A guerra das mulheres nas Forças Armadas

Há 25 anos, não havia sequer calçado para elas. Agora, em teoria, podem desempenhar qualquer função. Mas nunca entraram nas unidades de combate de elite, estão sub-representadas nas chefias e muitos militares homens veem-nas como uma desvantagem. No ano em que se anuncia a primeira general portuguesa, que balanço?

"A mulher ir para a tropa, no meio dos homens, era visto como um escândalo. Para mim era uma honra." Ri. Nasceu há 70 anos, numa aldeia da Beira Alta, perto do Sabugal, filha de dois trabalhadores do campo, numa família de oito irmãos. Era para se chamar Francisca; um erro no registo valeu-lhe um nome original, Francis. Ficou assim, especial como ela que, após a quarta classe na aldeia, partiu para o Porto, aos 11, para aquilo que descreve como "o ambiente um bocado repressivo" de uma congregação de freiras. "Estive lá até ao 5.º ano [atual 9.º] e empreguei-me, vim para Lisboa através de uma senhora para trabalhar como uma espécie de educadora de infância. Mas não era para Francis Matias ficar por aí: abalança-se ao curso de enfermagem. E é aí que a vida dela se cruza com a tropa. "Uma amiga que tirou comigo o curso de enfermagem entrou na Força Aérea, como paraquedista. Fiquei interessada e fui com umas colegas do Hospital de Santa Maria, onde trabalhava, saber como era." A unidade de enfermeiras paraquedistas tinha sido criada em 1961, mal rebentara a guerra em Angola, para apoio de emergência no terreno. Mas, como Francis descobriu, não eram abertas candidaturas todos os anos (só houve nove cursos e nestes só 46 mulheres obtiveram o brevet; o número máximo em exercício simultâneo nunca ultrapassou as 14). "Só houve outra oportunidade em 1972. Fui prestar provas em fevereiro e chamaram-me para o curso." Na recruta, a única coisa que não faziam como os homens era o boxe. "A diferença era que tínhamos menos intensidade: eles corriam mais quilómetros, faziam mais abdominais. Aliás a recruta não mudou muito desde então." Por mais inusitado que fosse uma mulher na tropa, na família, assevera, ninguém a criticou. Pelo contrário: "O meu pai dizia a toda gente que tinha uma filha que saltava dos aviões. Tinha muito orgulho."

Como ela: "Nunca tive medo. Se nascesse outra vez era enfermeira e era paraquedista - é arriscado mas vale a pena." Correu-lhe mal, no entanto. Num "salto da torre" partiu uma perna e teve de ser operada várias vezes. "Fiquei inoperativa todo o ano de 1973. Quando fiquei boa, fui fazer o salto de paraquedas e marcaram-me a viagem para a Guiné em maio de 1974. Mas veio o 25 de Abril."

Carla Benedito: "À partida somos tratadas como iguais. Mas admito que haja alguma diferença entre mulheres e homens no trabalho físico"

Falhou a guerra mas ficou na tropa até 2003. "Tive uma carreira militar. Fiz várias missões. Em 1992, por exemplo, fui a Timor buscar os refugiados timorenses que queriam vir para cá. Reformei-me porque me aleijei num salto em 1998. Saí como capitão. No quadro das enfermeiras paraquedistas, capitão era o posto mais alto, estive 20 anos capitão." E, olhando para trás, para o tempo todo em que foi das únicas mulheres nas Forças Armadas, não vê na exclusão "nenhuma razão de ser": "Só fez bem haver enfermeiras paraquedistas para abrir as mentalidades. O trabalho de uma mulher é como o de um homem. Não digo que vá com uma arma à frente, mas em muitos serviços... Não vejo diferença. Nunca poderei dizer: "eles fazem e não faço porquê"? Se fosse treinada tudo bem. Na minha opinião a profissão de militar é como outra qualquer - tanto é para o homem como para a mulher. Na verdade a mim nem me faz impressão as mulheres em combate."

"Há mulheres a mais"

25 anos depois da abertura formal das Forças Armadas às mulheres e 44 anos feitos sobre a entrada de Francis na Força Aérea, ainda há, no entanto, muita gente que acha que a guerra, na sua versão de terreno, não é para mulheres. Incluindo a mulher que, em princípio - tem de fazer um curso de um ano com um trabalho individual de investigação (o tema já está escolhido, "incapacidade e absentismo nas FA") e depois tem de haver vaga, e o Conselho Superior das FA tem de aprovar - será a primeira general portuguesa: Regina Mateus, 50 anos, médica e coronel da Força Aérea.

