Sindicatos apontam mais de 80% de adesão à greve

Saúde, educação, autarquias e justiça foram os setores mais afetados pela paralisação de ontem

Conceição Abreu chegou ao hospital de Santa Maria às 8.30 da manhã. Ia a uma consulta com o Gonçalo, o filho de oito anos, marcada há dois meses e meio. Já é quase meio dia quando deixa o hospital, sem consulta nem remarcação. "Agora vou ficar à espera que remarquem", diz ao DN, com um encolher de ombros de quem já antecipava este desfecho. Mas este não foi um cenário generalizado no Santa Maria: a maior parte dos utentes questionados pelo DN disse ter sido atendido.

Segundo a Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública, estrutura da CGTP que convocou a paralisação, a adesão à greve fixou-se em "mais de 80%". Números "muito expressivos", resumiu ontem Ana Avoila, que ao DN destacou a adesão nos serviços de Saúde, na Educação, nas autarquias e no setor da Justiça. A coordenadora da Frente Comum dá, assim, por alcançados os objetivos da paralisação - a reposição das 35 horas de trabalho para todos os trabalhadores da Função pública, a reposição do pagamento das horas extraordinárias, o descongelamento imediato das progressões na carreira e o aumento dos salários. Tudo sob o pano de fundo do Orçamento do Estado para o próximo ano, que vai entrar na discussão na especialidade no parlamento. "É o terceiro orçamento deste governo e tira mais do que dá à função pública", critica Ana Avoila.

"Com todas as regalias que têm..."

À porta do Santa Maria, a fazer contas a quando será a próxima consulta, a mãe de Gonçalo não critica a greve, mas tem uma perspetiva diferente: "Com todas as regalias que já têm...". Não é a única a dizê-lo. Depois de "mais de três meses à espera", o filho de Adriano Cardoso trouxe o pai da Nazaré para uma consulta de neurocirurgia, mas volta para trás sem consulta. "Fartámo-nos de ligar para cá de manhã, mas ninguém atendeu", critica, pouco compreensivo com os motivos da greve: "35 horas semanais? Eu trabalho 40! Têm uma vida santa!".

Já no Centro de Saúde de Sete Rios, um dos maiores do país, os utentes saem sem queixas - é uma manhã normal. Ou quase: Maria José e Noémia Simões tiveram consulta, mas ficaram sem a vacina da gripe. O serviço estava encerrado por falta de enfermeiras. Críticas não há: as duas irmãs defendem que as enfermeiras "deviam ter um aumento" - "Têm um trabalho mais difícil que os médicos".

Num dia em que muitas escolas encerraram, na Cidade Universitária muitos estudantes não tinham ainda dado pela greve. Até à hora em que se dirigiram à cantina da Universidade de Lisboa, onde eram recebidos por um funcionário à porta que ia repetindo, em tom monocórdico, "não há almoços". "Não há?", perguntava, incrédulo, um estudante. "Só segunda-feira".

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG