"Pôr os olhos" nele e baixá-los de vergonha

Antes de entrar em Apelação, estranha palavra jurídica, o bairro da Quinta da Fonte, blocos de seis andares, com empenas aproveitadas para murais algo insólitos: Nelson Mandela, Bob Marley, Salgueiro Maia...

Recentemente foram encontrados dois miliários em Loures, marcos de pedra a indicar uma via romana entre Olisipo (Lisboa) e Bracara (Braga). Talvez tenha sido isso a pôr a conversar cinco homens ociosos, ontem, em Loures, em duas mesas quase juntas, oito cadeiras, num largo da cidade, o 4 de Outubro. O mobiliário urbano era duro de sentar, mas melhor para sueca e para a convivência do que os três bancos de madeira corridos que havia ali, voltados os três para o cruzeiro.

Os bancos foram trocados, vítimas da necessidade de mudar que dá aos políticos por alturas das autárquicas, e ainda bem. A conversa pôde ser mais bem ouvida entre todos. Um homem de cabelos brancos, como os seus companheiros, disse: "O meu pai já vinha para aqui nos anos 1950, a ver passar os carros de Lisboa para o Porto."

Custa pensar que aquela rua estreita, a Rua da República, tão estreita que hoje é de uma só direção, já tenha ligado as duas grandes capitais. Mas deve ser uma vocação de Loures, ser importante nó rodoviário. Há quase um quarto de século, para chegar ali - ao edifício da câmara que fica a dois passos daquela conversa de ontem - um jovem político demonstrou que um burro subia mais depressa a Calçada de Carriche do que um Ferrari vermelho. Sorte a dele, o burro ganhou a corrida, mas ele perdeu a de Loures. E talvez por isso António Costa, no domingo, tenha ganho a glória. Atenção aos destinos que Loures tece.

Aquele largo chama-se 4 de Outubro e a rua chama-se da República, que aconteceu a 5. Um vizinho prédio azul explica a aparente contradição com uma lápide na frontaria: daquela velha casa, partiram "a 4 de 10 de 1910" oito cidadãos de Loures, "a Junta Revolucionária do Concelho", para irem fazer a república a Lisboa. E ela foi feita, o que não impediu que agora, no largo, uma recente Ervanária El-Rei D. Dinis Lda se apregoe com larga tabuleta. É um bom exemplo de generosidade.

Quando daquela evocação feita ao trânsito de há 60 anos, o cabo-verdiano Dino fez contas e revelou: "Eu sou ainda mais velho do que esse tempo, nasci em 1947, ano de fome." Ingenuamente, acrescentou: "Mas não me lembro desse ano." Há coisas como os marcos miliários, que marcam e parecem desaparecidos até voltarem a surgir. Dino é de Assomada, da ilha de Santiago que tem um poema intitulado "Fómi 47". Um cabo-verdiano para se lembrar do ano de uma fome, é porque ela foi terrível.

Às vezes a memória vai fixar-se àquele sítio verdadeiro e não consciente que determina as ações humanas - por exemplo, as mulheres desatarem a fazer filhos depois das guerras. Dino, aos 25 anos, depois de um ciclo seguido de cinco anos de fome, reagiu, fugindo. Já não podia, como na morna Fómi 47, "desanimado com a minha vida/ procurei assinar para São Tomé" - as roças de cacau já não aceitavam trabalhadores. Veio para Lisboa, porque a capital do Império já aceitava imigrantes das ilhas africanas por causa dos tantos emigrados que lhe fugiam a salto.

"Lisboa, ahh...", disse um companheiro branco, sugerindo o gosto dos recém-chegados pelas delícias da cidade. O mulato, os companheiros julgavam-no negro, abanou o bigode: "Não. Fui logo para o Alentejo, para as pedreiras de Évora." Outro branco disse: "Há lá mármores muito bonitos." O cabo-verdiano voltou a emendar: "Isso é Estremoz, fui para Évora, pedreiras de brita, trabalho de pobre..." Com a cabeça faziam agora todos que sim, conversa de conterrâneos. Dino não lhes disse que os três filhos tinham abalado para França e Suíça, não calhou, conterrâneos não se contam banalidades. Falam da rua estreita que já levou ao Porto ou do ano em que se nasceu ser de fome, disso sim, mas emigrar não é conversa entre portugueses.

Não fosse a rua ser de sentido único, virava-se para Lisboa, seguia-se até uma das muitas rotundas, deixava-se a várzea de Loures e começava-se a subir uma das colinas que a tapam do Tejo. Deixa-se uma antiga e pobre cidade e entra-se pela Estrada Nacional 250 acima, por Frielas. As colinas são suaves e o toque dos homens, desastrado. Antes de entrar em Apelação, estranha palavra jurídica, o bairro da Quinta da Fonte, blocos de seis andares, com empenas aproveitadas para murais algo insólitos: Mandela, Bob Marley, Salgueiro Maia...

Em 2008, negros e ciganos envolveram-se, ali, à tareia e com tiroteio. A palavra apelação quer também dizer "expediente para explorar a boa-fé ou os sentimentos dos outros para obter alguma vantagem": por exemplo, o candidato André Ventura a dizer ao conselho nacional do seu partido, PSD, para hoje "pôr os olhos" na sua campanha de Loures. Como se ela fosse exemplo: o essencial da campanha dele foi instigar desprezo pelos ciganos.

Em Loures, os polícias dos Contratos Locais de Segurança baixaram de forma abrupta as taxas dos crimes "violentos graves", graças a um combate difícil e paciente, inclusive, quando trabalharam com um vereador do PSD com o pelouro de segurança. No próximo fim de semana, africanos e ciganos vão fazer uma procissão, um jogo de futebol e uma festa na Quinta da Fonte, juntos. Nem todos são santinhos, mas dar uma olhada àquilo era bem mais saudável do que ouvir um oportunista desgraçado.

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João Gobern

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