Costa surpreendido mas respeita decisão pessoal de Sócrates

"Não há qualquer tipo de mudança da posição da direção do PS", garantiu Costa

"Surpreendido" pelos motivos da decisão Sócrates. Foi assim que o secretário-geral do PS, António Costa, reagiu à saída do antigo primeiro-ministro do partido, anunciada esta sexta-feira, através de um artigo no JN, crítico para a direção do partido.

"É uma decisão pessoal de José Sócrates que tenho obviamente de respeitar", mas "fico surpreendido, porque não há qualquer tipo de mudança da posição da direção do PS sobre aquilo que escrupulosamente temos dito desde o início: Separação entre aquilo que é da justiça e aquilo que é da política", afirmou o primeiro-ministro.

António Costa falava aos jornalistas em Toronto, antes de iniciar o terceiro de quatro dias de visita oficial ao Canadá.

Depois de defender a tese de que a direção do PS não alterou a sua posição em relação ao acompanhamento de processos como o da "Operação Marquês", António Costa voltou a transmitir uma mensagem de confiança no funcionamento do sistema de justiça.

"Temos todos os motivos para confiar no nosso sistema de justiça e no nosso Estado de Direito, que tem uma dupla dimensão: a da independência total da investigação e a da presunção da inocência que também tem de ser respeitada. Quanto à decisão pessoal do engenheiro Sócrates, tenho de a respeitar", declarou.

Um líder do partido, obviamente, nunca pode ficar feliz quando um qualquer seu militante deixa as fileiras, para mais alguém que foi secretário-geral [do PS]

Interrogado se José Sócrates não foi alvo de uma condenação antecipada quando o presidente do PS, Carlos César, e o porta-voz deste partido, João Galamba, afirmaram que se sentem envergonhados com os casos judiciais que envolvem socialistas, António Costa contrapôs que, "caso se ouça o que foi dito, verificar-se-á que nenhum disse isso".

António Costa repetiu depois que tem de "respeitar a posição pessoal do engenheiro Sócrates".

"Um líder do partido, obviamente, nunca pode ficar feliz quando um qualquer seu militante deixa as fileiras, para mais alguém que foi secretário-geral [do PS]. Agora, é uma decisão pessoal dele [José Sócrates] - e tenho de a respeitar", insistiu.

Confrontado com as queixas do antigo primeiro-ministro de que o PS esteve em silêncio perante "violações do segredo de justiça" no âmbito da Operação Marquês, o atual líder socialista respondeu que, "desde há muito tempo, há um entendimento divergente" em torno dessa questão.

"O PS entende que não tem que interferir no sistema de justiça, que tem os mecanismos próprios para funcionar e investigar. Quem goza da presunção da inocência pode exercer o seu direito de defesa - e tudo deve ser respeitado. Quanto ao mais e quanto ao caso [de José Sócrates], só tenho a dizer que respeito naturalmente a sua posição pessoal", acrescentou.

A reação do secretário-geral do PS junta-se a outras no partido: O presidente do PS Carlos César disse que a decisão de José Sócrates foi tomada "de forma responsável e livre" e lembrou "marca positiva como primeiro-ministro", deixando também claro que a posição do PS não mudou.

Um dos fundadores do partido, António Campos, no entanto, criticou o partido, dizendo que o "PS traiu a sua própria origem" ao embarcar em julgamentos populares e disse compreender a reação de Sócrates.

O antigo secretário-geral do PS e primeiro-ministro José Sócrates anunciou hoje que pediu a desfiliação do partido para acabar com um "embaraço mutuo", após críticas da direção que, na sua opinião, ultrapassam os limites do aceitável.

Num artigo publicado hoje no Jornal de Notícias, José Sócrates, principal arguido na Operação Marquês, acusado de vários crimes económico-financeiros, nomeadamente corrupção e branqueamento de capitais, diz que está a ser alvo "uma espécie de condenação sem julgamento".

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