Sondagem. Marcelo ganha à primeira volta e até vai buscar votos a PCP e BE

Marcelo tem 62% das intenções de voto. E numa segunda volta derrotaria Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém

Marcelo Rebelo de Sousa ganhará à primeira volta e a larga distância dos adversários nas eleições presidenciais de janeiro.

O barómetro do Centro de Sondagens da Universidade Católica para a Antena 1, RTP, JN e DN dá ao professor 62% das intenções de voto nas presidenciais, contra apenas 15% de Sampaio da Nóvoa e de 14% de Maria de Belém.

Este resultado, a verificar-se para o antigo líder do PSD, seria esmagador, só ao nível do que o general Ramalho Eanes teve em 1976 quando se candidatou pela primeira vez a Belém. Só Mário Soares suplantou os mais de 60% de Eanes, quando se recandidatou a um segundo mandato, em 1991, e obteve 70,35% dos votos.

Nesta sondagem, só 3% dos portugueses inquiridos manifestam intenção de votar tanto na Marisa Matias , candidata do Bloco de Esquerda, como em Edgar Silva, o rosto escolhido pelo PCP para a corrida a Belém. Paulo Morais e Henrique Neto (que formaliza hoje no Tribunal Constitucional a candidatura à Presidência) apenas arrecadam 1% das intenções de voto.

Obviamente, que Marcelo Rebelo de Sousa obtém uma vantagem muito relevante entre os eleitores da coligação PSD/CDS, na ordem dos 72%, mas os dados demonstram que o ex-comentador político da TVI entra em todos os eleitorados, sendo o candidato mais nomeado entre os eleitores do PS, BE e CDU.

A distribuição do voto pelos eleitorados demonstra ainda que Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém dividem o PS ao meio. Tanto um como o outro acabam por obter a mesma percentagem nas intenções de voto entre os socialistas, ou seja, 18% cada um.

O número de indecisos, ainda muito elevado e que atinge os 40%, é maior à esquerda do que à direita.

O que se explica pelo facto de existir apenas um candidato claro de centro-direita, Marcelo Rebelo de Sousa, e pelo menos cinco candidatos à esquerda - Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém, Edgar Silva e Henrique Neto - o que inevitavelmente gera maiores dúvidas sobre em quem votar a 24 de janeiro.

Marcelo, que tem vindo a afirmar-se um candidato independente e a manifestar o desejo de fazer uma campanha contida nos meios - apesar de o PSD e CDS terem ontem reunido os respetivos conselhos nacionais para aprovarem o apoio à sua candidatura (ver pág. 14) -, consegue desta forma penetrar nos eleitorados que, à partida, lhe seriam mais hostis. Consegue sempre ficar acima de 25% nas intenções de voto entre os eleitores do PS, BE e CDU.

Dado curioso da sondagem é que os portugueses consideram que António Costa não terá grande durabilidade no poder, esperam que o governo socialista acabe por cair pela mão do futuro Presidente da República, já que 33% dos inquiridos pensam assim (ver texto ao lado). Ora Marcelo já disse que é partidário de governos duradouros e que fará tudo pela estabilidade política...

Colocando-se a hipótese de uma segunda volta entre Marcelo Rebelo de Sousa e Maria de Belém, o professor volta a ficar muito à frente nas intenções de voto, com 57%, contra apenas 17% da ex-presidente do PS. Nesta situação, 26% não souberam ou quiseram responder. O professor ficaria exatamente na mesma posição caso tivesse de enfrentar o ex-reitor da Universidade de Lisboa, Sampaio da Nóvoa.

Ficha técnica

Esta sondagem foi realizada pelo CESOP-Universidade Católica Portuguesa para a Antena 1, a RTP, o Jornal de Notícias e o Diário de Notícias nos dias 5 e 6 de dezembro de 2015. O universo alvo é composto pelos indivíduos com 18 ou mais anos recenseados eleitoralmente e residentes em Portugal Continental. Foram selecionadas aleatoriamente dezoito freguesias do país, tendo em conta a distribuição da população recenseada eleitoralmente por regiões NUT II e por freguesias com mais e menos de 3200 recenseados. A seleção aleatória das freguesias foi sistematicamente repetida até que os resultados eleitorais das últimas eleições legislativas nesse conjunto de freguesias (ponderado o número de inquéritos a realizar em cada uma) estivessem a menos de 1% dos resultados nacionais dos cinco maiores partidos. Os domicílios em cada freguesia foram selecionados por caminho aleatório e foi inquirido em cada domicílio o próximo aniversariante recenseado eleitoralmente na freguesia. Foram obtidos 1183 inquéritos válidos, sendo 58% dos inquiridos do sexo feminino, 34% da região Norte, 20% do Centro, 34% de Lisboa, 5% do Alentejo e 7% do Algarve. Todos os resultados obtidos foram depois ponderados de acordo com a distribuição de eleitores residentes no Continente por sexo, escalões etários, região e habitat na base dos dados do recenseamento eleitoral e das estimativas do INE. A taxa de resposta foi de 69%*. A margem de erro máximo associado a uma amostra aleatória de 1183 inquiridos é de 2,9%, com um nível de confiança de 95%.

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