Jaime Nogueira Pinto: "Trump é um artista"

Uma conversa sobre geopolítica, história e negócios onde também se revela o lado mais pessoal do escritor, politólogo e empresário

O almoço está marcado para o Moma, de João Vaz Guedes, onde a conveniência da proximidade e o prazer da boa comida o levam várias vezes por semana. Mas é no escritório da Rua dos Sapateiros que me encontro com Jaime Nogueira Pinto e um presente de Natal: os seus Novembro e Jogos Africanos, dois dos 15 livros que tem publicados. A educação exige-lhe que sigamos juntos para o restaurante, como há de impor-lhe depois que me acompanhe até ao táxi - e causar-lhe desconforto por ter de aceitar ser meu convidado. "Em toda a minha vida, só houve uma senhora, que me convidou, a antiga embaixadora de Israel, e foi porque almoçámos no Grémio Literário e eu, não sendo sócio, não podia... Nem a Zezinha alguma vez me pagou uma refeição." Maria José Nogueira Pinto continua tão presente na sua vida como se não tivesse desaparecido há cinco anos e entra na conversa com a mesma naturalidade que os filhos - Eduardo (43 anos), Catarina (40) e Teresinha (32) - e os nove netos (cinco rapazes e quatro raparigas, entre os 10 anos e os 5 meses).

"Os miúdos hoje, mesmo cristãos, parecem completamente descristianizados. Outro dia levei um dos meus netos à missa e no momento da comunhão ele perguntou-me porque é que o padre estava a beber água." Ri-se. "Coitadinho, é pequenino, tem 3 anos, mas no meu tempo éramos mínimos e já sabíamos essas coisas." Lembra-se de a mãe lhe ter dito, "tinha uns 7 anos e nunca me esqueci", de que na fé há mistérios "e se não introduzes esse conceito do mistério, daqui por dois ou três anos não tens fé nenhuma". "Porque depois chegamos àquela idade da razão e questionamos tudo." Dá como exemplo o momento em que a neta lhe perguntou, "quando viu a Zezinha no carro funerário, como é que ela ia para o céu de carro". Mas admite que "é muito estimulante conversar com estes miúdos de 6/7 anos sobre estes assuntos, porque fazem perguntas em que nós até podíamos pensar mas só tínhamos as respostas canónicas e não podíamos afastar-nos muito delas. Se não tínhamos tido as crises religiosas mais cedo".

Conta que também as teve - "toda a gente tem" -, aos 18 anos. E a culpa foi de Nietzsche, que lhe "abalou as convicções religiosas - que eram profundíssimas - durante uns dois anos". Como é que recuperou a fé? "Acabei por pôr o Nietzsche no lugar dele."

A aproximação do amigo João Vaz Guedes para desfazer a indecisão com o conselho de que em vez de escolher só um partilhemos dois pratos desvia Jaime - "Este restaurante é um sucesso. É giro, a Mané, mulher do João, é ótima cozinheira e no verão a esplanada é ótima. Está sempre cheio." Regressa ao tema depois de completarmos o pedido com vinho e uma entrada de perdiz de escabeche.

"Hoje as coisas são muito diferentes. Antigamente, quase toda a gente tinha uma base católica, mais formal ou mais profunda. Isso desapareceu. Há 50 anos, uma pessoa boa, fosse de esquerda ou de direita, tinha mais ou menos os mesmos valores, o conteúdo podia ser diferente mas os valores, no sentido de respeito pela palavra dada, coragem na afirmação das coisas, não corrupção, etc. eram os mesmos. Hoje, as pessoas têm éticas de justificação quase pessoais. Houve uma altura em que via telenovelas e havia uma frase recorrente: "Foste autêntico?" Isso significava fazer o que lhe dava na gana. A autenticidade é das coisas mais deseducativas que há. Se formos assim, fazemos coisas horríveis, somos selvagens. É aquela ideia de educar sem contrariar: não conheço uma criança que lave os dentes porque quer!" Acredita que a humanidade não pode viver muito tempo desta forma e aponta a grande volta a que já estamos a assistir no mundo.

