Pilotos do C-130 treinavam emergências na descolagem

Presidente da República visitou base onde aeronave explodiu dia 11 e manifestou "confiança absoluta" na frota e na Força Aérea

O Hércules C-130 que explodiu há uma semana no Montijo, causando a morte de três militares, estava a treinar ações de resposta a "algo que pode correr mal durante uma descolagem", soube ontem o DN junto de fontes militares.

"A aeronave não levantaria voo em circunstâncias normais, pois estavam a treinar situações de emergência à descolagem com momentos de decisão diferentes que variam em função da velocidade" a que o C-130 já rola ou, por exemplo, o ponto da pista que já atingiu, adiantou uma das fontes.

Esta informação deverá ter sido uma das transmitidas ontem ao Presidente da República pelo chefe do Estado-Maior da Força Aérea, no briefing que antecedeu o voo de meia hora num C-130 com que Marcelo Rebelo de Sousa quis manifestar a sua "confiança absoluta" no ramo e naquela frota de transporte militar.

Marcelo Rebelo de Sousa disse no final da visita à base aérea do Montijo, que qualificou como "emocionante e motivadora", que ainda "é cedo" para se saber qual a origem do acidente, que está sob inquérito da Comissão Central de Investigação da Força Aérea. Certo é que "o C-130 continua a voar, os operacionais continuam operacionais, a Força Aérea continua a cumprir a sua missão e o comandante supremo das Forças Armadas veio aqui dizer que está ao lado dessa missão com confiança absoluta", enfatizou.

"Consegui perceber uma coisa muito importante, que é a preocupação da Força Aérea em olhar para as famílias das vítimas e estudar a sua situação e prover à sua situação", acrescentou o Presidente da República.

A missão de treino para qualificação de um dos piloto-aviadores da esquadra 501 dos C-130 decorria ao fim da manhã do passado dia 11 e provocou a morte de três militares: o tenente-coronel Fernando Castro (piloto instrutor), o capitão André Saramago (piloto que só iria realizar a sua missão de treino durante a tarde desse dia) e o sargento-ajudante Amândio Novais (mecânico de bordo). Ficaram ainda feridos outros quatro, um dos quais com gravidade e que continua internado no Hospital de São José em situação estável mas ainda com prognóstico reservado, segundo uma das fontes ouvidas pelo DN.

Os três corpos foram encontrados próximo da rampa no compartimento de carga, para onde se dirigiram conforme determinam os manuais de segurança em situações de emergência. Os quatro militares que se salvaram - incluindo o que estava no lugar do comandante, no lado esquerdo da cabina de voo - conseguiram sair por uma janela do cockpit da aeronave, que ficou praticamente destruída com o incêndio e posterior explosão, indicou outra das fontes.

Modernização adiada

Este acidente do C-130 foi o terceiro em cerca de um ano, após o ocorrido nos Açores em dezembro passado e outro à entrada do hangar da esquadra em meados de 2015, lembrou uma das fontes.

Até ontem, as investigações em curso no Montijo não detetaram quaisquer indícios que apontem para uma falha técnica na origem do desastre. Isso explica que, além dos voos realizados nas cerimónias fúnebres dos três militares mortos e ontem com o comandante supremo das Forças Armadas a bordo, hoje decorra a primeira missão operacional atribuída ao C-130 após o acidente - a viagem semanal para os Açores.

A substituição dos C-130 - aeronaves com quase quatro décadas ao serviço da Força Aérea - foi aprovada em 2001 para se concretizar em 2008, prevendo-se 300 milhões de euros para a o programa dos A400M europeus. Este projeto foi abandonado poucos anos depois, a favor da hipótese de compra dos C-130J e condicionando-se o processo à alienação dos caças F-16. Com a opção de adquirir o KC-390, Portugal optou por prolongar a vida útil dos Hércules através da modernização dos equipamentos de voo (anticolisão, telecomunicações, aviónicos) exigidos para operar no espaço europeu.

Com Lusa

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