A multidão de anónimos que acreditam em Cruz

Antigo apresentador, condenado por abusos sexuais de menores, encheu a sala de um hotel para apresentar livro

Foi pequena a sala do Hotel Altis para receber a "multidão de anónimos", como lhe chamou Carlos Cruz, que foi à apresentação do mais recente livro do ex-apresentador de TV: depois de duas obras dedicadas ao processo da Casa Pia, no qual foi condenado a seis anos de cadeia, Carlos Cruz aventurou--se agora por uma autobiografia, Uma Vida, na qual tenta passar ao lado do processo judicial que lhe acabou por marcar, precisamente, a vida.

A azáfama na sala começou bem cedo com a chegada de celebridades da televisão, teatro, música, que serenamente se misturaram com os anónimos. A atriz Alexandra Lencastre foi a mais requisitada pela imprensa cor-de-rosa, elogiando a "inteligência e a genialidade" de Carlos Cruz. Apesar de o tema Casa Pia não ocupar espaço considerável na autobiografia (meia dúzia de páginas no final), Alexandra Lencastre lá foi dizendo acreditar "que outra verdade virá ao de cima".

Outros como Virgílio Castelo, Nuno Artur Silva, ambos da direção de programas da RTP, preferiram uma posição mais recuada. Já João Soares, atual ministro da Cultura, apareceu para um abraço, devidamente fotografado. As dezenas de fotógrafos e operadores de imagem não lhe deram um segundo de descanso. A si e às, como fez questão de dizer, "três gerações" da família presentes. Marta Cruz, a sua filha, a avaliar pelo corrupio de fotógrafos à sua volta, é a mais nova celebridade da família.
Carlos Cruz, habituado a falar para multidões, soube interpretar o sentimento da sala. Falou pausadamente, não se referiu diretamente ao processo da Casa Pia - a não ser para dizer que "acontecimentos extraordinários" lhe deram tempo e espaço para, durante 16 meses, construir "à mão" a sua autobiografia - e para conquistar os presentes: "Tenho uma vida muito rica de capital humano, com amigos, família e o reconhecimento de uma multidão de anónimos."

Antes, o bispo D. Januário Torgal Ferreira, a quem coube a apresentação da obra, fez suas as palavras do autor quando pediu "rigor da justiça". O bispo recordou, ainda que sem se referir ao momento concreto, de um tempo em que as pessoas "viraram a cara" a Carlos Cruz, "não queriam apanhar tuberculose" e "não queria nódoas nos fatos", afastando-se progressivamente do ex-apresentador, que conseguiu uma saída precária da prisão da Carregueira para apresentar o livro
D. Januário Torgal Ferreira, recordando vários episódios do passado profissional e pessoal (fazendo algum humor neste capítulo) do ex-apresentador, terminou a apresentação da autobiografia de Carlos Cruz com uma passagem da Bíblia: "Assim que Jesus disse isso, um dos guardas que ali estavam bateu-lhe fortemente no rosto, com a palma da mão, dizendo: "Isso é maneira de responder ao sumo sacerdote?" E Jesus respondeu ao guarda: "Se Eu disse algo de mal, revela o mal. Mas se disse a verdade, porque me agrediste?""

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