Enquanto repartimos o saboroso escabeche, que chega acompanhado de dois copos de vinho branco, o politólogo explica que, sobretudo depois da Guerra Fria, vivemos anos de grande euforia "e adotou-se uma ética baseada na ideia liberal de que o mercado e a política competitiva, dos partidos, resolvem tudo e o povo é sábio e soberano". A realidade atirou-nos alguns baldes de água fria, mesmo em sociedades ricas como a americana. "Ainda agora estive nos Estados Unidos e é impressionante a quantidade de vagabundos em Nova Iorque e Washington, gente a dormir nas ruas a 200 metros da Casa Branca, do Metropolitan..." Jaime acredita que a sociedade chegou ao limite e está a modificar-se, sendo essa uma das razões de fundo destas mudanças a que assistimos em Inglaterra, agora em França, nos Estados Unidos.

"A vitória de Trump tem uma série de coisas curiosas, que vão desde a forma como curto-circuita os media com os tweets que está sempre a fazer até ao facto de ser uma vitória sobre tudo o que está estabelecido, do governo às forças vivas, importantes do país. E é uma vitória só dele. O Henry Kissinger diz isso: ele não deve nada a ninguém, fez aquilo da sua cabeça, com certa brutalidade afastou os concorrentes, tem sentido de humor, é divertido e tem os truques todos de um orador para este tipo de público: faz caras, cara de mau: I"m coming for Arizona! I won"t tell you how much Obamacare is going to cost next year, because you"ll be sad... É um artista."

A perdiz já se foi, ficou o vinho para fazer valer os filetes de uma garoupa fresquíssima com arroz de grelos, irmãmente repartidos. Pergunto-lhe como evoluirá a relação destes novos Estados Unidos com a Rússia. Diz-me que os tipos caracteriológicos de Trump e Putin são próximos, mas isso tanto gera afinidades como animosidades. "É preciso ver que a Rússia hoje não tem muito mais instrumentos para se afirmar como potência, sobretudo com a baixa do oil & gas." Dá-me o retrato de um país que se mantém como segunda maior potência militar do mundo, mas que tem apenas um aliado seguro, a Síria - "e tem de cuidar dele", mesmo que, graças a uma alteração política, tenha conseguido um novo apoio: "O Egito, que na questão da Síria passou a alinhar com os russos." Conversar com um homem que conhece profundamente a história, estuda os fluxos geopolíticos mundiais e consegue adivinhar onde virão pulsar novas tensões e ameaças deixa-nos inevitavelmente a sensação de termos entrado no enredo de um filme de espiões. Como se tivéssemos acesso a informação que altera a nossa visão do mundo e nos revela uma dimensão a que dificilmente temos acesso em noticiários ou comentários políticos, própria de quem ensinou durante muitos anos e continua a ter curiosidade de aprender, questionar e entender, mais do que os factos, os eventos que a eles conduziram. Jaime fá-lo com a naturalidade de quem tem o entendimento teórico, conhece os intervenientes e sabe como valorizar uma mensagem - além de escritor, foi professor no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, dirigiu o jornal O Século e fundou "as duas revistas de direita que se publicaram em Portugal: Política e Futuro Presente, que começou em 1980 e chegou a ter três mil assinantes".

Traça um mapa geopolítico. "As grandes potências: Estados Unidos, Rússia, China, Índia, Japão, vão ter políticas nacionais muito distintas, há uma viragem total, até porque uns provocam outros. Não sei se é bom ou uma desgraça completa, é assim, uma contraglobalização que resulta dos problemas que a globalização - com os seus grandes méritos - trouxe trouxe às classes médias e médias baixas trabalhadoras do mundo ocidental."