Regina escolheu uma especialidade muito útil para uma médica militar: cirurgia geral. Já a fizera quando em 1993, aos 27 anos, concorreu à Academia da Força Aérea. "A principal razão foi a segurança no trabalho", confessa. Nascida em Moçambique, aponta a confusão dos primeiros anos pós-25 de abril como motivo para procurar estabilidade. Tratar-se de um mundo tradicionalmente masculino não a impressionou. "A minha especialidade também é tradicionalmente masculina. Mas na verdade nem tinha, até me interessar pelo assunto, a consciência de que as mulheres estavam excluídas das Forças Armadas. Nunca pensei nisso. E acho que até fomos dos primeiros países a deixar entrar mulheres." Na verdade, não: a entrada generalizada de mulheres, mesmo se não para todas as unidades, nas FA ocorreu em muitos países da Europa, assim como nos EUA e Canadá, anos antes. Corrige: "Sendo um país que teve uma ditadura tão longa até acho que foi rápido."

Ser das primeiras levas de mulheres a entrar num reduto onde só a unidade das enfermeiras paraquedistas cravara uma lança não lhe deixou porém nenhuma impressão de discriminação. "É certo que frequento o ambiente médico mas nunca senti nada disso da parte de outros militares. Sempre fui tratada como uma igual." Exceto na logística: no início, não havia sapatos para o seu número - calça o 36 e os mais pequenos eram o 37 - nem calças que não lhe caíssem. Ri. "Punha dois pares de meias." Aparentemente, ninguém tinha previsto adaptações ao fardamento; em alguns casos não havia sequer instalações preparadas para os contingentes femininos.

Foi tudo "um pouco ad hoc, desestruturado, sem planeamento", comenta Helena Carreiras, socióloga e investigadora do ISCTE com vários trabalhos publicados sobre género e Forças Armadas, vice-diretora do Instituto de Defesa Nacional em 2010/2011. Ainda assim, conclui, "acabou por correr bem." Mesmo se as mulheres continuam, 25 anos depois, sobrerrepresentadas nas áreas de apoio, serviços e saúde, e sub-representadas nas áreas operacionais e no quadro permanente. E apesar de em 2015 terem sido 11% do efetivo total das FA (4000 mulheres), há ainda nas chefias quem, conta a investigadora, afirme que "há mulheres a mais." Porque, ter-lhe-á explicado um chefe de Estado-Maior, "elas não conseguem cumprir e é mau para elas." O que sucede, diz a investigadora, é que as mulheres "têm o seu desempenho muito mais escrutinado que os homens, não só porque são muito mais visíveis, como porque existe uma predisposição para ver o falhanço." São, continua a investigadora, "vistas como membros de uma categoria e, mais, ainda vistas como inferiores. São mulheres antes de serem militares e soldados."

"Discriminação é culpa delas"

Não é a opinião da coronel Regina Mateus, que insiste em nunca ter visto discriminação de género no meio militar. E invoca inquéritos feitos sobre o assunto: "As militares dizem que se há discriminação são as próprias mulheres que se dão a ela." Como assim? "Achavam que tinham assistido a situações de discriminação mas tinha partido das próprias mulheres. E davam exemplos." Ou seja, achavam que eram as mulheres as culpadas? A coronel assente. Aliás, mesmo tendo noção de que há inúmeras evidências de que a discriminação de género existe, não conhece nenhum caso, dentro ou fora das FA: "Nunca ouvi alguém queixar-se, nem verifiquei que sucedesse na minha área social." Mas crê que "as mulheres são diferentes dos homens. Temos uma sensibilidade diferente", o que no seu entender sustentará uma diferenciação dentro da instituição. "Li sobre isso. Houve países em que as mulheres estiveram na frente de combate, como Israel, e acabaram por retirá-las, porque chegaram à conclusão de que os homens estavam sempre preocupados com elas e também que os palestinianos quando sabiam que estavam a combater contra mulheres eram mais aguerridos porque não queriam ser derrotados por mulheres." Na verdade, desde 2000 que, por deliberação parlamentar, as mulheres têm acesso a praticamente todos os postos das Forças Armadas israelitas, sendo 3% nas unidades de combate. E não deve haver força mais misógina que o Daesh, contra o qual combatem com denodo as guerreiras peshmerga. A coronel não se deixa convencer, porém. "Eu não sou mãe, não tive filhos por opção. Mas quem é mãe não é capaz de chegar ao pé de alguém, sobretudo se tiver filhos daquela idade, e matar. Estou a falar do instinto maternal de que nunca fui possuída. As mulheres não são tão formatadas como os homens. Temos uma sensibilidade diferente."

