Sócrates: "Quiseram impedir-me de ser candidato a Presidente da República"

O antigo primeiro-ministro acusou o Ministério Público de nunca ter apresentado provas para a sua detenção e anunciou que vai processar o Estado

O antigo primeiro-ministro José Sócrates considera que houve "motivações políticas" para ter estado detido durante dois anos: "Quiseram impedir-me de ser candidato a Presidente da República e de ter uma voz pública", acusou, em conferência de imprensa.

José Sócrates reagia assim à entrevista do diretor do DCIAP, Amadeu Guerra, na quarta-feira à noite, em que este admitiu que a acusação do processo "Operação Marquês" pode não ocorrer dentro do prazo limite, 15 de setembro.

"O que estou aqui a fazer é denunciar o que está a acontecer e o que está a acontecer está à vista de todos. Quanto a haver ou não haver acusação uma coisa digo: processarei o Estado porque o Estado teve um comportamento de abuso inqualificável", disse hoje José Sócrates quando questionado pelos jornalistas sobre a possibilidade de não ser deduzida a acusação.

Amadeu Guerra fixou, em março passado, a data de 15 de setembro como limite para encerrar a investigação: nesse prazo terá de ser decidido arquivar o processo ou deduzir acusação sobre os arguidos, entre os quais está o antigo primeiro-ministro José Sócrates. Na entrevista agora à SIC, o diretor do DCIAP não excluiu a hipótese de prolongar a investigação, mas também não afirmou claramente que o processo vai ficar decidido na data prevista.

"A única coisa que eu exijo da Justiça portuguesa e do diretor do DCIAP é que respeite a lei e o Estado de Direito. Ele não tem o direito, com aquela arrogância, de vir dizer na televisão: "Logo se vê'. Como se o Estado se pudesse comportar com um indivíduo da forma que quiser. Ele não tem esse direito", declarou José Sócrates.

Para o antigo primeiro-ministro, a "Operação Marquês" é um processo político, tendo acusado Amadeu Guerra de não está a respeitar o Estado de Direito.

"Quero recordar ao procurador que dirige o DCIAP que a ação penal neste país deve estar comprometida com o Direito e com a Lei. Este inquérito acabou no dia 19 de outubro do ano de 2015 e terminou sem acusação. O prolongamento deste inquérito sem cobertura legal confirma que este inquérito não pretende investigar um crime, mas perseguir um alvo político", acrescentou José Sócrates, que reafirmou que a sua prisão serviu apenas para o impedir de se candidatar à Presidência da República.

Para o ex-governante, trata-se de um processo "infame" e que depois das "acusações" sobre a "Parque Escolar, das Parcerias Público Privadas, do TGV, da Argélia, da Venezuela e de Vale do Lobo" é agora a Portugal Telecom "que interessa" ao processo.

"Afinal parece que tudo se resume à Portugal Telecom. Acontece também que estas novas suspeitas são tão injustas e absurdas quanto as anteriores", disse Sócrates, que revelou, durante a conferência de imprensa, que "foi obrigado a "pedir" a subvenção vitalícia.

"Eu, quando fui detido, fui obrigado a vender a minha casa, desde logo para pagar ao meu amigo, como já expliquei, e que pretendia ter feito antes. Decidi vender a minha casa, pagar ao meu amigo e fiquei ainda com algum dinheiro e, para além disso, vi-me forçado, pelas circunstâncias a que o Estado me colocou, a pedir a subvenção vitalícia, coisa que nunca tinha pedido porque não tinha precisado dela, mas vi-me forçado por estas circunstâncias a fazê-lo", disse ainda o ex-primeiro-ministro José Sócrates.

José Sócrates é suspeito dos crimes de fraude fiscal qualificada, branqueamento de capitais e corrupção passiva para ato ilícito, no âmbito do processo "Operação Marquês".

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