Preços da habitação em Portugal levam nómadas digitais a partilhar casa

Crise habitacional já incomoda os de fora que, apesar de terem rendimentos mais elevados, consideram atuais preços "uma loucura" e tecem críticas ao governo português por "subsidiar estrangeiros" como forma de atração, mas de não controlar o problema da habitação.
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A escassez de habitação, agravada pelos sucessivos aumentos das taxas de juro, que vêm a acontecer desde 2022, já se estendeu além das famílias portuguesas e chegou agora aos nómadas digitais. Atualmente, consideram que Portugal é um país caro - com uma crise habitacional sem precedentes, refletida numa realidade inesperada que é ter andares em Lisboa alugados ao mesmo preço do que em Amesterdão -, o que os faz optar por partilhar casa.

Para Nina Fan, nómada digital baseada na Madeira, os preços da habitação em Portugal "são uma loucura", especialmente quando comparados com a Alemanha, seu país de origem, onde o salário mínimo é mais elevado.

"Não faço ideia como os habitantes locais conseguem pagar", diz enquanto explica que dos três alojamentos onde viveu na Madeira, dois eram partilhados. A longo-prazo, a alemã garante que se vai manter em regime de coabitação, porque viver sozinha seria, de facto, "muito caro".

A partilhar casa com a jovem da Alemanha está Andrei Istrate, de nacionalidade romena, que vê espelhada um pouco por todo o lado a realidade que se vive na habitação em território nacional. Apesar do custo de vida a aumentar por todo o mundo, atribui à escalada de preços nas casas a quantidade de pessoas que visitam o país, que tendem a ficar "por períodos cada vez mais longos".

A Portugal continental, mais precisamente a Lisboa, chegou Ilia Postolaki, no final de julho, que tinha ouvido dizer que em terras lusas o custo de vida não era alto - "surpreendeu-me muito, é mais caro do que estava à espera, é de loucos", assevera o jovem moldavo que atualmente vive com um salário norueguês, bastante superior ao nível de rendimentos nacionais.

Apesar de poder suportar os preços da habitação em Lisboa, opta pela solução mais económica: partilhar casa, num país onde "o governo subsidia estrangeiros para virem para Portugal, mas onde não controla o problema da habitação".

Até para Kate Shifman, também nómada digital, mas a viver na Ericeira já desde 2018, este é um desafio visível, embora tenha conseguido, há cinco anos, alugar um apartamento onde vive sozinha, na Ericeira. "Vimos, ficamos e adoramos, mas esperamos não estar a contribuir para os problemas existentes", diz, referindo-se à falta de construção e de um melhor esquema de habitação a preços acessíveis.

Se em 2018 já era difícil encontrar casa, agora "é a loucura" e se para nómadas é caro, para a "classe média e trabalhadora portuguesa não há forma de encontrar habitação".

Atrair nómadas digitais para Portugal tem feito parte da estratégia para dinamizar a economia nacional, razão pela qual o governo apostou na criação de um visto, em outubro de 2022, destinado aos que levam o trabalho às costas pelo mundo fora.

Mesmo assim, e considerando as potenciais vantagens do visto nómada, a crise habitacional começa a constituir-se como fator de desagrado para os que procuram assentar em terras lusas, ainda que temporariamente.

A respeito deste assunto, Gonçalo Hall, fundador da Digital Nomad Association Portugal (DNA Portugal), constituída em 2022, disse ao Dinheiro Vivo que o alojamento é, de facto, a principal questão apontada pelos nómadas digitais na atualidade. "Os preços aumentaram, porque também há procura para que assim seja, mas encontrar casa a um preço decente, em Lisboa, como no resto do país, tem sido o principal desafio."

Para o responsável da primeira associação na Madeira para nómadas, em termos de atração, não se avistam problemas no horizonte, mas é necessário "começar a trabalhar para descentralizar da capital".



Chegada à Ponta do Sol, na Ilha da Madeira, em junho deste ano, Nina Fan veio para Portugal à procura de um clima melhor e de pessoas com mentalidades "mais leves e livres" do que na sua Alemanha natal. Para a jovem de 27 anos, original de Dusseldorf, o estilo de vida nómada significa maior liberdade "para ir e vir, trabalhar onde se quiser e em qualquer altura".

Já tinha visitado Portugal continental há cerca de dois anos, onde passou por Lisboa, mas a vida na cidade nunca foi opção.