Lamenta que hoje entre os políticos e até nas empresas haja grande desconhecimento histórico, porque o considera essencial para entender o mundo. "Eu fiz o liceu no Porto, onde nasci, e tenho uma enorme gratidão aos professores que tive, que nos faziam gostar e ter curiosidade de saber porque é que as coisas são assim e não de outra maneira." Exemplifica com o caso da Crimeia - "que toda a vida foi russa, o Kruschev é que se lembrou de mudar" - e a sua ocupação pela Rússia. "Eu não acho nada que o Putin queira conquistar a Europa - sou muito pouco politicamente correto nisso. Não creio que seja uma espécie de Gengis Khan ou Hitler. Acontece que a Rússia não tem fronteiras naturais e passou a vida a ser invadida, não foram só os franceses e os alemães: foram polacos, mongóis, letões, suecos, todo o bicho-careta invadiu a Rússia! Putin é um nacionalista, e simplesmente quer proteger o seu espaço."

Para Jaime Nogueira Pinto, é uma tragédia que analistas e comentadores internacionais continuam habituados "àquela papa doce da Guerra Fria, que era contar mísseis dos dois lados". Mas isso já não serve para entender uma sociedade internacional muito instável, perigosa, fragmentada e cuja compreensão obriga a reflexão. Nada é preto ou branco. "Esta coisa de dizermos que uns Estados são bons e outros maus... O único que até hoje usou armas nucleares foi a maior democracia do mundo, a mais antiga (EUA), e num processo complicado, porque foi escondido e o que o Japão queria foi-lhe dado depois, que era manter o imperador. Mas isto abriu portas que ninguém tinha aberto." Diz que o maior perigo que enfrentamos é a proliferação de armas nucleares (embora dificilmente caiam em mãos não estatais), químicas e biológicas. "O mundo está mais perigoso. Há nove Estados com nuclear: EUA, Rússia, China, França, Grã-Bretanha, Paquistão, Israel, Índia e Coreia do Norte. Mas daqui por dez anos teremos 20. Como se controla?"

Substituída a garoupa pelas almôndegas com puré, o branco a dar lugar ao tinto em copos apropriados, admite que há outro fator de perigo que torna o mundo interessante: a geometria variável dos povos aliados e inimigos. Os turcos, por exemplo, na Síria são inimigos do Daesh, tal como os curdos, mas fora dessa luta são dos maiores opositores dos curdos. Porque é que isto é assim? "São zonas de estatalidade débil. Na Europa Ocidental, a partir da formação dos grandes Estados, a política fez-se com os grandes e na generalidade as lealdades eram nacionais. Ali a exceção é regra. Sobretudo depois de a intervenção americana ter escaqueirado o que restava do Iraque, restam muito poucas lealdades nacionais. É um mundo interessante, mas muito mais perigoso até do que o da Guerra Fria." Diz que a questão principal é o papel dos agentes não estatais, como o Daesh: "O problema, como diz o Walid Phares (libanês naturalizado americano, conselheiro de Trump para o Médio Oriente), é que o sonho do não estatal é sê-lo."

Quase sem darmos por isso, sala e pratos ficaram quase vazios, mas não há vontade de abreviar a conversa. Jaime fala-me sobre uma das suas "teorias fora do baralho", fruto da experiência adquirida enquanto politólogo e empresário que passava aos alunos na faculdade. "No fim da primeira guerra civil na Colômbia, a confederação empresarial colombiana convidou-me para fazer uma apresentação numa conferência sobre como as empresas podiam contribuir para integrar soldados e guerrilheiros depois do conflito - eu tinha alguma experiência e conhecimento das soluções encontradas em Angola e em Moçambique e, a pretexto disso, fui a Bogotá. E, nas conversas que tive com eles e com mexicanos, venezuelanos, brasileiros, percebi que a grande preocupação eram os raptos. Não dos de cima, mas na classe média, do desgraçado que tem uma pequena loja e a quem pedem 50 mil dólares; é a democratização do sequestro. Ao passar da classe alta, que paga muito mas tem pouca gente e é mais difícil de fazer, além de implicar represálias, alarga-se o número de potenciais alvos." Serve o exemplo para demonstrar a teoria de que o grau de civilidade de uma sociedade não se mede pelas leis - "que acabam por ser mais ou menos semelhantes em toda a parte - mas pelos costumes na criminalidade". E lembra, sem romantizar, que em Portugal havia alguma ética nos carteiristas, que devolviam os documentos a quem roubavam - "ali no jardim da nossa casa, no Campo Grande, apareciam imensas" -, não havia crimes contra velhos ou crianças.

