"Não tenho pena de deixar a DGS. É uma festa"

No dia em que deixa o lugar que ocupou durante 12 anos como diretor-geral da Saúde, Francisco George, conversou com o DN sobre a sua vida, as pessoas que o marcaram, sobre as suas causas, como o Tabaco, e sobre os ministros com quem trabalhou, sobre aborto e a eutanásia

Hoje é o dia que um dia esperou que acontecesse, assim que acabou o curso de Medicina na Faculdade de Lisboa com distinção. É o dia em que se despede de uma missão no serviço público durante 44 anos. Hoje é aquele dia que começa, não em reuniões na Direção-Geral da Saúde, mas com a sua última lição na Universidade Nova de Lisboa, pelas 10.30, no anfiteatro da reitoria, e que terminará com os amigos e a família a jantar. É um dia para despedidas, ou talvez não. Já que sai da DGS sem tristeza. "Está na hora de renovar", diz. Ao final da tarde sairá do seu gabinete de diretor-geral, no 8. andar do número 45 da Alameda D. Afonso Henriques, que ocupou durante 12 anos, para não voltar, assim o obriga a Lei da Administração Pública e com a qual concorda. "Não há cargos vitalícios", afirma. Mas o futuro está aí. "Ficar em casa não faz sentido para mim." É candidato à presidência da Cruz Vermelha e aguarda que o Conselho Supremo se reúna para decidir se o aceita. Sabe que tem perfil e já pensa em projetos para levar a cabo com funcionários e voluntários da CV. Não para. Está-lhe no sangue. "Nunca deixar para amanhã o que se pode fazer hoje." A agenda esteve sempre preenchida até ao último dia, e com inesperados, devido aos fogos do último fim de semana. Mas não deixa dossiês em aberto. "Fico tranquilo", disse-nos há pouco mais de uma semana, quando nos encontrámos para esta conversa no Jardim da Parada - ou melhor, Teófilo Braga, em Campo de Ourique, durante uma tarde soalheira e com muita assistência à volta. Mas foi ali que quis, por aquele ser o seu lugar especial, era ali que fazia sentido falar de si, da família, das pessoas e dos momentos que o marcaram para assinalar também os 70 anos que faz amanhã.

Quis que esta conversa acontecesse no Jardim da Parada em Campo de Ourique. Porquê?

Morava no número 28, no primeiro direito, debaixo da farmácia. Aos 4-5 anos comecei a vir para aqui brincar com o meu irmão gémeo, para descarregarmos alguma energia e dar descanso à minha mãe. Este é o "meu" lugar. É para aqui que venho quando tenho de pensar. E, curiosamente, poucos sabem o nome do jardim. Se perguntarmos àqueles senhores que ali estão... [diz alto apontando para um grupo de homens de meia idade que observavam a nossa conversa]. "Como se chama o jardim?". ["Diga, diga?". "Jardim Teófilo Braga", responde um.] "Muito bem", mas são raras as pessoas e até moradores que sabem, comummente é designado como Jardim da Parada. Mas o nome é em homenagem aos republicanos de 5 de Outubro e àquele que presidiu ao primeiro governo provisório. As ruas e os cantos de Campo de Ourique têm nomes de republicanos, filósofos, políticos, de homens das leis que estavam na linha da frente para fazer progredir o país. Por exemplo, a estátua de Maria da Fonte também me diz muito.

Porquê?

Maria da Fonte era, e é ainda hoje, um símbolo de revolta contra o autoritarismo, a corrupção e a centralização do governo, que conduziu, em 1846, com marcado sucesso, uma revolta que começa no Norte, mas que acaba por fazer derrubar o governo de Costa Cabral. Na altura, a rainha D. Maria II de Bragança, muito próxima das correntes mais conservadoras, vê-se confrontada com o movimento da Maria da Fonte, que tinha como ponto principal de protesto o aumento de impostos. Embora se aprenda nos bancos da escola que a revolta se deve sobretudo à proibição de enterrar os familiares nas igrejas. Foi um protesto popular contra a dívida e contra o défice do Orçamento e, por isso, o governo de Costa Cabral caiu e foi obrigado a fugir, ele próprio foi para Espanha. Isto para dizer que neste jardim há uma marca de descontentamento pelos governos centralistas, autocráticos e corruptos.

