempre as mesmas. (...) O inquérito ficou conhecido pelo «processo das ovelhas motorizadas».

"Busca à reforma agrária"

As "busca à reforma agrária" foi uma operação que visava uma antiga cooperativa (UCP - Unidade Coletiva de Produção) já nos anos 90, quando a "Lei Barreto" já tinha levado à morte de quase todas estas estruturas da reforma agrária.

É contada por Egídio Cardoso, ex-diretor da Unidade de Perícia Financeira e Contabilística. O objetivo era recolher documentos relacionados com a cortiça, uma das maiores fontes de receita das UCP, cuja recolha se suspeitava não estarem a ser cumpridos os prazos legais.

Chegados à aldeia onde seria a cooperativa ficaram a saber que já não existia há mais de um ano. Conseguiram encontrar um antigo responsável e ficam a saber que em relação à "papelada" isso "foi tudo queimado" numa fogueira.

Surpreendido, o inspetor questionou se ele não sabia "que a escrita tem de ser guardada mesmo depois de extinta a cooperativa?".

O homem retorquiu: "Se a cooperativa acabou, para que servia a papelada? Queimou-se tudo e pronto, até porque a gente não tinha lugar para a pôr".

Os agentes entreolharam-se e Egídio pensou que o caso acabava ali, mas um dos agentes não se conformou e quis saber "quem mandou queimar os documentos".

O homem, "sem hesitar e evidenciando estupefação" respondeu: "Ora essa, fomos nós, a direção!" Ou seja, usava "o plural, como se isso minimizasse ou retirasse conteúdo à responsabilidade da sua pessoa".

Escreve o inspetor que "nesta altura, a conversa começava a ganhar alguma comicidade", porque o homem se apercebera que a destruição dos documentos "encerrava alguma ilicitude" e adotou um comportamento "nitidamente cauteloso e tendente a afastar de si qualquer responsabilidade".

O agente ainda insistiu:

- "Mas, vamos lá a ver. Alguém teve a ideia. Ou não?".

E veio a resposta:

- "Não senhor! A ideia foi de todos os da direção".

Procurando colocar um ar de autoridade, mas claramente a levar a coisa para a galhofa, insistiu ainda o agente:

- Ok! Está bem! Mas alguém terá sido o primeiro a ter a ideia. Não foi?

A resposta do homem, como se estivesse na ponta da língua, saiu com solerte desfaçatez.

- Não, não... tivemos a ideia todos ao mesmo tempo".

valentina.marcelino@dn.pt

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