"Somos centenas de falsos recibos verdes"

No terceiro dia do Congresso dos Jornalistas, que termina hoje em Lisboa, foram apresentados casos de precariedade na classe

"Ou sou louco ou sou parvo por estar aqui. Não há forma pior para começar um sábado." O fotojornalista Rodrigo Cabrita escreveu estas duas frases entre as suas notas enquanto não chegava a sua vez de intervir ontem no 4.º Congresso de Jornalistas, durante o painel "Condições de trabalho dos jornalistas". Ouvia, um depois do outro, relatos de situações de precariedade na profissão. Situação que ele conhece desde dezembro de 2015, quando se tornou freelancer.

Trabalhava no jornal i quando do despedimento coletivo. Foi convidado a permanecer no jornal, embora com um deterioramento das condições, entre elas a redução salarial. Já tinha decidido ficar, sobretudo pelas duas filhas. Mas uma noite acordou a mulher para lhe dizer que havia mudado de ideias, porque seria pior "perder a honra e a dignidade". Agora, quando pode tira uma semana e gasta cerca de 300 euros para fazer a reportagem que quer, mesmo que às vezes lhe deem 150 euros por ela, ou que lhe recomendem publicá-la sem receber nada.

Ao lado de Cabrita, na mesa que falava perante a plateia do Cinema São Jorge, em Lisboa, estava Cristina Santos, jornalista da Antena 1, que afirmou ser "um falso recibo verde" da empresa com que tem um vínculo precário há dois anos. No primeiro teve cinco dias de férias, no segundo teve dez. Trabalha em fins de semana, cumpre horários, responde a uma chefia, mas não pode, por exemplo, usar o posto médico da empresa.

Na mesa estava ainda Sofia Branco, presidente do Sindicato dos Jornalistas, que ontem, penúltimo dia de congresso, recordou que atualmente um terço dos jornalistas vive em situação de precariedade. "E se juntarmos os de contrato de termo certo temos quase metade", afirmou, referindo o estudo sobre as condições de trabalho da classe recentemente apresentado (ver texto ao lado). Antes, João Torgal, da RTP, lera a comunicação que contou com a subscrição de 33 outros trabalhadores da empresa. "Somos a voz, a cara e as mãos do serviço público de rádio e televisão em Portugal. Somos centenas de falsos recibos verdes. Somos muitos. Demasiados", afirmou. Acrescentaria depois: "Somos centenas na RTP e outras centenas nas várias empresas de comunicação social." Torgal fez ainda saber que estes trabalhadores são pagos não pelos recursos humanos da empresa, mas pela direção de compras.

Recorde-se que no dia anterior do congresso, sexta-feira, no painel que reuniu 19 diretores de órgãos de informação nacionais, estes referiram que os trabalhadores precários representam uma minoria nas respetivas empresas.

Uma das intervenções com mais aplausos na manhã de ontem foi a de Ruben Martins, de 21 anos, jornalista do Público. Falou dos colegas que viu "saltar de estágio em estágio" e "pagar para trabalhar". Na sua comunicação, chamou a esses estagiários os "escravos da redação" e rematou: "São largas dezenas nas nossas redações." Falou de estagiários que não têm qualquer remuneração e de outros que recebem "150 euros para trabalhar 35 horas por semana : chama-se exploração." Refletindo ainda sobre o estado da profissão em que "vamos a Cuba, a do Alentejo, para falarmos da morte de Fidel Castro", disse que está a ser exigido "que uma pessoa faça o trabalho que duas ou três deviam estar a fazer. E o leitor já não estranha, faz scroll."

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