MP queria papéis de Bataglia, mas saiu-lhe um faqueiro em prata

Busca a um cofre da secretária do empresário suspeito foi um "flop". Suspeito já foi ouvido há três meses em Angola, mas resposta à Carta Rogatória ainda não chegou ao processo

O azar continua a bater à porta do Ministério Público no que diz respeito a Hélder Bataglia, empresário e um dos suspeitos da "Operação Marquês", processo que envolve José Sócrates. Depois de uma busca a um cofre, no qual, entre outros objetos irrelevantes, foram encontradas as cinzas da ex-mulher, a investigação voltou a apostar nos cofres. Desta vez as atenções concentraram-se num que pertence a Maria Eduarda Farinha, secretária de Bataglia. O MP considerou que este depósito poderia conter "documentos relacionados com os negócios do suspeito". Porém, aberto o cofre no Novo Banco, apenas se descobriu umas peças em ouro e um faqueiro em prata.

Certo é que até à abertura do depósito, os investigadores da Autoridade Tributária e o procurador Rosário Teixeira depositavam alguma esperança no cofre de Maria Eduarda Farinha. Numa informação de 3 de junho, Paulo Silva, inspetor das Finanças que coordena a investigação da "Operação Marquês", fez saber ao procurador ter apurado, na sequência de várias buscas e escutas telefónicas, que Maria Eduarda Farinha era "secretária pessoal" de Hélder Bataglia - atualmente a residir em Angola - "com acesso a todos os imóveis em Portugal", acompanhando todas "as suas contas bancárias" e dispondo de "elementos da sua vida empresarial e de documentos relativos aos factos em investigação nos presentes autos".

Três dias depois da informação de Paulo Silva, o procurador titular da Operação Marquês pediu ao juiz de instrução, Carlos Alexandre, que ordenasse a busca ao cofre, dizendo estar indiciado que "na esfera" de Maria Eduarda farinha "possam ser encontrados documentos com relevância para a prova dos factos sob investigação nos presentes autos, mostrando-se proporcional à gravidade desses factos recorrer a medidas de recolha de prova como a realização" de uma busca em "estabelecimento bancário". O juiz aceitou o pedido e ordenou a busca.

Só que, a 9 de junho, quando o cofre foi aberto, segundo o respetivo auto, "verificou-se que o mesmo continha várias caixas e sacos que, tendo sido examinados, se verificou conterem objetos em ouro e faqueiro em prata". Ou seja, como refere o mesmo documento, "sem relevância para prova". Os investigadores fizeram ainda questão de deixar registado que a titular do cofre, que acompanhou a busca, "ficou na sua posse com um fio em ouro".

Ouvido em Angola há três meses

Hélder Bataglia tem sido referido no processo como suspeito de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. Numa primeira fase, o Ministério Público associou transferências de milhões de euros feitas a partir de contas por si tituladas para Carlos Santos Silva, o amigo de José Sócrates, como contrapartidas pelo Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROTAL). Depois as suspeitas foram alargadas a interesses dos Grupo Espírito Santo em negócios da Portugal Telecom.

A residir em Angola, Hélder Bataglia já foi ouvido neste País como arguido na sequência de um Carta Rogatória enviada pelo MP português. Apesar desta audição ter ocorrido em Abril, as resposta de Bataglia ainda não foram remetidas para Portugal. Daí que o advogado do empresário tenha, em registo irónico, sugerido ao procurador do processo, Rosário Teixeira, para confirmar o cumprimento do pedido internacional. Num requerimento enviado para os autos, Rui Patrício disse que não seria "difícil às autoridades portuguesas confirmarem formal e/ou informalmente" que o pedido está cumprido. Até porque, já depois de Bataglia ter sido ouvido, a própria Procuradora-geral da República, Joana Marques Vidal, esteve em visita oficial a Angola.

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