Revê-se? É por isso que é importante?

É importante pela expressão de revolta, de incentivar as pessoas..., mas há uma razão familiar. É que o meu avô inglês, Albert, serviu muitas vezes de modelo ao escultor da Maria da Fonte, Costa Mota, de quem era muito amigo. O meu avô foi o modelo para a escultura de bronze que Costa Mota fez do vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, e que está em Belém, em frente ao Palácio da Presidência. Cada vez que lá passo não vejo o vice-rei, vejo o meu avô. Reconheço-o pelo recorte, pela maneira como posa, pela estatura e pela expressão. Ninguém sabe disto. Era um homem muito elegante. Tinha uma figura de português estrangeiro que os pintores da época, os realistas, gostavam muito de pôr na tela. Há mesmo pinturas em mosaicos, o caso da Igreja de São Mamede, onde aparece a figura do meu avô, mas ele está em muitas outras obras de pintores conhecidos da viragem do século XIX para o XX, que estão em vários museus nacionais.

Foi esse seu avô que se instalou em Campo de Ourique?

A minha família é toda daqui. Os meus avós paternos instalaram-se aqui porque eram ingleses, havia a escola, que se tornou depois no Hospital inglês, havia o cemitério dos ingleses... mas a minha mãe também vivia aqui, num prédio na Rua do 4 de Infantaria, dava para os números ímpares da Coelho da Rocha. O meu pai vivia com os meus avós na Coelho da Rocha, exatamente no prédio que dava para a Rua do 4 de Infantaria. Os meus pais viam-se pela janela.

A sua mãe tem origem inglesa?

Não. É portuguesa, filha de um republicano, que no dia 3 de outubro de 1910 se apresentou no centro republicano, em Campo de Ourique. No dia 4, o republicano Machado dos Santos deu-lhe uma espingarda, ele nunca tinha pegado numa. Ele contava-nos isto com muita graça, porque o Machado dos Santos lhe disse: "Olha, põe-na aos ombros e vai para a Casa da Moeda." O meu avô, Gil ,esteve 24 horas seguidas a andar para trás e para a frente, junto à Casa da Moeda, com a espingarda às costas. E levou o papel tão a sério que há inúmeras fotografias e pequenos recortes de filmes que mostram a guarda civil de guarda à Casa da Moeda.

Os seus avós foram figuras importantes para si...

Foram. Mas a minha referência principal é o meu avô paterno, Albert, que, aliás, nunca conheci. Provavelmente por isso. O meu avô materno, Gil, conheci-o muito bem. Era meu amigo e eu amigo dele, convivi com ele até à universidade, altura em que partiu, julgo que em 1966. O meu avô paterno morreu em 1940 e eu nasci em 1947. Nunca o conheci, mas procurei sempre saber mais sobre ele. E marcou-me muito. Há uma marca que nunca me abandonou, tais eram os relatos do meu pai sobre ele: a de rigor, transparência, honestidade e o seu interesse pelo serviço público.

É parecido com ele?

Há quem diga que sim. Albert George era um homem de grande rigor na maneira de estar, cultivava a cultura, o interesse pelas belas-artes, daí conhecer muitos artistas.

E os seus pais, que marcas lhe deixaram?

