Comunistas, negros, gays e muçulmanos foram vítimas de skinheads

Alguns dos 20 detidos pela PJ estiveram envolvidos no assassinato do cabo-verdiano Alcino Monteiro, em 1995

Comunistas, negros, muçulmanos e homossexuais foram violentamente espancados por skinheads entre 2013 e 2015, no centro de Lisboa. A motivação político-ideológica dos cabeças rapadas, que pertencem à fação mais perigosa do movimento internacional de extrema-direita Hammer Skin Nation, levou à intervenção da Unidade Nacional de Contraterrorismo (UNCT) da PJ, que deteve ontem 20 suspeitos.

Em causa estão crimes de discriminação racial, religiosa e sexual, bem como ataques ideológicos. Entre os detidos estão alguns dos condenados pelo homicídio de Alcino Monteiro, em 1995, no Bairro Alto e que também estiveram envolvidos, nos últimos anos, em noutros casos (ver coluna ao lado). Os cabecilhas do grupo agora detido fizeram parte do núcleo duro do ex-líder dos Portuguese Hammer Skins (PHS), Mário Machado, detido desde 2007, data da última megaoperação da UNCT contra os crimes deste movimento neonazi.

"Os crimes de ódio são intoleráveis num Estado de direito democrático e a PJ é implacável na perseguição dos seus autores", assinalou ao DN o diretor da UNCT, Luís Neves. Este dirigente salienta que "no atual contexto de migrações e refugiados, a UE apelou aos estados-membros que dessem prioridade máxima ao combate aos crimes de discriminação racial e religiosa. É esse o objetivo da PJ. As pessoas podem ter as ideologias que quiserem, mas quando cometem crimes contam com uma perseguição policial sem tréguas".

A Agência Europeia para os Direitos Fundamentais assinala que "os crimes de ódio afetam toda a sociedade" e que "seja qual for a vítima, estas ofensas atingem não só o alvo individual como também os princípios democráticos, de direitos fundamentais e de não discriminação da UE".

Um dos casos que faz parte do inquérito, que foi coordenado pela 11ª secção do DIAP de Lisboa, foi o dos incidentes de setembro de 2015, na rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa. Um grupo de militantes comunistas foi violentamente agredido por skinheads, quando saía de um comício da CDU, no Coliseu dos Recreios. Um deles, sindicalista, perdeu a consciência, foi hospitalizado e ficou com danos cerebrais irreversíveis.

Os neonazis tinham estado numa concentração, junto à Assembleia da República, contra os refugiados, tendo depois seguido para aquela zona do centro da cidade. Insultaram primeiro e depois espancaram os militantes do PCP. Para os investigadores a conduta teve uma clara motivação "político-ideológica", o que pode levar a um agravamento das penas.

Foi este o episódio a desencadear das investigações, com a recolha dos vários inquéritos dispersos em várias esquadras da PSP e que esta polícia já tinha referenciado como tendo um ponto em comum: todos os suspeitos identificados pertenciam aos PHS. As vítimas enquadram-se no perfil alvo do movimento que exalta a supremacia da raça branca e que defende a expulsão de Portugal de todas as minorias étnicas e ataca todos os que perfilham ideologias opostas, como é o caso dos comunistas.
Aparentemente estes casos passaram debaixo do radar das secretas, pelo menos até ao Relatório Anual de Segurança Interna, relativo à criminalidade de 2015. Nesse documento, os serviços de informações dão nota um "elevado dinamismo ao nível das atividades do movimento skinhead neonazi (concertos, encontros)" situação que teve " impacto direto no crescimento do número de militantes desta matriz ideológica", mas dizem que essa atividade "não se traduz em ações violentas".

Na verdade, desde a megaoperação de 2007 que a ação destes skinheads se tem pautado por uma maior discrição no que diz respeito aos crimes de ódio. O ex-líder Mário Machado foi expulso, depois de ter sido condenado por crimes de delito comum, como roubos e sequestros e outros membros do seu núcleo duro também tinham sido estrategicamente afastados. Esta operação da UNCT vem mostrar que a "serpente" que tinha sido decapitada em 2007 recuperou e organizou-se de novo.

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