PGR de Angola investiga administrador da Sonangol com colaboração de Portugal

Um dos novos administradores da Sonangol está a ser investigado por alegado envolvimento num esquema de serviços fictícios da TAP à Sonair

A Procuradoria-Geral da República (PGR) angolana confirmou uma investigação a um dos novos administradores da Sonangol, implicado num alegado esquema de serviços fictícios da TAP à Sonair, e que será pedida a colaboração de Portugal.

A informação foi prestada ao final do dia de sexta-feira, em Luanda, pelo procurador-geral da República, João Maria de Sousa, no final de uma reunião do Conselho Superior da Magistratura do Ministério Público, que serviu igualmente para aprovar a sua jubilação.

"É citado num processo no âmbito da cooperação judiciária internacional em matéria penal, proveniente de Portugal. Deu origem à instauração de um processo aqui em Angola e esse processo está a dar os primeiros passos", informou João Maria de Sousa.

Luís Ferreira do Nascimento José Maria foi nomeado a 15 de novembro, pelo Presidente angolano, João Lourenço, como um dos administradores executivos da Sociedade Nacional de Combustíveis de Angola (Sonangol), na sequência da exoneração da administração liderada pela empresária Isabel dos Santos.

Contudo, Luís Ferreira do Nascimento está implicado numa investigação iniciada em Portugal, suspeito de ter recebido, alegadamente, uma parte dos 25 milhões de euros que terão sido desviados da Sonair, a companhia de aviação da Sonangol.

"A determinação do seu caminho [o processo] passará também pelo pedido de cooperação judiciária a Portugal, que terá que nos enviar uma série de elementos mais. Mas, de qualquer modo, é um processo para ser levado a sério. Envolve, como referem as autoridades portuguesas, mais de 25 milhões de euros, e por isso é um caso a ser tratado com seriedade", garantiu o procurador angolano, que até 02 de dezembro deverá ser substituído no cargo.

Em causa está o caso conhecido em junho último, em Portugal, em que três advogados e outras quatro pessoas que tiveram ligação à TAP, um deles como membro do Conselho de Administração, foram acusados pelo Ministério Público (MP) português de corrupção ativa com prejuízo no comércio internacional, branqueamento e falsificação de documentos.

Segundo informação divulgada pelo Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), mediante um esquema de aparente prestação de serviços da TAP à Sonair, foi possível a colocação em Portugal, por parte da petrolífera angolana, de elevados montantes em dinheiro.

"A investigação apurou que a Sonair procedeu ao pagamento à TAP de um valor superior a 25 milhões de euros sem que tenha havido a prestação dos serviços aparentemente contratados", indicou na altura o DCIAP.

As autoridades portuguesas investigaram todos os responsáveis envolvidos neste caso e acabaram por extrair uma certidão sobre os alegados crimes que terão ocorrido em território angolano, enviando-a por carta rogatória para a Procuradoria-Geral de Angola para a continuidade da investigação.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.