O meu pai e o meu tio influenciaram-me muito, mas eram muito diferentes um do outro. Eu convivi muito com o meu tio, Frederico George, arquiteto, pintor, um homem das artes e irmão mais velho do meu pai. Mas, ao contrário dele, o meu pai não tinha nenhum interesse pela expressão artística, era um homem das ciências, um médico, de clínica, de medicina interna, no Hospital de Santa Marta, que dirigiu, apreciado e respeitado pelos colegas. Influenciou-me na medicina, mas sobretudo na questão do rigor e no cumprir a palavra. A palavra dada era absolutamente para ser cumprida, tal como os princípios, a ética e a responsabilidade. Tudo isto me foi transmitido com grande intensidade. E julgo que ele sabia que eu iria seguir esses princípios, tal como a questão do interesse público.

E a sua mãe, o que lhe deixou?

A serenidade. Gostava de ter a serenidade dela, mas não consigo. Nunca levantou a voz fosse para o que fosse, e com cinco filhos não era fácil. Só fazia alguns olhares. Lembro-me muito bem de que uma vez à hora de jantar, no princípio da televisão, talvez para aí em 1959, o nosso aparelho avariou e foi um senhor lá a casa, num fato-macaco, um operário típico português, para o arranjar. Mas foi à hora do jantar e o meu pai perguntou-lhe: "Sr. Manuel é servido?", e não é que o homem diz que sim? "Senhor doutor eu tenho muito gosto", respondeu. O meu pai manda pôr mais um lugar e a minha mãe só lhe fazia olhares sobre a situação, que não tinha jeito nenhum. Mas o meu pai era assim. O Dr. Ferreira Macedo, um grande matemático, expulso do ensino por Salazar, que está homenageado aqui no jardim porque morava no bairro, era doente do meu pai. Tinha uma doença que o obrigava a apanhar injeções especiais intracardíacas. E o que fez o meu pai? Levou-o para casa para o tratar e não ter de se levantar durante a noite. Ele dormiu no meu quarto. A minha mãe aceitava tudo com uma serenidade que era impossível conseguir atingir.

Porquê? É hiperativo?

Não sou. Reconheço que na minha natureza de caráter, ou se quiser de temperamento, não guardo as coisas para fazer no dia seguinte e, portanto, as pessoas que estavam habituadas a não funcionar assim, se calhar alguns funcionários públicos, que solicitavam autorização para fazer isto, aquilo e aqueloutro, não gostem.

O que o irrita mais no funcionalismo público?

Tenho grande respeito pelos funcionários públicos, mas reconheço que há pessoas que não têm essa vocação. E só descanso quando consigo desembaraçar-me dessas. Nós não temos de passar a vida a empurrar e a puxar as pessoas. Eu sou muito a favor da proatividade. Se fizerem mal eu cá estou para defendê-las, mas é preciso fazer. Não adiar, não pedir autorizações mínimas - como: posso falar com determinada pessoa? Posso fazer a chamada para aqui ou para ali? Ou posso falar? Falem. Se há delegação de competências e de poderes é para agir, atuar pela própria cabeça.

É essa a marca que deixa na DGS?

Penso que sim, e o trabalhar em conjunto. Não há ninguém ali que faça seja o que for que não seja em equipa. O trabalho em colégio. Há quem diga que fazer um comunicado é um espetáculo, e é verdade. Às vezes, são sete ou oito pessoas a fazer esse trabalho. Primeiro, discute-se, organizamos o pensamento em torno de determinado tema, e depois passamos à forma e tudo se vai fazendo em ambiente coletivo.

O que tem mais pena de deixar?

Essa questão nem se equaciona. Não tenho pena absolutamente nenhuma de deixar a DGS, é uma festa. Desde que comecei na administração pública, em 1973, sabia que quando fizesse 70 anos tinha de sair. Portanto, não há pena nenhuma. Esta é a meta de uma corrida de 44 anos. Sou daqueles que são adeptos, que compreendem e respeitam a lei da interrupção do trabalho aos 70 anos no contexto da administração pública. Porquê? Porque a administração pública é uma grande companhia com dez milhões de acionistas, que somos todos nós, e que não aceitam lugares vitalícios.