A vontade de estar no campo, junto à natureza e conviver com uma cultura diferente daquela onde cresceu, proporcionou à alemã encontrar na Madeira a combinação perfeita de equilíbrio entre vida profissional e pessoal, com pausas para almoço que permitem desfrutar da vida entre mergulhos no Atlântico e caminhadas. Atualmente, trabalha remotamente para uma empresa sediada na Alemanha, na área das Tecnologias de Informação.

Inicialmente, o plano era ficar na Madeira durante dois ou três meses, mas rapidamente se apaixonou pela ilha e decidiu prolongar estadia até, pelo menos, ao final do ano. "Já fiz muitos amigos aqui, mas quero ter tempo para conhecer todos os cantos da ilha", diz, sublinhando a "simpatia, generosidade e coração caloroso dos portugueses, sempre dispostos a ajudar".



Na ilha da Madeira, mais especificamente em Ponta do Sol, onde já existe uma vasta comunidade de nómadas digitais, aterrou vindo da Roménia o engenheiro de software Andrei Istrate, de 30 anos.

Chegou a Portugal insular a 1 de agosto, à procura de um ambiente diferente do que tinha na cidade de onde é originário, na zona da Transilvânia. "O ambiente tropical e o acesso ao oceano é algo que valorizo muito porque não tenho isso em casa", explica ao DV.

Desde que chegou, identificou nos portugueses a "atitude acolhedora e amabilidade", o mote para ao terceiro dia decidir prolongar a sua estadia, pelo menos, por um mês inteiro. Andrei Istrate tem a sua própria empresa e trabalha como freelancer para clientes em diversos pontos do mundo.

Viver um estilo de vida nómada, levando o trabalho às costas pela Europa fora, foi a escolha de Ilia Postolaki, jovem moldavo de 33 anos, que a 25 de julho chegou a Idanha-a-Nova para participar no festival Boom. Depois do evento musical, decidiu ficar mais tempo e visitar Lisboa durante um mês, embora com planos definidos para viajar para a Holanda de seguida.

A trabalhar como programador de software para uma empresa que se dedica à sustentabilidade e ecologia, um dos principais objetivos é o contacto com a natureza e a descoberta de novas culturas.

"Uma das principais razões pelas quais visito Portugal é porque sei que vou ver paisagens deslumbrantes que vão ficar na minha mente por muito tempo", diz. Na sua estadia não faltaram visitas a museus e o convívio com portugueses, de quem ficou com muito boa impressão. "Portugal superou as minhas expectativas", sublinha.


Sol, mar e natureza são boas combinações para quem procura um estilo de vida menos acelerado e com possibilidade de trabalhar em qualquer parte do mundo. É o caso de Kate Shifman, original da Ucrânia, mas com uma vida partilhada entre o país do leste da Europa e os Estados Unidos.

No final de 2016 decidiu mudar-se para Portugal, para fugir do estilo de vida agitado que tinha no seu trabalho de escritório em Nova Iorque. "Um ano antes tinha vindo de férias e apaixonei-me por Lisboa", começou por explicar a marketeer de 45 anos, que chegou a terras lusas com o sonho de criar o seu próprio projeto.

Ainda viveu em Lagos, mas não sentia que estava no sítio certo, pelo que agarrou no carro e viajou pelo país à procura da sua nova casa. A busca terminou quando tropeçou na Ericeira e para a beira-mar se mudou no início de 2018. É nesta vila que vai nascer o projeto de co-living que idealizou, "um centro cultural com um elemento de alojamento, mas que seja na verdade um sítio onde as pessoas encontrem aquela sensação de lar".

A trabalhar como freelancer para uma das maiores agências de comunicação internacionais, a cidadã do mundo espera ver o seu empreendimento concluído "algures em 2024", mais uma razão para criar raízes em Portugal, país que a acolherá como residente permanente a 24 de outubro deste ano. Apesar de já ter raízes criadas em Portugal, diz que tenciona continuar a "praticar o nomadismo ocasionalmente noutros países da Europa, não largando o espírito aventureiro.

Para Kate Shifman, não é difícil perceber porque é que Portugal é considerado um dos paraísos para nómadas digitais - "As ligações que se criam, a abertura à amizade, é algo chocante para quem vem de realidades como a que vivi em Nova Iorque, onde as pessoas eram frias e não tinham tempo. Portugal atrai estrangeiros que "vêm pelas paisagens, mas ficam pelas pessoas".

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