PM destaca necessidade de retomar o cumprimento de promessas

Costa comentou a intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa nas comemorações da Implantação da República

O primeiro-ministro defendeu hoje a necessidade de a classe política retomar um valor "há muito esquecido", o cumprimento de promessas, considerando ser uma exceção em 20 anos pois irá cumprir os objetivos a que se propôs.

"Eu acho que felizmente temos hoje cada vez mais uma sociedade mais informada e portanto mais crítica, e mais exigente, isso implica de todos nós um esforço acrescido para valorizar e dignifica a vida política", apontou António Costa no final nas comemorações da Implantação da República, que decorreram na Praça do Município, em Lisboa.

Para o líder do executivo socialista, "a primeira forma de o fazer é retomar um valor há muito tempo esquecido, que é prometer e cumprir, cumprir aquilo que se promete, cumprir os compromissos que se assumem".

Costa comentou assim o discurso do Presidente da República durante a cerimónia, defendendo também a importância de "falar verdade".

"A democracia vive de críticas, mas tenho 10 meses e meio de exercício de funções e posso-me orgulhar de pelo menos há 20 anos não haver um primeiro-ministro que não tenha aumentado os impostos que prometeu não aumentar, que não tenha feito os cortes que prometeu não fazer e, pelo contrário, podermos chegar ao fim deste ano cumprindo os nossos compromissos internacionais, os nosso compromissos com os partidos que formam a maioria parlamentar, e sobretudo cumprir os compromissos que assumimos com os portugueses", vincou o chefe do Governo.

Na sua intervenção, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que o exemplo dos que exercem o poder é fundamental para que o povo continue a acreditar na República.

Sublinhando que "o 5 de outubro está vivo", mas só se todos lhe derem vida para que os portugueses se possam rever na República democrática, Marcelo Rebelo de Sousa destacou a necessidade de quem exerce o poder de dar o exemplo de "constante humildade, de proximidade, de frugalidade, de independência, de serviço pelos outros, de todos os outros, mas com natural atenção aos mais pobres, carenciados, excluídos".

"Acho que se todos fizermos isso, naturalmente, como disse o Presidente da República, daremos mais vida ao 05 de outubro, e ao dar mais vida ao 5 de outubro, damos mais força à República", vincou o primeiro-ministro.

Para o chefe de Governo, a "forma como a Assembleia da República tem agido, como o senhor Presidente da República tem agido" contribui positivamente para o país viver num "clima descrispado".

"Hoje felizmente não estamos coma tensão que se viveu até há um ano atrás, hoje as pessoas podem retomar com tranquilidade e normalidade o seu dia-a-dia", referiu.

Considerando que Portugal "não está num mundo cor-de-rosa", Costa sublinhou que o Governo tem "consciência de que há muito trabalho a fazer ao longo desta legislatura de quatro anos".

"Mas ao fim de 10 meses e meio de exercício de funções tenho a minha consciência bastante tranquila da forma como temos agido, cumprindo aquilo que prometemos", vincou.

O primeiro-ministro observou também que, apesar das descrenças quanto à "estabilidade política sem maioria absoluta", à compatibilização "do virar da página da austeridade repondo vencimento, diminuindo impostos e cumprindo os objetivos perante a União Europeia", Portugal "vai ter o melhor défice dos últimos 42 anos".

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