"Partido tem atuado ultimamente com muita maturidade"

Ex-líder parlamentar dos comunistas, Carlos Brito, em entrevista ao DN, elogia a maturidade do PCP, a audácia de Jerónimo e acredita num futuro longo para a "geringonça".

O que gostaria que acontecesse no Congresso?

O que mais gostaria é que que se mantivessem reforçadas a visão e a audácia que levaram Jerónimo de Sousa a dizer, na noite da contagem dos votos das legislativas: "O PS só não é governo senão quiser". Na altura, houve quem considerasse que se tratava de uma "boca" inconsequente e sem consequências. Passado um ano, é irrecusável que foi o sinal de abertura de um novo ciclo político, porque foi a justa interpretação da vontade popular, que colocou a direita em minoria da Assembleia da República. E como em democracia representativa governo quem tem a maioria no Parlamento, aí está o segredo da paz institucional em que temos vivido.

Jerónimo de Sousa deverá ser reconduzido na liderança do partido. É o dirigente que o partido necessita atualmente?

Não tenho dados que me permitam prever quais serão as deliberações do Congresso, ou se as haverá, nesta matéria. Mas como comunista, amigo do PCP, acho que muito dificilmente se encontrará outro militante que esteja em melhores condições para ficar à frente do partido. O PCP tem atuado, ultimamente, com muita maturidade política, o que sendo obra de todo o coletivo da direção, não deixa de ficar a dever-se à intervenção especial do secretário-geral.

Essa maturidade política, na sua opinião, tem-se verificado em que situações?

Apreciei muito a votação do PCP contra o projeto de lei do PSD para obrigar os administradores da Caixa Geral de Depósitos a entregarem a declaração de rendimentos. O PCP defendeu, desde a primeira hora, essa obrigação, mas a iniciativa do PSD, era pura chicana parlamentar, como outras em que se tem envolvido, sem olhar sequer à gravidade das matérias e às suas consequências. Ora o que fez o Jerónimo? Demonstrou que era "um ato inútil, tanto no conteúdo, como nos prazos, que não adiantava nada ao que o Tribunal Constitucional estava a fazer. Visava, sim, outro efeito colateral, a inviabilização do processo de capitalização da Caixa. A chicana não se acompanha, desmascara-se!

Como encara o futuro do PCP?

Com otimismo, apesar da imprevisibilidade dos tempos que correm no mundo. Otimismo que decorre do rasgo de há um ano e da posterior atuação coerente com ele, mas da também da sólida base de apoio social e local que o PCP tem sido capaz de manter e até de reforçar. Como estamos quase em véspera das eleições autárquicas, duas palavras para lembrar a influência do PCP/CDU no Poder Local. Tem o governo de 34 câmaras municipais e a presidência de 169 freguesias. E aqui, além da quantidade, há que realçar a qualidade. No movimento sindical e em todo o movimento organizado dos trabalhadores, é reconhecida a grande influência do PCP, a enorme distância de qualquer outra força partidária. Esta fortíssima base local e social explica a sua resistência aos maus tempos da implosão do socialismo na URSS e no Leste Europeu, mas é também uma permanente razão para se ter esperança que ela acabará por traduzir no futuro crescimento político geral e especialmente no crescimento eleitoral, nas legislativas que têm sido as mais ingratas.

E na sua opinião porque razão as legislativas têm sido "ingratas" para o PCP?

Há que aprofundar os motivos que explicam por que é que esta tradução não tem acontecido. Trata-se de uma matéria que, seguramente, não deixará de ser analisada no Congresso. Por mim, espero que seja bem reconhecido pelo nosso povo o papel essencial que o PCP desempenhou na construção da atual solução governativa, nas respostas que ela já deu para reparar os atentados e estragos da política de austeridade da governação da direita.

Que avaliação faz da "geringonça"?

Foi geralmente reconhecido como positivo, incluindo pelo Presidente da República, o balanço do primeiro ano de vigência da solução governativa em que assenta o Governo liderado por António Costa. A exceção vem da voluntária cegueira dos partidos da direita. Para mais os excitar, até a alcunha de geringonça que lançaram contra ela, com despeito e rancor, tem hoje uma conotação político e popular que envolve mesmo um certo carinho e o reconhecimento pela estabilidade política que trouxe ao país e por alguns ganhos importantes no domínio social e fiscal.

E aspetos negativos encontra alguns?

É evidente, que num percurso tão difícil, como é a situação do país, muita coisa não tem corrido bem. Há áreas importantes de governação onde o marasmo continua e as orientações estão longe de ser claras. Houve erros graves e grandes tropeções. No caso da CGD foi manifesta a falta de experiência política para lidar com a "casta dos gestores". No entanto, no debate e aprovação do Orçamento, a Esquerda e o Centro Esquerda deram o grande exemplo da capacidade de negociar pondo acima de tudo o interesse nacional, sem deixarem de defenderem as posições próprias, mas sem se agarrem a mesquinhos interesses partidários. A geringonça conta agora não só com um notável Orçamento aprovado, mas com mais esta prova da capacidade de se entender, mesmo quando se trata de conciliar posições muito diferenciadas. O seu maior problema são os constrangimentos externos, particularmente os que vêm da União Europeia e os que resultam da pesada dívida. Aqui reside o grande desafio para se encontrar uma resposta comum, sem prejudicar tudo de positivo que esta solução governativa tem representado para o país.

É uma aliança com condições para permanecer?

O que acabo de dizer leva-me à convicção de tem condições para permanecer. Observo que do lado do PCP, relevando os constrangimentos que atrás referi, é clara a posição de que aproveitará todas as oportunidades para avançar na resolução dos problemas que mais afetam os trabalhadores e o povo português. Nas teses para o Congresso, aborda-se mesmo o tema da durabilidade, nestes termos: Uma solução política cuja a durabilidade depende da adoção de uma política que assegure a inversão do rumo de declínio e retrocesso imposto pelo governo anterior e corresponda aos interessados trabalhadores e do povo.

Posso depreender, pela avaliação positiva que tem feito, de que não estava à espera de mais deste governo socialista apoiado pelo PCP e Bloco?

Claro que desejava mais, muito mais. Mas como apesar do meu otimismo, no fundo sou realista, não fico deprimido com o que foi alcançado. Pelo contrário, acho muito positivo o clima de estabilidade política que trouxe ao país e as medidas políticas cirúrgicas tomadas, como: a eliminação da sobretaxa do IRS, o aumento das reformas, a redução das taxas moderadoras, o apoio extraordinário aos trabalhadores desempregados, a redução do IVA na restauração, a reposição dos feriados, a reposição dos vencimentos e das 35 horas na administração pública, entre outras. Os sinais de crescimento da economia e as sucessivas baixas do número de desempregados, são bons motivos de esperança.

Há alguma coisa que gostaria que o PCP tivesse alcançado neste OE?

O Orçamento já está aprovado. À margem dele o PCP lançou uma nova iniciativa parlamentar, que me parece merecedor de todo o apoio. Trata-se de uma proposta de resolução sobre o aumento do salário mínimo para 600 Euros, já a partir de janeiro do próximo ano. Representará a conseguir-se, um grande impulso ao desenvolvimento da nossa economia e à reorganização inovadora das empresas.

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