Paulo Portas "bastante preocupado" com perda de competitividade da Europa

Portas discursou esta sexta-feira numa iniciativa da Associação Comercial do Porto

O ex-vice-primeiro ministro, Paulo Portas, afirmou hoje estar "bastante preocupado com o estado da Europa", considerando que o continente está a perder competitividade desde "a digitalização da economia" e "não desde a crise financeira".

"A Europa cresce metade dos Estados Unidos da América (EUA), mas acha que os americanos é que estão errados, a Europa tem o dobro do desemprego dos EUA, mas acha que os americanos é que estão errados. Um europeu muda de emprego ou de cidade três vezes menos do que um americano, mas acha que o americano é que está errado, a Europa investe em pesquisa e desenvolvimento metade dos EUA, mas continua a achar que quem está errado são os EUA", disse, considerando que "esta fixação no erro é desastrosa".

Falando no Porto, no âmbito da iniciativa da Associação Comercial do Porto "Conversas na Bolsa", sob o tema "O que se pode esperar do Mundo em 2017?", Paulo Portas disse que "os demagogos gostam mais de criticar a globalização do que a digitalização, mas, obviamente, sabem que estão a mentir".

"Não é a globalização que no essencial é responsável pela destruição de empregos, é a digitalização e o progresso da tecnologia que dispensa a intervenção humana. Se for um demagogo e criticar a globalização, estou a dizer 'vou restaurar as fronteiras', se tiver que dizer a verdade e criticar a digitalização tenho que dizer que 'vou acabar com a internet, com os iPhones, com a Apple', rifam-me em dois segundos", sublinhou.

Para Portas, "é por isso que os demagogos dizem que a culpa é da globalização" embora saibam que a globalização permitiu "a emergência de uma classe média que nunca tinha existido à escala do planeta".

O antigo líder do CDS-PP defendeu, assim, ser preciso "pensar seriamente" nas consequências da digitalização.

"A europa não tem crianças, é contra os imigrantes, é pelos direitos adquiridos para toda a gente todo o tempo, sem ninguém saber como é que vão ser pagos, e agora também é contra o livre comércio. Eu lamento dizer: isto é uma receita para o desastre, e é por isso que não conseguimos sair de um crescimento medíocre e [a Europa] não consegue gerar oportunidades para as gerações mais jovens", disse.

Para Portas, a vulnerabilidade das sociedades europeias à questão do terrorismo "é elevada", sendo que "o terrorismo não é importado de jovens que vivem a 10 mil quilómetros de distância, mas recrutado na internet, junto de jovens que podem viver no bairro ao lado".

Questionado sobre qual o modelo que os governos europeus devem seguir para terem capacidade de agir e atuar de forma diferente e serem competitivos, Portas respondeu que não há um modelo pré-definido, mas alertou para a necessidade de se olhar para a economia digital.

"Olhem para a lista das dez maiores companhias digitais do mundo: quantas europeias lá estão? Zero. [Há] seis americanas e quatro chinesas, o que quer dizer que onde a Europa está a perder mais competitividade é na economia digital, que não tende para decrescer, tende para transformar bens em serviços", frisou.

Sobre a presidencia norte-americana de Donald Trump, Portas disse que as suas políticas de "nativismo, protecionismo e isolacionismo" não são novas, apenas "o que há de novo é o novo presidente ser o primeiro a ter estas três prioridades ao mesmo tempo".

"Trump levará a tensão política muitas vezes até ao limite", já que "acha que para vencer deverá levar as situações até ao limite".

"Habituem-se", disse, acrescentando que Trump "acredita em acordos e posições de força, sendo que só com posições de força se obtêm bons acordos".

Paulo Portas disse ainda que, na sua opinião, Donald Trump "vai mudar frequentemente de opinião e não vai ser penalizado por isso".

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