"Revolução liderada por Mao parecia mais sedutora do que a política do PCP"

O livro Peregrinação Vermelha, o Longo Caminho até Pequim, que conta a atração de muitos políticos portugueses pelo maoísmo, é lançado em Lisboa na próxima quinta-feira. DN entrevistou o autor, o jornalista António Caeiro

Após 19 anos como jornalista em Pequim, o que revela este livro?

Foi escrito ao longo de mais de uma dezena de anos, porque saía da minha rotina diária da agência noticiosa [Lusa]. Fui recolhendo essas histórias, que não conhecia. Não sabia que entre 1949 e 1979 não havia relações entre Portugal e a República Popular da China, mas havia contactos secretos, clandestinos...uns ideológicos, outros de natureza diferente, uns através de Macau e outros fora. Foi algo que fui descobrindo e que, não sendo historiador, faz parte de uma história muito mal conhecida. Por outro lado, há uma parte que envolve os nacionalistas das antigas colónias portuguesas cuja passagem pela China foi igualmente determinante: Amílcar Cabral, Viriato da Cruz, dirigentes da Frelimo, Savimbi... os 11 fundadores da UNITA estudaram na Academia Militar chinesa.

Como explicar tantos contactos, quando os dois países não tinham relações diplomáticas?

Isso deu-se no final dos anos 1960 e primeira metade dos anos 1970. Coincidiu com a Grande Revolução Cultural Proletária, vista como movimento libertador contagiante, sem precedentes e que contrastava com o cinzentismo da União Soviética. Num país autoritário [como Portugal], a revolução liderada por Mao parecia mais sedutora do que a política do PCP... que agora tem melhores relações com a China e os maoístas tendem a desaparecer.

E entre 1949 e os anos 1960?

Os anos da década de 1966 a 1976, período da Grande Revolução Cultural Proletária e que coincidiu com os últimos anos de vida de Mao, são vistos como uma época de caos, uma calamidade. Mesmo assim, [o presidente dos EUA Richard] Nixon foi à China em 1972...quando o Ocidente falava do Império do Mal referia-se à URSS, como se Mao não fosse o inimigo. E a União Soviética também era inimiga de Pequim. Talvez tudo isto contribuísse para a imagem da China não ser tão diabolizada e os excessos do regime chinês não aparecerem de forma nítida.

Mao exerceu grande influência na juventude portuguesa...

A perceção no Ocidente sobre a China não tinha nada que ver com a realidade. A China da revolução cultural era um Estado totalitário, caótico, que os próprios chineses - como Ba Jin, que foi presidente honorário da Associação de Escritores da China - classificam hoje como um holocausto espiritual. No Ocidente, coincidiu com a emergência das revoltas estudantis do Maio de 68, com o movimento hippie... a manifestação dos Guardas Vermelhos a contestar a autoridade era vista como um gesto libertador, mas não havia informação. Muito poucos jornalistas iam à China e os que iam só viam o que as autoridades lhes mostravam. A imagem da China era uma projeção...

Como reagiu Lisboa à tomada de poder de Mao Tsé-tung?

Em 1949, quando foi proclamada a República Popular da China, os diplomatas portugueses no terreno [Cantão, Xangai, Hong Kong, Macau] defendiam que Portugal devia defender o novo regime, desvalorizando a componente comunista e argumentando que seria melhor para Macau. Mas Salazar sempre se opôs a isso. Manteve relações com Chiang Kai-shek [nacionalista derrotado por Mao], mas não abriu uma embaixada em Taiwan. Também foi surpreendente saber que o último ministro dos Negócios Estrangeiros de Salazar, Franco Nogueira (casado com uma filha de um diplomata chinês), advogava desde os anos 1950 o restabelecimento das relações diplomáticas com a China.

Mas Salazar e Mao viam Macau como não sendo uma colónia...

Nesse aspeto coincidiam. Para Salazar, que nunca visitou nenhuma colónia, Macau era uma província portuguesa. Os chineses nunca aceitaram que Macau fosse uma colónia... assim que Pequim entrou na ONU, em 1972, propôs de imediato retirar Macau e Hong Kong da lista de territórios a descolonizar, porque eram parte da China. E quando a imprensa soviética dizia que os chineses eram muito radicais, mas aceitavam o colonialismo em Macau e Hong Kong, eles respondiam sempre que não. Eram problemas legados pela história que resolveriam à sua maneira e quando entendessem.

Como foi ser jornalista na China durante duas décadas?

Cheguei num dia de grande crispação, logo a seguir à repressão em Tiananmen, quando as relações da China com o resto do mundo estavam em grande tensão. Assistimos depois a um desenvolvimento inimaginável e a uma escala nunca vista. Do ponto de vista económico e social, tudo começou a transformar-se e desafiando mesmo as leis da ciência política. Centenas de milhões de chineses saíram da pobreza, o país transformou-se em 30 anos na segunda potência mundial, com grandes investimentos nos principais países capitalistas e proporcionando a emergência de uma classe média que representa dezenas de milhões de pessoas com capacidade para comprar carro, viajar e educar os filhos... Foi apaixonante!

Pequim criou uma Rádio Internacional da China em português...

Chamava-se Rádio Pequim. Era mais um sinal do empenhamento da China no apoio à luta dos movimentos de libertação africanos. Os chineses da secção portuguesa eram quase todos recrutados na secção espanhola da rádio e contaram com o apoio de comunistas brasileiros. Foi nesta rádio que se criou o a primeira turma de Português e onde ensinaram alguns nacionalistas africanos como Onésimo da Silveira, que viria a ser embaixador de Cabo Verde em Portugal. Foi também aí que se formou um dos mais conhecidos tradutores chineses de português, Fan Weixin, que traduziu o Memorial do Convento, de Saramago.

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