Está na hora de fazer outra coisa?

Está na hora de a Direção-Geral da Saúde ter outros protagonistas, de inovar e mudar. Os lugares não são vitalícios.

Nestes anos como diretor e subdiretor deixou para trás amigos?

Não.

Fez inimigos?

Não. Pelo contrário, houve pessoas que me encantaram muito, pela sua qualidade, devoção e interesse pelo serviço público. Mas o encantamento não é generalizado, é seletivo. Aliás, este é um princípio que eu sigo: os funcionários públicos não são todos iguais, portanto é preciso distingui-los pelo mérito.

E isso não acontece na administração pública...

Mas tem de acontecer. O mérito não é igual para todos, não pode ser, porque não somos todos iguais. O Dr. Paulo Macedo ensinou-me que os dirigentes não eram todos iguais. Ensinou-me mais, que muitas vezes as unidades orgânicas e a sua produção dependem do dirigente. E isso é verdade.

Deu-se bem com o ministro Paulo Macedo. E com os outros?

Também. Vai parecer que sou uma pessoa sem princípios ao dizer isto, sem poder de seleção, mas é a verdade. Reconheci aos seis legitimidade para serem ministros - e a Constituição de 1976 diz claramente que a política de saúde é fixada pelos ministros, logo aqui há uma legitimidade que tem de ser observada, mas reconheci também em todos uma componente de lutadores. Diria que todos lutaram para atingir metas que fixaram. Eu não consigo distingui-los porque nunca fiz (e digo-o em tom de brincadeira) uma grelha de classificação de ministros. Mas um dia hei de fazer. Porque não?

Uma grelha de pontuação?

Com pontuação, mas ponderada para o mais simpático, o mais aberto, o mais distante, o mais próximo, o mais caloroso.

Haveria algum a quem, numa escala de zero a dez, desse nota máxima?

Seguramente que sim, mas não a todos.

A quem?

Isso não digo. O que digo é que nem todos tinham o mesmo calor, a mesma sensibilidade, a mesma delicadeza, a mesma forma próxima de trabalhar e de reconhecer equipas. Nisto não foram todos iguais, de forma alguma.

Nestes 12 anos alguma vez se demitiu ou quis demitir?

Sim.

Em que situação?

Não vou dizer, mas senti que tinha de o fazer em duas situações específicas em que reconheci injustiças. E fi-lo porque nunca nada me atou aos lugares. Eu e o Dr. Pereira Miguel costumávamos dizer que bastava um sinal, se quisermos até do porteiro, de que não nos querem aqui para sairmos, mas se não estivéssemos contentes também teríamos o direito de pedir para sair.

Foi demovido da ideia?

Não, coloquei a questão e nem sequer fui ouvido. Recusaram ouvir os meus argumentos.

Disse que a legionela foi a situação mais complicada durante a sua direção. Porquê?

Foi muito grave mesmo. Mas acho que se ultrapassou porque se fez um trabalho de equipa absolutamente exemplar. Os meus colegas na Europa perguntavam-me como é que foi possível fazer em tão pouco tempo um trabalho de investigação que envolveu tantos doentes, 400. Quase metade precisaram de cuidados intensivos. Percebemos que era preciso atuar rapidamente porque a fonte da epidemia tinha de estar a lançar partículas para a atmosfera e tínhamos de a encontrar. E isso conseguiu-se. Tive aqui muito apoio do Dr. Paulo Macedo. Ele ia para casa nessa sexta-feira quando lhe telefonei a dizer: "Senhor ministro, tem de vir aqui porque temos de criar uma task force para lidar com um problema inesperado e grave." Ele apareceu imediatamente. Criámos a task force, trabalhámos dia e noite, desde sexta até domingo de madrugada, e identificámos as torres de arrefecimento de onde saíam as partículas. E assim conseguimos travar a situação.

