"Preta de merda, queres apanhar um autocarro, apanhas no teu país"

Jovem colombiana foi esmurrada repetidamente por segurança dos transportes do Porto na noite de São João. Acusa-o de agressão e de racismo e queixa-se de que a PSP, chamada ao local, a ignorou e nem registou a ocorrência. PSP não esclarece dúvida; Sociedade de Transportes do Porto abriu um processo interno de averiguações e esclarece que o homem em causa está suspenso. Já a empresa de segurança privada 2045, à qual pertence, não respondeu às questões do DN.

O vídeo tem 17 segundos. Vê-se uma rapariga no chão, de cara para baixo, sangue sobre a calçada, e um homem barbudo, de uniforme onde se lê 2045, em cima dela. À volta pessoas gritam, insultam-no: "Gostavas que fosse a tua filha, gostavas, seu filha da puta?", diz uma voz de homem. "Exatamente", replica uma mulher. "Isto vai tudo para a polícia." A pessoa no chão é Nicol Quinayas, 21 anos, nascida na Colômbia, desde os cinco anos em Portugal. Tinha saído com as amigas Daniela Mendes e Tânia Marques, 20 e 21 anos, para a noite de São João, e estavam as três, passava das cinco da manhã de 24 de junho, na paragem do autocarro 800, no Bolhão, para voltar a casa. Acabaram no hospital, com Nicol a fazer uma TAC para ver se os murros que lhe deixaram a cara num bolo não tinham causado outras lesões. A polícia esteve no local mas segundo as raparigas nada lhes perguntou; na manhã de 25, quando Nicol foi à esquadra apresentar queixa, foi-lhe dito que não havia registo da ocorrência -- quanto mais a identificação do segurança.

"Tu aqui não entras preta de merda, queres apanhar um autocarro, apanhas no teu país." Esta é uma das frases que o "fiscal" - é assim que a Sociedade de Transportes Coletivos do Porto, em resposta ao DN, denomina a função do homem em causa - terá dirigido a Nicol. Ou a Nicol e a Tânia, na versão desta última, que se descreve como "preta" e a Nicol como "mulata". Uma testemunha, Cassiano Ferreira, copeiro de 24 anos que estava com amigos à espera de outro autocarro, ouviu outro insulto racista, dito pelo "fiscal": "Estes pretos não mudam". Cassiano, que não conhecia nenhuma das raparigas, conta o que viu: "Ela [Nicol] depois de ouvir aquelas coisas passou-se e mandou-o para a puta que o pariu. Ele - que é quase duas vezes eu, vê-se que faz culturismo - agarrou-lhe o pescoço. Ela tentou defender-se e tirar as mãos dele e ele dá-lhe o primeiro soco direcionado ao nariz, ela manda-se a ele furiosa e ele dá-lhe outro soco seguido de um gancho, daqueles socos de baixo que deixam as pessoas KO. Ela cai ao chão e ele mete-se em cima dela em posição de apreensão a torcer-lhe o braço para trás." Havia, conta, "imensa gente a ligar para a polícia" e quando os agentes chegaram o segurança disse: "Eu estava a tentar apreendê-la e ela ofereceu resistência". A polícia, garante Cassiano, "não perguntou nada a ninguém. Já vi muitas vezes este tipo de situação. A polícia acredita muito mais nos seguranças." Faz uma pausa. "Foi um caso de abuso de autoridade simples. Eles, os seguranças, têm um sentimento de impunidade."

"Ele bateu mesmo com ódio"

