Passos: sem o BCE, Portugal já não se financiava nos mercados

A três dias do primeiro Estado da Nação com Costa a liderar um governo apoiado por BE e PCP, o líder da oposição diz que o que construiu foi atirado borda fora

Há um ano, era Pedro Passos Coelho primeiro-ministro, o debate do Estado da Nação teve reminiscências bíblicas. Depois de uma intervenção socialista sobre os sete pecados capitais da governação de direita (PSD-CDS), o líder social-democrata respondeu enunciando as dez pragas que o Partido Socialista deixou a Portugal, recuando a 2011 - entre as "obras faraónicas", "programas de estabilidade que não trouxeram crescimento", "défices orçamentais ruinosos" e "défices externos preocupantes" ou a "nacionalização do BPN".

A três dias de novo debate do Estado da Nação, o primeiro da "nova maioria", como assinala Passos Coelho, o presidente do PSD está agora sentado nas bancadas da oposição. Mas a sua leitura em pouco se alterou quando olha para o PS de António Costa - e para a maioria parlamentar de esquerda que o apoia. O agora líder da oposição faz novas premonições de desgraça, ao contabilizar o "balanço sobre os progressos realizados pelo país" e "a perspetiva" com que se olha "o futuro".

Passos acompanha os avisos do ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, que ainda há dias admitia novo resgate para Portugal. No texto aqui publicado, o presidente do PSD argumenta mesmo que "se não fosse a política do BCE, que tem data marcada para acabar com a compra de ativos, Portugal já não teria condições para se financiar nos mercados externos". Ou seja, sem o apoio e as medidas especiais criadas pelo Banco Central Europeu para ajudar a economia europeia a levantar-se, seria muito difícil a Portugal ir buscar dinheiro aos mercados.

Para dar força ao argumento, Passos socorre-se dos valores atuais das taxas de juro portuguesas - que permanecem mais altas do que as de Espanha e Itália, mesmo com a política do BCE - voltando "à tendência preocupante".

A razão é simples: desde que António Costa assumiu um governo apoiado pelos partidos à sua esquerda, o país tem sofrido uma quebra de credibilidade e confiança. Quando deixou o governo, escreve Passos Coelho, o país era visto "como um país determinado em sair da crise e em cumprir os seus compromissos, conseguindo ver restauradas a credibilidade e a confiança necessárias a uma recuperação mais intensa". Um ano depois, "a desconfiança que se instalou, dentro e fora do país, envolvendo cidadãos, investidores, instituições e parceiros resulta da nova abordagem e da nova orientação política seguidas pelos socialistas e seus aliados", descreve agora o líder da oposição, que encontra na "política de reversões estruturais na economia e nas áreas sociais" uma agenda política "radical" e que revela grandes afinidades com as ideias do Bloco de Esquerda e do PCP.

a desconfiança que se instalou, dentro e fora do país, resulta da nova abordagem e da nova orientação política

Para o ex-primeiro-ministro - acomodando argumentos defendidos nos últimos dias por outros dirigentes do PSD como Luís Montenegro e Maria Luís Albuquerque - é por isso claro que a culpa de haver eventuais sanções a Portugal por causa do défice de 2015 é do atual governo e da sua "agenda política radical". Não espanta por isso, resume o presidente do PSD, "que a credibilidade e a confiança tenham desaparecido da conversa externa sobre Portugal".

Trabalho perdido

Esta é a pedra de toque do discurso de Passos: o seu governo construiu uma política que, "num ritmo moderado mas consistente de recuperação económica e do emprego", esteve "em convergência com os seus pares europeus". E as reformas "estruturais realizadas e em curso" ajudavam a passar uma imagem de um Portugal que estava a mudar, que era aberto à mudança, que estava à altura dos seus parceiros europeus.

Foi tudo isto que se perdeu, considera Passos Coelho, com a inversão do rumo levada a cabo pela nova maioria. O trabalho desenvolvido durante toda a legislatura anterior foi deitado fora, lamenta.

"No verão de 2016 o contraste é impressionante" com o que o país vivia há um ano, garante o líder da oposição, que repudia as "desculpas de mau pagador" do executivo de António Costa, que insiste em culpar a Europa ou o anterior Executivo pelos desaires que vão surgindo. A "estratégia do inimigo externo" não colhe, diz Passos, que a considera "passadista" e usada com fins manipulativos.

Por isso, ao líder da oposição não restam dúvidas: a responsabilidade pelo atual estado do país é do Executivo liderado por António Costa. "O governo e a sua base política de apoio têm exacerbado os riscos", sublinha, ao lado. E por fim recorda que nada disto é novidade para ele: "Tudo isto foi claramente previsto e alertado desde o início." com J. P.

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