Margarida Figueiredo: "Quando engravidei, o superior hierárquico procurou nos regulamentos e não havia nada. Aplicou-se a lei geral"

Carla Benedito, 38 anos, controladora tática da Força Aérea, é mãe de uma menina de 7 anos. E discorda. "É uma questão de treino, dos automatismos que se adquirem." Carla entrou em 2002. "Confesso que não me moveu uma vocação de infância. Foi uma oportunidade. Sou de Castelo Branco e queria vir para Lisboa. Escolhi esta especialidade porque funciona na capital. Cheguei ao fim do curso de línguas, percebi que não era a minha vocação, tive amigas que concorreram para as Forças Armadas e resolvi tentar." E conseguiu. Fez um curso de nove meses para as funções que ocupa e ficou. O seu trabalho é controlar o espaço aéreo português e desencadear, se for caso disso, a interceção e escolta por caças portugueses. Algo que, informa, sucede umas três ou quatro vezes por ano.

Sobre a integração das mulheres nas FA, coincide com a coronel na afirmação de que não se deu conta de discriminação. E considera que "já evoluímos muito, já se consegue reconhecer que há gente válida em todos os grupos". A evolução pode não ter sido no melhor sentido, no entanto, se os resultados obtidos por Helena Carreiras em inquéritos forem representativos. "Dados apresentados sobre elevado nível de aceitação no início do processo devem ser confrontados com outros disponíveis posteriormente e que sugerem menor otimismo", escreve a investigadora em Integração de Género nas Forças Armadas Portuguesas, 1990-2015. Se há 25 anos 85% dos oficiais da Marinha e 90% nos outros dois ramos se diziam a favor da integração das mulheres, em 1997, num inquérito por si efetuado aos militares colocados na Bósnia-Herzegovina, a maioria - três quartos - opinaram no sentido de que essa integração trazia mais desvantagens do que vantagens, sendo a opinião dos oficiais a mais favorável, mas mesmo assim com 54,3% contra (subindo para 74,3% nos sargentos e 75,4% nos praças). Num trabalho mais recente de acompanhamento das forças portuguesas no Kosovo, eram ainda 28% os militares a verem com maus olhos a integração das mulheres, enquanto para 40,5% não havia nem vantagens nem desvantagens. Só para 20,5% se tratava de algo positivo; 11,5% não tinham (ou não queriam dizer) opinião. E quanto às posições de combate, depois de em 1992 as opiniões se dividirem nos ramos - na Força Aérea dois terços dos inquiridos eram a favor de que as mulheres tivessem acesso a todas as áreas, visão que no Exército só 40% tinham, contra 60% na Marinha - Helena Carreiras sublinha que "ainda há nos cadetes homens da Academia Militar a ideia de que as mulheres não devem estar em todas as situações de combate. Fundamentam-no no facto de não terem as mesmas capacidades físicas, e em acharem que do ponto de vista das forças inimigas enfraquece. Também mencionam a ideia de que se há mulheres presentes os homens querem protegê-las."

Confrontada com estes resultados, Carla reflete. "Admito que haja alguma diferença em relação ao trabalho físico. Mas nunca senti discriminação e nunca tive conhecimento." Como explicar então as respostas aos inquéritos de Helena Carreiras? "As mulheres engravidam e em trabalhos por turnos pode ser visto pelos homens como injusto elas não os fazerem, ou terem direito a ficar quatro meses em casa." Certo é que os homens têm também direito a licença, e podem partilhá-la. Carla assente: "Conheço pelo menos um caso em que foi o militar que ficou quatro meses em casa."

"Viam-nos como bichos"

A ideia de que será a maternidade a responsável por uma tão grande quantidade de opiniões adversas dos homens militares é corroborada por Aida Leigo, 43 anos, primeiro-sargento da Marinha. Aida entrou em dezembro de 1992. "Tinha acabado o 12.º ano, tentei ir para psicologia, não consegui, e como tinha cá um irmão e ele me disse que a Marinha ia aceitar mulheres, resolvi tentar." Acresce ser de uma praia, Mira: "Sou saudosista." O ambiente sobretudo masculino não lhe fez impressão. "Sempre me considerei um bocadinho Maria rapaz, os meus amigos eram sempre sobretudo homens." Apesar de serem os fuzileiros, então como hoje, uma unidade só masculina, a orientar a formação, Aida, hoje integrada no Gabinete de Perspetiva de Género da Marinha, acha que "eles fizeram algum trabalho de casa porque conseguiram que fizéssemos a recruta sem sentirmos algum tipo de discriminação." Nenhuma? Sorri. "Não vou dizer que não houvesse alguma preferência pelos homens. E lembro-me de termos entrado numa oficina de eletricista e eles terem posters com mulheres nuas nas paredes. Mas até achei piada não os terem tirado." A boa avaliação estende-se à experiência no mar. "Fui das primeiras mulheres a andar embarcada num navio. Éramos seis e fomos divididas por bordadas nas licenças. A mim calhou-me uma bordada só de homens." E como era? Sorri. "Nunca me senti isolada, nunca senti dificuldade de integração." Ainda assim, Aida, que é casada com um militar e tem dois filhos - de 16 e 7 anos - coincide com as camaradas da Força Aérea na opinião de que a perspetiva negativa dos homens das FA em relação à integração das mulheres terá que ver com as ausências prolongadas de parentalidade e com a dispensa de determinados serviços, como o serviço noturno (de guarda às instalações). Mas, acrescenta, "gozei o máximo de licença que podia gozar e nunca me foram colocadas dificuldades."