E a gripe A?

A gripe A não foi bem compreendida, até pela generalidade da imprensa, e foi preciso desvalorizar o risco. A gripe A foi um furacão que surgiu na região do México e San Diego, na América, foi lançado um alerta a partir do Centro de Diagnóstico de Atlanta, nos EUA, mas que foi perdendo intensidade. Só que a preparação para esse confronto mobilizou mais meios do que aqueles que teriam sido necessários, mas foi uma situação muito importante no que toca a sabermos responder aos problemas de saúde pública.

Na altura gastou-se dinheiro em seis milhões de doses de vacinas...

Isso são histórias muito mal contadas. Há aspetos que muitos nunca quiseram compreender. Numa situação destas é preciso ter em conta o seguinte princípio: os bombeiros do aeroporto de Lisboa têm de estar sempre preparados para atuar com prontidão absoluta e com os mais inovadores equipamentos, dê por onde der. Isto quer dizer que os equipamentos têm de ser sempre adquiridos e têm de estar disponíveis, julgo, no entanto, que em 60 anos nunca foi preciso atuarem. Mas este é o princípio. E nós preparámos o país segundo este princípio para um confronto de magnitude grande, tal como aconteceu em França e em todos os países da União Europeia. Felizmente, sublinho, não teve essa magnitude, mas tivemos imensos casos. No plano psicossocial, não havia condições para não se ter adquirido tantas doses de vacinas.

Tiveram de ser devolvidas mais de um milhão. Não se arrepende de se ter gasto tanto dinheiro?

Arrepender? De forma alguma, devolvemos e fomos recompensados.

Se tivesse de fazer alguma coisa de diferente nestes 12 anos o que seria? Não se arrepende de nada?

Nunca pensei nisso, mas posso dizer-lhe que ao fim do dia nunca tive momentos de depressão, nunca me senti vencido por decisões que tenham sido mal tomadas. Em regra as decisões são colegialmente tomadas.

Foi sempre assim?

Não. Houve exceções. Por exemplo, sobre as vacinas para a hepatite A tomei uma decisão contra um colégio, que entendia que os viajantes teriam de ser vacinados e eu entendia que havia uma outra prioridade, que era um determinado grupo de risco, homens que fazem sexo com outros homens, e que não estavam protegidos. Aí tomei uma decisão contrária aos membros da comissão que estavam a coordenar os trabalhos de prevenção da hepatite A sobre a requisição das vacinas. Mas foi bem tomada a meu ver. Há decisões finais que não coincidem com as propostas, mas são sempre explicadas. Não há autoritarismos, há explicação à luz dos princípios da responsabilidade. Alguma vezes tive de dizer: "Eu fico responsável por este dossiê, se isto não correr bem sou eu o responsável."

Chamou a si muitos dossiês?

Não, pelo contrário. Esse é um dos segredos para gerir a administração pública: o delegar competências e não interferir nos dossiês quando são entregues a outros. Por exemplo, o dossiê da Saúde 24 era muito importante e estava entregue a uma subdiretora-geral, a Dra. Catarina Sena, e eu nunca interferi. Uma vez foi preciso ir ao Parlamento responder pela Saúde 24 e tive de ir eu, sem nunca ter interferido neste dossiê. E a situação foi bem resolvida.

Sente-se satisfeito com o legado que deixa na DGS?

Isso não pode ser visto assim. Deixo uma casa que tem muito trabalho e com muitas pessoas que o conseguem fazer e de forma adequada. Fico tranquilo.

Deixa algum dossiê por resolver?

Está tudo fechado, não há nada.

Nestes 12 anos, teve tempo livre?

Não, muito pouco. Costumava dizer que o dia é curto, a semana é muito curta, o mês é curto, o ano é curto, não temos tempo para tudo, agora vou ter mais.

Mas tinha tempo para escrever.