Pedidos os cafés e convencido a aceitar "só uma tirinha para provar" da tarte de framboesa da casa, viramos mais uma página num encontro que poderia prolongar-se pelo jantar sem que a conversa esmorecesse. Conta-me o que viveu em Angola, cujas 18 províncias conhece e onde tem ido com regularidade. Foi lá que fez o serviço militar, já depois do 25 de Abril. "Devo ter sido o último voluntário do Exército português. Mas toda a vida fui pela defesa do Ultramar, era o que mais faltava que chegasse a altura e eu ficasse quieto em casa!" Ainda hoje o considera um país extraordinário. "Ali, os brancos não são notícia. Na maioria dos países africanos, são admirados ou odiados, mas sempre notados; ali ninguém lhes liga nenhuma e isso faz uma diferença fabulosa. Além de que toda a gente fala português." Fruto de uma colonização desigual - "Nunca houve em Moçambique o pequeno branco que existiu em Angola; há cem anos, viviam 15 mil portugueses em Angola, todos homens" -, Moçambique é uma realidade distinta e foram as suas especificidades que o levaram a ali montar um negócio de segurança privada. "Eu e os meus sócios na Delta/Moseg, João Pereira Coutinho, Vítor Ribeiro e Alberto Chipande, achámos importante fazê-lo num país como aquele." Como estão as empresas a funcionar num momento particularmente difícil daquela economia? "Temos sobrevivido, mas é sempre um sufoco. Ainda assim, o país agora está mal, mas se a exploração de gás arrancar em breve pode ficar bem."

Porque nunca teve patrões, foi diversificando interesses. "Tenho uma sociedade que faz análise e aconselhamento estratégico das empresas que atuam nas zonas da nossa antiga África, da lusofonia, mas também no Magrebe e na África Austral." As consultas mais comuns das empresas-clientes relacionavam-se com a paz e a guerra e o empresário acredita que agora, voltando o mundo a ser incerto, voltará a ser essa preocupação. Dos seus negócios, o mais recente é a Quirón, batizada com o nome do centauro que educou Aquiles - "é a ideia da forma do animal com a cabeça do homem, um ser nobre" -, que criou para minimizar os problemas da falta de entendimento de diferentes culturas. "Grande parte dos quadros portugueses que vão para África ou para outros sítios não vão preparados do ponto de vista cultural, histórico e político para as sociedades onde vão instalar-se e isso leva a erros de casting e comportamento muito nocivos para o negócio." O que a Quirón faz é formar quadros nessa vertente.

Bebemos os segundos cafés e temos de voltar ao trabalho. Já a fazer a Rua dos Correeiros conta-me que nunca conduziu - "nem eu nem a Zezinha", tem um motorista que o leva onde precisa. "Alguns amigos implicam comigo, mas não me importo nada de pagar por aquilo que não sei fazer." Tenho pena quando nos despedimos. Muitos assuntos ficaram de fora. Fica a promessa de a eles chegarmos noutro dia.

Moma

› Pão, azeite e azeitonas

› Água

› 2 copos de vinho branco

› 2 copos de vinho tinto

› Escabeche de perdiz

› Filetes de garoupa com arroz de grelos

› Almôndegas com puré

› Tarte de framboesa

› 4 cafés

Total: 52,6 euros

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