Mas como se chegou a isto? Tem a palavra Nicol: "Quando decidimos ir para casa, depois das cinco da manhã, chegámos ao metro dos Aliados e estava uma fila enorme para validar os bilhetes. A Tânia não tem passe porque não é do Porto e elas decidiram ir a pé até ao Bolhão. Como tenho passe e estava muito cansada por ter estado a trabalhar até às 10, disse-lhes que ia de metro e nos encontrávamos lá. Quando cheguei já estavam na paragem, no início da fila, e fui ter com elas. Umas senhoras que estavam atrás chamaram-me a atenção por estar a passar à frente e pedi desculpa. Disse-lhes que ia para o fim da fila se quisessem, mas elas disseram que não fazia mal porque eu era só uma e havia lugar para todos." As três amigas continuaram a falar, conta Nicol, mas quando o autocarro abriu as portas um homem avançou para ela. "Disse-me com maus modos 'à minha frente não passas', e agarrou-me. Dei-lhe um abanão. Ele ainda disse umas coisas mas fui andando e já estava de passe na mão para entrar quando veio o 'pica', agarrou-me no braço com muita força e disse: 'Tu aqui não entras'. Começou a ficar cada vez mais agressivo e quando dei por mim estava fora do autocarro. Olhei para os olhos dele, achei que estava alterado e disse-lhe que não estava capaz para estar a trabalhar. Acabei de dizer isto e ele dá-me dois socos. Fiquei atordoada, limpei o sangue e cuspi-lhe. Ele disse 'voltas a fazer isso e bato-te mais'. Fiz e ele deu-me outro soco. Caí de cara no chão e ele imobiliza-me, puxa-me o braço direito todo para trás, põe-me a mão na nuca e bate-me outra vez no chão com a cabeça e põe-me um joelho nas costas. Comecei a gritar, só sentia o sangue a escorrer e achei que me ia partir o braço. Ouvia pessoas a insultá-lo."

Se o problema era supostamente termos passado à frente das outras pessoas, por que motivo só as quis impedir a elas de entrar? Eu sou branca. Foi racismo. Perguntei porque é que eu podia passar e elas não. Ninguém me respondeu

"Está a falar com elas assim porquê? É doido?" A frase, conta Tânia, foi dita por um rapaz ao segurança da 2045. A versão da amiga de Nicol é ligeiramente diferente. "Ele - o pica - tinha-nos arrastado para o fim da fila depois de nos dizer 'pessoas como vocês só arranjam problemas'. Quando perguntámos 'pessoas como nós como?' ele disse 'pretas'. Corremos para a porta do autocarro e ele disse aquilo de irmos apanhar ao autocarro na nossa terra. Foi aí que o rapaz o interpelou." O segurança, garante Tânia, arrastou-as duas vezes para o fim da fila, deixando em paz Daniela. "Se o problema era supostamente termos passado à frente das outras pessoas", observa esta última, "Por que motivo só as quis impedir a elas de entrar?" A jovem só vê uma hipótese: "Eu sou branca. Foi racismo. Perguntei porque é que eu podia passar e elas não. Ninguém me respondeu."

"A segunda vez que ele nos tirou do autocarro puxou a Nicol pelo cabelo e depois atirou-me ao chão", relata Tânia. "Ela insultou-o e ele deu-lhe um soco com tanta força que a Nicol começou logo a sangrar. Empurrou-o para a largar e ele deu-lhe mais dois socos. Houve pessoas a tentar meter-se, aos gritos. E começaram a ligar para a polícia." A própria Tânia ligou para o 112. "Foi às 5.46 da manhã, ainda está gravado no telefone. Ele estava em cima dela e ela a chorar, a gritar 'por favor largue-me'. Sabe, eu vejo isto acontecer com outros mas quando é connosco ficamos completamente revoltadas. Ele bateu mesmo com ódio. Só aquela frase dele mostra isso. Não sei se teve algum transtorno com alguém da nossa raça mas isso não desculpa. Somos duas miúdas, não temos capacidade de lhe dar um estalo sequer. Bateu na Nicol como se estivesse a bater num homem."

"A polícia não nos defendeu"

Tânia, Daniela e Nicol confirmam a observação de Cassiano sobre os polícias que foram ao local. "A atitude da polícia foi vergonhosa completamente. Um polícia é uma autoridade responsável pela segurança pública. Mas não fizeram nada, não nos defenderam. Simplesmente afastaram-no de nós", indigna-se Tânia. Daniela ainda foi perguntar-lhes o que deviam fazer. "Responderam 'é como quiserem.' Questionei se tinham pedido identificações e eles disseram 'fazemos a nossa parte'. Mas não os vi pedir identificações." Nicol é a mais dura: "Não foram polícias. Não se comportaram como tal."

João Tavares, 18 anos, estudante, chegou ao local com um grupo de amigos quando a polícia já lá estava. "Acredito que a polícia primeiro tem de ouvir os dois lados - mas o pica que agrediu estava lá como se não fosse nada, a mão cheia de sangue, a fumar um cigarro. Ficámos chocados, porque ninguém o estava a repreender. Tinham de o ter levado."