Ao fim de semana gosto de escrever. Tenho até um site, onde escrevo e que é uma homenagem ao meu antigo diretor-geral. Ele tinha um dossiê de lutas, mas nunca foi encontrado, nem pelos filhos.

Fala de Arnaldo Sampaio?

Sim. Ele tinha um dossiê de lutas e de incompreensão, como lhe chamava.

Foi um homem que o marcou?

Marcou-me bastante e por razões várias. Foi meu professor, meu amigo, pai de amigos meus de há muitos anos.

Fala de Jorge e Daniel Sampaio.

Sim, Jorge e Daniel Sampaio, somos amigos há mais de 50 anos. Desde o movimento estudantil, somos de Lisboa e passávamos férias em conjunto na Praia das Maçãs.

A amizade é importante para si?

Cada um de nós, de forma generalizada, tem poucos amigos. Quer dizer, os amigos não são todos iguais, mas são essenciais. O cultivar as relações de amizade é muito semelhante ao cultivar as relações familiares, que são também indispensáveis nos bons e nos maus momentos.

Tem pessoas pilares na sua vida?

Tenho. Neste momento, os mais próximos são os meus filhos e os meus netos.

Nestes 12 anos perdeu a sua mulher e a sua filha num acidente de viação...

Pode continuar, não me importo de falar sobre o assunto. É uma situação que não se esquece, é inesquecível, nunca se ultrapassa, sobrevive-se, mas não pode ter influência nas questões ligadas à vida de quem fica.

Eutanásia: "Eu próprio não quereria mobilizar meios para prolongar a vida de uma forma artificial"

Disse que a lei portuguesa para a interrupção voluntária da gravidez tem sido um sucesso. É a favor do aborto?

No plano psicossocial, ninguém põe em causa o sucesso da lei. É um direito que as mulheres adquiriram. Aliás, que tinham desde sempre em termos de cidadania e que era escondido. De tal maneira que, nos anos 40, julgo eu, Egas Moniz escreveu um livro sobre a vida sexual e nem sequer abordava esta questão. Era um tabu. E estamos a falar de um homem com mente aberta e experiência internacional. Não percebo as pessoas que pensam que a lei veio iniciar a interrupção da gravidez. A lei veio começar a ordenar, disciplinar, reduzir e a fazer desta decisão da mulher um direito inquestionável.

Deixa a DGS numa altura em que se tem discutido os cuidados paliativos e a eutanásia. Há um projeto entregue no Parlamento. Também defende a eutanásia?

Sou favorável à eutanásia em determinadas condições, em doenças irreversíveis e em fim de vida, em situações de estados de doença muito avançada e de dependência absoluta, sem qualquer tipo de esperança de retomar a independência e autonomia. Não vejo qualquer razão para não criarmos esse novo direito. Eu próprio não quereria mobilizar meios que muitas unidades até nem têm para prolongar a vida de uma forma artificial ou com medicação apenas por alguns dias, não concebo as coisas dessa forma.

Recusava tratamento paliativo?

Sim. E acho que os doentes ou alguém por eles deve ter o direito de pedir à equipa que o segue que termine com o sofrimento final.

Como é que concebe a vida?

Concebo como uma vida saudável, com mais conservação e promoção da saúde, com a prevenção das doenças, como diriam os clássicos portugueses. Hoje sabemos muito coisa que não se sabia e obtivemos imensos ganhos que se traduziram no aumento da esperança de vida. Uma pessoa com 65 anos sabe hoje que tem a probabilidade de viver mais 20 anos, pelo menos. Mas desde que observe alguns princípios, como tomar todos os anos a vacina para a gripe e para a pneumonia, ter em atenção a necessidade de exercício físico, uma alimentação saudável, etc. Há um problema comum que são as doenças motivadas por comportamentos e o comportamento pode ser moldado no sentido positivo.

Essa aprendizagem tem de começar logo em criança?

Seguramente.

