"Receio que André Ventura seja um balão de ensaio para uma nova estratégia política"

A duas semanas das eleições autárquicas, o primeiro-ministro admite que nenhum país está a salvo do populismo e diz que as declarações de Passos sobre imigração foram infelizes

Em relação às autárquicas coloco-lhe um cenário para a noite eleitoral, se Fernando Medina não conseguir uma maioria absoluta em Lisboa e se Rui Moreira atingir esse objetivo no Porto depois de ter havido um divórcio com os socialistas, isso não é uma derrota para o Partido Socialista?

Não. É um bom resultado para o Rui Moreira, é uma grande vitória para o Fernando Medina e o PS continuará a ter a presidência da Câmara Municipal de Lisboa e continuará a não ter a presidência da Câmara Municipal do Porto.

António Guterres no início do ano em entrevista ao Diário de Notícias dizia que Portugal é um país onde o populismo não dá votos. Entretanto nesta campanha para as autárquicas foram surgindo alguns candidatos com ideias complicadas e recordo que, por exemplo, uma sondagem recente da Aximage dá um apoio de 70% - e isto é transversal a todos os partidos -, às ideias do candidato André Ventura do PSD em Loures, sobretudo as ideias que tem em relação à comunidade cigana; na Covilhã a candidata do PS gozou com o sotaque de um candidato do CDS que esteve emigrado anos na Venezuela. António Guterres estava enganado sobre o potencial sucesso do populismo em Portugal, andamos todos enganados ou o populismo pode mesmo dar votos em Portugal?

Creio que não há nada que proteja qualquer país do risco do populismo, nós, felizmente, até agora temos sabido resistir ao populismo, e temos sabido resistir porque temos sido capazes de eliminar aquilo que são as causas que alimentam o populismo: a ausência de alternativas democráticas, um sentimento de insegurança das populações, a falta de expetativas quanto ao futuro económico. Não tenho a menor das dúvidas de que o sucesso económico, o ter sido possível garantir esta mudança política nesta legislatura e o sucesso das políticas que temos estado a executar, o facto de sermos um dos países mais seguros do mundo, senão mesmo o mais seguro do mundo, tudo isso não cria as condições para que o populismo venha a progredir. Não confundo uma expressão de mau gosto com um programa político, André Ventura tem um programa político, o meu receio é que esse programa político não seja um acaso, mas possa ser um balão de ensaio para uma nova estratégia de ação política em Portugal. Espero que não seja, porque seria da maior gravidade que houvesse num partido político, com a dimensão e a responsabilidade do PSD, uma tentação dessa natureza. É com preocupação que vejo, por exemplo, as declarações de um importante dirigente do PSD como o deputado Feliciano Barreiras Duarte a sinalizar esse perigo, mas tenho a convicção de que a base e a estrutura fundamental do pensamento do PSD, da sua história e dos seus valores não permitiriam uma derrapagem dessa natureza.

Nós temos felizmente em Portugal há muitos anos um grande consenso em matéria de política de emigração, Feliciano Barreiras Duarte deu, aliás, um contributo muito importante para isso. Recordo que no governo de coligação do Dr. Durão Barroso, quando o Dr. Portas teve umas tentações populistas que volta e meia lhe surgiam, ele sendo um secretário de estado, com muita coragem escreveu um artigo no Público com um ataque muito duro ao então vice-primeiro-ministro e em que repunha a linha certa naquilo que tem sido uma posição comum de todos os agentes políticos em Portugal em matéria de emigração e que tem sido um fator essencial para Portugal ser sistematicamente referido como um exemplo de boas práticas em matéria de integração de comunidades estrangeiras.

Nessa matéria não tem tanta segurança em relação à liderança do PSD, isso podemos perceber das suas palavras.

Acho que todos temos, por vezes, dias infelizes e acho que as intervenções do Dr. Passos Coelho em matéria de emigração foram desses momentos infelizes.

Marques Mendes, conselheiro de estado nomeado pelo Presidente da República disse que na entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa ao DN houve um distanciamento subtil em relação ao Governo motivado pelos casos de Pedrógão e de Tancos. Há dias em Andorra, o Presidente reforçou essa mensagem dizendo que a direita anda distraída e que das vezes que ele virou à direita esta não reparou. O senhor também andou distraído ou reparou nessas viragens?

Vamos lá ver, eu nunca senti vontade por parte do Presidente da República de se filiar no Partido Socialista, nem tenho sentido qualquer rejeição por parte do Presidente da República ou qualquer alteração do comportamento do Presidente da República. Não me recordo de alguma vez os órgãos de soberania terem tido um relacionamento tão exemplar e harmonioso como temos tido ao longo destes dois anos. Não há um único conflito com o poder judicial, a Assembleia da República tem uma maioria plural e estável que tem produzido bons resultados, a relação entre Governo e Presidente da República tem sido impecável de solidariedade, não obstante e como sabemos, pertencermos a famílias políticas diferentes, e temos contribuído conjuntamente para que o país hoje sinta tranquilidade, previsibilidade, esperança, confiança. Acho que é um esforço conjunto que o Governo e o Presidente da República têm feito e que tem sido muito positivo e é muito apreciado pelos portugueses; e que tem tido impactos concretos importantes em vários domínios. Recordo que nem tudo foram momentos fáceis ao longo destes dois anos, houve momentos em que a instabilidade do sistema financeiro representava um risco elevado, convém não esquecer que há cerca de um ano o que se discutia era se a Comissão Europeia sancionava ou não Portugal pelos fracassos do anterior Governo na redução do défice, e atuação articulada entre o Governo e o Presidente da República foram momentos essenciais para o sucesso do país nestes dois anos.

Aí está, é mais uma vez a mesma coisa: o que tem corrido bem, bem deve continuar a correr.

Admite então chegar a 2021 e propor ao Partido Socialista um apoio a uma recandidatura do Professor Marcelo Rebelo de Sousa?

Primeiro tem de perguntar ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa se ele pretende candidatar-se. O Partido Socialista tem uma velha tradição, não apresenta candidatos, apoia personalidades que se candidatem. Portanto, primeiro tem de haver um momento em que as personalidades se pronunciam e depois o PS apreciará.

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