Nas Relações Públicas do Comando Metropolitano do Porto, a chefe Olinda (é como se identifica) hesita quando o DN pergunta o que deveria ter acontecido num cenário como o descrito. "Se realmente isso aconteceu os agentes chegando ao local identificam as testemunhas e perguntam o que aconteceu. São recolhidos indícios e elementos de identificação." Quanto à possibilidade de detenção, nega-a num caso assim: "São crimes semi-públicos, tem de haver queixa." Mas não se trata de um caso de flagrante delito? A chefe Olinda acha que não. Questionada sobre se houve registo da ocorrência, diz que "tem de haver". O DN insiste: Mas foi efetuado registo desta ocorrência pelos agentes que foram ao local? Há pessoas identificadas no local? A graduada tergiversa: "Há um registo da ocorrência e pessoas identificadas." Mas não está a referir-se à queixa efetuada no dia 24, pela agredida? É que todas as pessoas com quem falei e estiveram no local dizem que a polícia não identificou ninguém, e a queixosa que quando foi à esquadra da Corujeira lhe disseram que não havia no sistema registo da ocorrência. A chefe Olinda decide não responder a mais nenhuma pergunta.

Acredito que a polícia primeiro tem de ouvir os dois lados - mas o pica que agrediu estava lá como se não fosse nada, a mão cheia de sangue, a fumar um cigarro. Ficámos chocados, porque ninguém o estava a repreender. Tinham de o ter levado

"A PSP foi chamada ao local por um funcionário da SCTP, tomou conhecimento da ocorrência e terá identificado ambos os protagonistas", afirma a divisão de comunicação da empresa de transportes, que adianta estar "o incidente em averiguação interna, dado que as versões dos acontecimentos não são coincidentes." O DN tenta saber de que versões se trata; a empresa não responde. Mas esclarece que "o indivíduo em questão tem funções suspensas até ao término do inquérito que está em curso."

Na sede do Porto da 2045, Miguel Pinho, que se identifica como gestor, pede perguntas por escrito, não aceitando sequer revelar se tem conhecimento da situação. As perguntas são enviadas a meio do dia 25, sem réplica até agora, como as chamadas do DN. Perguntado via Facebook sobre se é a pessoa em questão e quer apresentar a sua versão, um funcionário da 2045 que testemunhas creem ser o agressor de Nicol e Tânia não respondeu.

"Fui ao Portal da Queixa e na secção da 2045 está lá uma senhora a dizer que ouviu os comentários racistas. É muito importante ter testemunhas desses comentários. Esta manhã fui ao Instituto de Medicina Legal, isto tem de ir para a frente. A minha advogada ficou surpresa, disse à minha mãe que não sabia que ainda havia racismo deste. 'Pois, porque é branca', respondeu a minha mãe." Nicol fala com o DN na noite do dia 25. Às vezes as palavras atropelam-se, anda para a frente e para trás na narrativa, pede desculpa por estar nervosa, diz que lhe dói a boca. "Ao tempo que ando a negar isto. Cheguei a Portugal e fui para a escola e chamavam-me preta preta preta. Lembro-me de estar na Colômbia com calor, a brincar na rua com brancos e pretos e chego aqui e tenho frio e chamam-me preta. Via os outros miúdos e o meu coração acelerava. Ninguém tem de passar por isto." A voz soçobra. De vez em quando é de mais, como quando a puseram sozinha numa sala à espera de fazer o TAC. "Fui para um corredor chorar. Gritei, berrei. Sentia-me tão triste. Só me perguntava como é que alguém faz isto a uma miúda." Faz uma pausa, como quem ganha balanço para o que vem: " Isto só prova que há racistas. E que estão calados. E eu vou mexer neles. Vou acordá-los. Mas ele teve o maior azar da vida dele, porque fez isto a uma pessoa que está farta."

ATUALIZAÇÃO

Notícia corrigida às 12.56 de 3 de julho: ao contrário do que foi escrito no dia da publicação, a queixa de Nicol Quinayas à polícia foi efetuada logo no dia 24. O nome da STCP, Sociedade de Transportes Coletivos do Porto, também foi corrigido.

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