O que faz para ter uma vida saudável?

Reconheço que podia ter uma vida mais saudável, mas faço muito para a ter. Aliás, não tenho doenças. Faço todas as medidas preventivas e que são comprovadamente eficazes no plano científico, como a vacina sazonal da gripe. Não fumo.

Mas já fumou?

Fumei durante a escola, coisas muito pontuais. Deixei de fumar aos vinte e poucos anos e não tenho efeitos daí. Não exagero no sal, compenso com ervas aromáticas.

Gosta de comer?

Como todos, nem mais nem menos. Mas sempre com regras, não exagero no sal, uso ervas aromáticas, e nem no açúcar. Em regra, não como sobremesas, como fruta. E não uso excesso de gorduras artificiais.

E o que gosta de comer?

Fruta. Gosto muito de começar as refeições com abacate e um pouco de limão. Gosto de azeite, com manjericão ou cebolinho, por exemplo. Quando no Dia dos Namorados um namorado ou uma namorada oferecer ao outro um vaso com uma erva aromática temos o processo da redução de sal ganho. Porque temos mesmo de reduzir para metade o sal que se usa na alimentação.

Come peixe e carne?

Claro. O chamado peixe do mar, sobretudo da costa. Acabo de chegar da ilha do Pico, onde comi sempre peixe pescado ali de forma até artesanal. Mas também gosto de bife de vitela. É verdade. Como carne vermelha. Um belo prato de rosbife é insubstituível, mas depois compenso nos dias seguintes.

Nunca pensou tornar-se vegetariano?

Não, nem pensar nisso. Penso que isso é um inferno. Não temos razões para escolher essa linhagem radical. Compreendo que, por vezes, haja necessidade de traduzir a alimentação de forma distinta, a partir de certa altura da vida, mas impor isso às crianças é que não. Esta designação de infernal tem que ver sobretudo com a tentativa de se impor isso às crianças. Os produtos de origem animal são insubstituíveis, o leite e o ovo, por exemplo.

Houve algum tema ou situação que lhe tenha tocado emocionalmente?

A luta contra o tabaco.

Porquê?

Porque acho que os legisladores portugueses foram pouco ambiciosos. Podíamos ter ido mais longe.

Porque é que não fomos, interesses económicos?

Falsamente económicos. Há os filósofos que pensam que temos de dar o direito a quem fuma, mas não percebem que há um dever de maior dignidade, o de não fumar, que é o de não colocar a fumar quem não esteja a fumar. É preciso proibir o fumo do tabaco nos espaços fechados, porque quem fuma em espaços fechados está a fazer fumar aqueles que não estão a fumar. É intolerável. Tive pena de que os principais filósofos portugueses que são a favor do direito de fumar não debatessem essa questão comigo, incluindo mesmo, se quiser, alguns jornalistas. Estou a lembrar-me do Miguel Sousa Tavares, que até no plano pessoal me ofende na maneira como escreve. Um dia gostaria de debater com ele esta questão. Reconheço que não podemos tomar medidas em excesso, não podemos proibir em excesso. Percebo que não podemos proibir o fumo na esplanada do jardim da parada, por exemplo. Mas considero que a lei portuguesa não proibiu em excesso, podíamos ter ido mais longe.

Era uma causa sua?

Não, era uma causa de todos as especialidades em saúde pública e da medicina, de todos os médicos. Desde que houve um estudo que comprovou no plano científico que quem fumava tinha uma esperança de vida reduzida em dez anos, comparativamente com quem não fumava. E este estudo científico é para mim inquestionável no plano da qualidade. Foi Richard Doll que estudou a evolução da saúde até à morte durante 50 anos, começou em 1959 e acabou em 2000. Foi vendo o que acontecia a quem fumava e a quem não fumava e tirou esta conclusão.

Gostava de viver até aos 100 anos ou mais?

Se viver com qualidade de vida, porque não?

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