Sócrates: "Ninguém pode ser um eterno suspeito"

José Sócrates voltou a criticar a falta de acusação por parte do Ministério Público e denunciou o que diz ser um abuso de autoridade

"Até onde querem levar este embuste?", perguntou José Sócrates numa entrevista esta quinta-feira. O antigo primeiro-ministro voltou a defender que o processo contra si tinha apenas o "objetivo político" de julgar o seu governo e criticou a lentidão das autoridades para apresentar uma acusação formal.

"A primeira coisa de que um cidadão precisa para de defender é conhecer a sua acusação", afirmou José Sócrates que, por sua vez, acusa o ministério Público de estar a abusar da sua autoridade. Aliás, durante a entrevista emitida no jornal da noite da TVI, José Sócrates repetiu várias vezes a palavra "abuso." É assim que descreve a ação do ministério público contra si e o tratamento que tem recebido durante os últimos dois anos.

"Um processo em que se detém" um cidadão durante dois anos e "não se deduz nenhuma acusação, deixando-o à mercê de todas as acusações não é um processo justo", disse José Sócrates. "Ninguém pode ser considerado, num estado democrático, um eterno suspeito", continuou. "O que está em causa é a liberdade e a dignidade do cidadão".

Quando questionado se a complexidade do processo não poderia justificar qualquer atraso ou confrontado com processos similares, em que a justiça demorou mais tempo a apresentar argumentos, José Sócrates afirmou que o seu caso é "absolutamente excecional". Para o socialista, um caso que deveria servir de exemplo em Portugal, pela magnitude dos envolvidos, serviu para revelar o pior lado da justiça portuguesa.

"No meu caso violaram leis e prazos", afirmou Sócrates, denunciando o que diz ser a ilegalidade da sua prisão, a violação do segredo de justiça e o incumprimento dos prazos. No final de contas, para Sócrates, tudo não passa de uma longa "campanha de difamação" contra si, que inclui uma "violação dos direitos" que se esperaria que fosse "incompatível com um estado democrático e de direito".

"Até usaram a prisão como prova - se ele está preso alguma coisa fez", afirmou, exaltado, o antigo governante, que aproveitou a ocasião para negar qualquer envolvimento com a PT, suspeitas levantadas recentemente.

"Nunca fui confrontado com a suspeição da PT, mas é tão absurda e estapafúrdia como as outras", afirmou Sócrates, que garantiu que o seu governo se portou "com total neutralidade" em relação à votação da Caixa Geral de Depósitos sobre a OPA à PT.

Sócrates não deixou de mencionar durante a entrevista que, tal como se espera de um estado democrático e de direito, se o ministério público não tem acusações, deve encerrar o processo.

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