A tuberculose é uma doença que acompanha a humanidade há milhares de anos, e associada a um grande estigma social, mas, a questão, é que é das doenças que tem cura. "É das poucas em que podemos dizer ao doente: ‘Está curado’ e isto compensa tudo”. Quem o diz é o diretor do Centro de Diagnóstico Pneumológico (CDP) de Lisboa e Vale do Tejo, que funciona no Hospital Pulido Valente, integrado na Unidade Local de Saúde Santa Maria, Luís Coelho, que defende ainda que os últimos anos têm sido de verdadeira revolução para o tratamento da doença, não só na área da medicação, como agora na forma rápida de se obter o diagnóstico. Mas alerta: "No mundo que vivemos hoje, com mais pobreza, mais guerra, mais deslocados e em que é previsível uma subida da tuberculose, é fundamental manter os sistemas de vigilância ativos, motivar as pessoas para o rastreio, e sempre que possível, intensificá-los, porque a doença tem cura e os doentes passam pelos centros de tratamento forma transitória”.No Dia Mundial da Tuberculose, que assinala esta terça-feira, dia 24 de março, o diretor do CDP destaca também o facto de, hoje, e no centro que dirige, já ser possível fazer um rastreio e ter um diagnóstico em pouco segundos. Tudo graças a um sistema de Inteligência Artificial (IA) que “faz a avaliação das imagens do RX ao tórax dando um diagnóstico praticamente certo, não há grandes dúvidas”, sustenta. “Ou seja, basta um aparelho de RX para fazer o exame e ao lado um computador com este sistema de IA que tem um algoritmo adequado que em segundos nos diz se o doente tem ou não tuberculose, não digo que o faça com a certeza absoluta, porque em Medicina não há certezas absolutas, mas diz-nos qual é o diagnóstico com a segurança adequada, mostrando-nos as zonas quentes com alterações do pulmão”, explica. . O especialista em pneumologia explica que este sistema foi criado por uma empresa sul coreana e com o objetivo de disponibilizar “um diagnóstico rápido que apoiasse clínicos de países com baixos rendimentos, poucos recursos e alta incidência de tuberculose”. Portugal enquadrava-se neste retrato e a empresa procurou parceiros, sobretudo em Lisboa, por ser uma das áreas mais afetadas pela doença, para testar e utilizar o sistema de IA.Ao fim de um ano, e depois de quase seis mil rastreios realizados, Luís Coelho diz não ter dúvidas de que “é um sistema com muitas vantagens, desde logo porque, com o volume de exames que fazemos por ano, a leitura de resultados consumia muito tempo dos recursos médicos, e esta interpretação das imagens veio facilitar muito a nossa vida, como veio também reduzir os custos”. Mas não só. Em relação aos doentes, por exemplo, “reduzimos muito a necessidade de repetir exames e de os sujeitarmos a mais radiação em caso de dúvidas. E o facto de o doente saber logo se tem ou não tuberculose também é muito relevante”. Na unidade móvel fazem-se 30 a 50 rastreios por diaO CDP tem dois aparelhos de RX e dois sistemas instalados em computadores, um fixo na unidade que funciona no Pulido Valente, outro móvel, numa carrinha que percorre toda a região, que responde a uma população de 1,2 milhões de pessoas, e onde são realizados diariamente 30 a 50 exames. “Através da unidade móvel fazemos rastreios regulares em instituições de solidariedade social, como lares, ou em organizações não-governamentais que dão apoio na rua a pessoas sem-abrigo, toxicodependentes ou que fazem consumo assistido, mas também em estabelecimentos prisionais, escolas ou outras instituições públicas. Se é detetado um caso nestes locais, vamos com a carrinha móvel e rastreamos a população que possa ter estado em contacto, para facilitar às pessoas o não terem de se deslocar ao centro”.O rastreio através da carrinha móvel tomou tal dimensão que a esta altura, a ULS Santa Maria vai adquirir uma segunda carrinha. O objetivo é intensificar o rastreio e a deteção de casos. . Mas ao CDP, sediado no Hospital Pulido Valente, vão pessoas referenciadas pelos médicos de família e também aquelas que se sentem doentes e que, por vontade própria, querem despistar a possibilidade de terem contraído a doença. Por isso mesmo, e como explica, “criámos um sistema de rastreios aberto à sociedade, onde vêm os doentes referenciados de outras entidades, mas também as que se sentem doentes, com alguns sintomas, e que querem fazer o rastreio para despistar a doença”, reforça.Quanto ao número de casos positivos, Luís Coelho é claro: “São muito poucos, podemos dizer que mais de 90% dos rastreios que fazemos são normais, sem doença”, mas há uma outra vantagem associada à leitura do exame com o sistema de IA: “A esmagadora maioria das pessoas que aqui vem fazer rastreios são saudáveis, mas o algoritmo consegue dar-nos alterações ou sinais radiológicos da existência de alguma alteração pulmonar, como bronquite crónica, doença respiratórias crónicas ou que até já tiveram infecções prévias. Quando isto acontece é um alerta, pois estes sinais devem ser interpretados pelos médicos e no sentido de se saber se naquele momento são relevantes ou não.” Por exemplo, “também identifica nódulos no pulmão, maiores ou menores, embora o algoritmo não esteja especificamente treinado para o diagnóstico precoce do cancro do pulmão, mas, mais uma vez, lança um alerta. E se isto acontece fazemos a nossa avaliação e se é detetado ao doente uma outra patologia respiratória suspeita direcionamo-lo logo para uma consulta de pneumologia específica, independentemente de anteciparmos nalguns casos os pedidos de exames dando-se assim um avanço ao diagnóstico”. Luís Coelho reforça que “este mecanismo poupa muito trabalho”, além de que “toda a informação fica armazenada no servidor do hospital e disponível para ser consultada por todos os médicos”. Por tudo isto, e se há mensagem a passar neste dia mundial é a de que “é importante fazer o rastreio e não fugir da situação. As pessoas têm de saber que, mesmo com a doença diagnosticada, vão ficar curadas se aderirem ao tratamento. E hoje em dia já é possível curar-se a tuberculose em quatro ou em seis meses, e não em 18 meses ou dois anos, como acontecia até há muito pouco tempo. As novas terapêuticas à base de medicamentos biológicos, e com muito menos efeitos secundários, a que Portugal tem tido acesso, vieram permitir isso”. O médico alerta ainda para o facto de a tuberculose ser “um problema de saúde pública sério, tendo de haver um papel importante na educação para a saúde para se desmistificar algumas coisas. É preciso dar à população a sensação de que estão protegidas na questão da privacidade, porque é uma doença ainda muito estigmatizada”..Detetado caso de tuberculose pulmonar num hotel na região de Lisboa