Filipa Albergaria, 41 anos, capitão-tenente, na Marinha desde novembro de 2001, vê a coisa de outra forma. "As visões negativas podem ter que ver com o facto de nunca terem trabalhado com mulheres no terreno." Médica ginecologista, crê também que há deficiências de informação, apesar de Aida certificar que existe, na Academia Naval, formação para a igualdade. "Tenho esta especialidade e não sabia que podia recorrer ao gabinete para ter informação sobre, por exemplo, o que a lei prevê nas licenças de parentalidade, nas dispensas de determinados serviços para as grávidas, etc." À pergunta sobre se subsistirá um viés de género que explica a sub-representação das mulheres nos postos mais altos, reflete. "Acho que não há elementos suficientes para perceber o motivo. E para agir é preciso perceber. Porque as soluções são diferentes consoante o motivo. E pode ser que não tenha passado ainda tempo suficiente."

Tempo. Há 44 anos, conta Francis Matias, "eles viam-nos como bichos, como se não fosse ali o nosso lugar. A ideia era: "Vêm para cá fazer o quê? Não têm a casa para tratar?" Como éramos novas, tinham se calhar medo que engravidássemos, ou assim, e só falávamos com o instrutor e pouco mais." Chegou mesmo a participar de um oficial: "Ele metia-se, sentava-se sempre ao meu lado, dizia que queria sair comigo. Comecei a ficar com receio e fui dizer ao instrutor. Ele deixou-me em paz." Mas, lembra, ficou sempre a pensar que se ele pudesse havia de prejudicá-la. Nos anos 1990 acompanhou a recruta das novas incorporadas e viu coisas parecidas, com a agravante, anota, de que elas eram muito mais novas do que ela fora nas mesmas circunstâncias. Porém, diz ter observado "uma grande evolução": "Vejo agora um espírito muito mais aberto, mais camaradagem. Eles começaram a perceber que é outro militar que está ali."

Ao contrário do que se passa noutros países, não há notícia pública, em Portugal, de casos de violência sexual ou mesmo de assédio nas Forças Armadas. Filipa abana a cabeça: "Eu teria sabido, acho." Aida conhece um caso: uma queixa de assédio. "Foi investigado e chegou-se à conclusão de que era um superior e uma subordinada que tinham de se entender."

"Quotas é discriminação"

Serão as Forças Armadas portuguesas melhores do que o resto da sociedade no que respeita à discriminação de género? Será possível que um meio tão tradicionalmente masculino, com um tão óbvio culto da "masculinidade", e que, por isso mesmo, só se abriu às mulheres depois de todos os outros setores da sociedade, tivesse logrado, graças às suas características específicas de hiper-regulamentação e disciplina, criar um ambiente igualitário? Ou, como é tão comum, a noção da existência ou não de discriminação depende das expectativas e da perceção? Margarida Figueiredo, 52 anos, coronel, é a mulher mais graduada do Exército. Farmacêutica, entrou em 1990 e também ela garante nunca ter sentido nada que tivesse que ver com discriminação. Impedida pelo oficial de Relações Públicas do Exército, presente na entrevista, de se pronunciar sobre os resultados dos inquéritos de Helena Carreiras, não sabe bem o que responder questionada sobre se é feminista. "Os homens e mulheres são diferentes, e cada um tem o seu lugar na sociedade. O que sinto aqui no Exército é que todos temos igualdade de oportunidades. Mas estou a pensar se sei o que é ser feminista."

Sónia Baldaia, capitão de artilharia, 35 anos, incorporada em 1999, entra na conversa: "Não sei bem qual é a definição. Mas se ser feminista é as mulheres terem os mesmos direitos que os homens, então sou feminista." Não tanto, porém, que o facto de haver tão poucas mulheres nas chefias e no quadro permanente a faça pugnar por um sistema de quotas de género como o aplicado na representação política, visando compensar o tradicional, enraizado e inconsciente favorecimento dos homens. "Se queremos igualdade, não devemos estar a diferenciar positivamente." A coronel concorda: "Só o facto de se falar em discriminação positiva significa que há discriminação, não é?"

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