Reforma do euro centra debate na cimeira dos sete do Sul da UE

Migrações, terrorismo e segurança das fronteiras da UE são outros dos temas na agenda dos líderes de Portugal, Grécia, França, Espanha, Itália, Chipre e Malta, hoje reunidos em Lisboa

A urgência em reformar o funcionamento da zona euro é um dos temas centrais da cimeira informal dos países do Sul da Europa, que hoje decorre no CCB, em Lisboa, com a presença dos líderes de Portugal, Grécia, França, Espanha, Itália, Chipre e Malta.

"A União Europeia apenas poderá vencer os desafios que se lhe colocam se estiver unida e coesa. Para isso é condição necessária ter consolidado os avanços já alcançados - em particular o euro - antes de avançar para novos domínios de aprofundamento da integração", disse ao DN fonte do gabinete do primeiro-ministro António Costa.

Esta é a segunda reunião dos sete do Sul da Europa: a primeira foi em Atenas a 9 de setembro de 2016, por iniciativa do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras (descrita por alguns media como uma espécie de aliança antiausteridade). Entre uma e outra muito aconteceu: Donald Trump tornou-se presidente dos Estados Unidos, Matteo Renzi demitiu-se da chefia do governo italiano após perder o referendo da reforma constitucional, Theresa May, primeira-ministra britânica, foi obrigada a pedir autorização ao Parlamento para ativar o brexit e Martin Schulz deixou a presidência do Parlamento Europeu para avançar como candidato do SPD a chanceler nas eleições legislativas alemãs de 24 de setembro.

Neste encontro de Lisboa, que acontece a dois meses das legislativas holandesas e a três das presidenciais francesas (onde os populistas de direita não param de subir nas intenções de voto), os líderes dos sete países irão preparar outros três eventos importantes: cimeira informal de Malta a 3 de fevereiro, o Conselho Europeu da Primavera a 9 e 10 de março e os 60 anos do Tratado de Roma, que serão assinalados a 25 de março. Analisarão ainda as conclusões do seminário sobre o euro, que decorreu na Fundação Gulbenkian no dia 24.

Costa irá promover o debate dessas mesmas conclusões, como sejam "um mix de políticas que conjugue a política do BCE com a coordenação das políticas dos Estados membros, a conclusão da União Bancária através da concretização do sistema europeu de garantia de depósitos, o reforço dos instrumentos europeus de apoio ao investimento público e privado, discriminando positivamente as economias afetadas pelos programas de ajustamento orçamental ou a criação de uma capacidade orçamental própria da zona euro", precisou fonte próxima de Costa. No encerramento do seminário, o chefe do governo defendeu que "importa assegurar a evolução do Mecanismo Europeu de Estabilidade na direção de um Fundo Monetário Europeu, explorando a sua ação no apoio à gestão mais eficiente das dívidas soberanas".

Numa altura em que volta e meia surgem notícias sobre a vontade do FMI em sair do resgate da Grécia (o terceiro desde 2010), o debate sobre esse fundo europeu pode ganhar um novo impulso. "A candidatura de Schulz é uma excelente notícia para a Europa, sobretudo no contexto internacional. É uma alternativa sólida e credível. Se isso significa que ele caso vença as eleições na Alemanha acelerará um processo da união monetária, através da criação desse tipo de instrumento, não sei, ainda é cedo para se saber isso", afirmou ao DN Paulo de Almeida Sande, especialista em assuntos europeus e ex-diretor do gabinete do Parlamento Europeu em Portugal.

"Esta é uma daquelas reuniões antes de grandes combates que aí vêm, com várias eleições, na Holanda, França, Alemanha... Apesar de achar que estas cimeiras chegam atrasadas, sobretudo no que toca à crise do euro, é positivo. Defendo estas frentes de países. Não é para partir, para dividir, mas sim para tentar salvar", afirmou ao DN Viriato Soromenho-Marques. O professor catedrático da Universidade de Lisboa lembrou que já existe há muito, por exemplo, o grupo de Visegrado (que reúne os líderes da Hungria, Polónia, Eslováquia e República Checa).

Além do euro, economia, investimento e convergência, a segurança interna e externa das fronteiras, o terrorismo, as migrações e a cooperação com outros países do Mediterrâneo e de África são os outros temas em cima da mesa na reunião dos sete líderes hoje. "O arco temporal que vai da eleição de Trump às eleições na Alemanha é aquele que baliza o que pode sair da declaração de Lisboa. É preciso que ela afirme a integridade e os fundamentos da UE", considerou ao DN Bernardo Pires de Lima. O investigador universitário do IPRI alertou, porém, que "este é um ano avesso a grandes reformas, sobretudo ao nível do euro, até se saber o resultado das eleições alemãs".

OS SETE LÍDERES QUE PARTICIPAM NESTA CIMEIRA EM LISBOA

António Costa
Primeiro-ministro português é o anfitrião desta segunda cimeira dos países do Sul da UE. Socialista, de 55 anos, lidera o chamado governo-geringonça (PS apoiado por BE e PCP).

Alexis Tsipras
Primeiro-ministro grego lidera governo de coligação entre a coligação de esquerda Syriza e os nacionalistas de direita ANEL. Outrora um antitroika radical, Tsipras, de 42 anos, suavizou muito as suas posições e foi forçado a pedir um terceiro resgate. A Grécia é um dos epicentros da crise migratória na UE. Ontem a Turquia ameaçou cancelar o acordo de readmissão de migrantes com Atenas, depois deo Supremo Tribunal grego ter recusado extraditar oito suspeitos alegadamente ligados ao golpe falhado de julho.

François Hollande
Presidente francês não se recandidata às presidenciais de abril-maio em França. O partido de Hollande, de 62 anos, elege amanhã o candidato socialista a essas eleições. Devido à ameaça terrorista e a outros fatores, muitos eleitores têm-se virado para a candidata da extrema-direita Marine Le Pen.

Mariano Rajoy
Primeiro-ministro espanhol não esteve em Atenas devido à falta de acordo de governo. Rajoy, de 61 anos, viu o seu executivo do PP ser reconduzido em outubro graças à abstenção da oposição socialista.

Paolo Gentiloni
Primeiro-ministro italiano desde dezembro de 2016. Gentiloni, de 63 anos, do Partido Democrático, sucedeu a Matteo Renzi quando este se demitiu após perder referendo. Itália é dos países também mais visados pela crise migratória.

Nicos Anastasiades
Presidente cipriota desde 2013, Anastasiades, de 70 anos, teve de pedir um resgate. Político de direita, interage com a Grécia e a Turquia por causa das negociações de reunificação da ilha de Chipre. Estas têm tido alguns avanços nos últimos meses.

Joseph Muscat
Primeiro-ministro maltês é socialista e tem 43 anos. Malta, país atualmente na presidência rotativa da UE, enfrenta há vários anos o impacto da crise migratória no mar Mediterrâneo.

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