Já nem há moradores para as marchas de Lisboa. "A gente só se dá com turistas"

"Alfama está a ficar vazia", admite Vanessa Rocha, a ensaiadora da marcha, que também já não vive no bairro. Nesta altura das festas de Santo António, os antigos moradores estão de volta.

Ouve-se o assobio cantado de um amola-tesouras, lá vem o velhote na sua bicicleta a pedir licença por entre a fila de tuc-tuc. Atravessa o Largo do Chafariz de Dentro, onde um restaurante tem fotografias dos pratos de sardinhas ao lado dos pratos de salsichas com batatas fritas e ovos estrelados, e desaparece por uma ruela. Manhã chuvosa em Alfama. Ruas praticamente vazias. Na quinta-feira já estavam montados os bares com placas coloridas que anunciam sangria e caipirinhas, bifanas e sardinhas. "Seja uma pessoa feliz, com o arroz doce da tia Beatriz", lê-se num dos cartazes. Escadinhas acima, escadinhas abaixo, espreitando pelos becos, grupos de turistas de impermeáveis puxam os trolleys pela calçada íngreme. Este é o retrato do bairro em vésperas de Santo António. Como canta este ano a marcha de Alfama: "A gente agora só se dá com turistas".

"Alfama está a ficar vazia", admite Vanessa Rocha, a ensaiadora da marcha. "No sábado passado fomos desfilar no pavilhão e tínhamos as bancadas cheias, não nos podemos queixar do nosso povo. Mas quando chegamos ao bairro, antigamente tínhamos o bairro todo à nossa espera e agora já não temos porque, depois do pavilhão, as pessoas vão todas para as suas casas que já não são aqui. Quem está à nossa espera são os turistas."

Vanessa sabe bem do que fala. Também ela já não mora no bairro. Cresceu nas ruas estreitas de Alfama, a brincar nos becos e a deitar-se tarde para ver os ensaios da marcha na coletividade do bairro, o Centro Cultural Magalhães Lima. "O meu pai começou a organizar as marchas em 1983. Eu acompanhava tudo. E só não fui mascote porque naquela altura ainda não havia mascotes", conta. Desfilou pela primeira vez na avenida da Liberdade e no Pavilhão Carlos Lopes em 1991: tinha 14 anos. "É uma sensação única. E depois fui todos os anos. Não falhei um. Fui marchante durante 19 anos." Di-lo com visível orgulho. Só deixou de marchar porque em 2010 assumiu a função de coreógrafa e ensaiadora. E os nervos são ainda maiores. "O coordenador da marcha é o João Ramos. Saímos da avenida no dia 12 e no dia seguinte ele já sabe qual vai ser o tema do ano seguinte. Começamos logo a trabalhar."

Os ensaios arrancam a 26 de abril. "Temos sorte. Em Alfama nunca temos falta de marchantes. Todos os dias eu tenho 48 marchantes nos ensaios. Ninguém falta." Vencedora nos últimos dois anos, mesmo com pouca gente a morar no bairro a marcha de Alfama tem sempre uma longa fila de inscritos. "As pessoas que são do bairro já não moram cá mas continuam a vir marchar aqui. Há muita gente que está na Margem Sul e vem todos os dias aos ensaios. E depois temos pessoas de outros bairros, da Madragoa, do Castelo, Alto Pina, São Vicente, que querem vir marchar connosco porque sabem que nós trabalhamos para vencer." E o que é ainda mais extraordinário é que, apesar das noites mal dormidas e de todo o trabalho, ninguém ali é pago: "Só o maestro e os músicos é que recebem salário porque aquele é o trabalho deles", garante Vanessa.

Antigamente é que era

Ouve-se um martelar insistente na rua de São Tomé, em Alfama. Arrastam-se barris de cerveja. Há homens encavalitados em escadotes a pendurar bandeirolas. Uma caixa de ferramentas aberta num canto do passeio. Ana Dias está a enrolar fitas vermelhas em volta de um gradeamento de madeira. Tem ainda muita madeira à mostra e muita fita por enrolar. "Temos de nos despachar. Amanhã já temos de ter tudo a funcionar", conta, sem parar de trabalhar. "Sempre fiz as festas. Já a minha mãe fazia, a minha avó também. Isto já vem de família", conta Ana, de 58 anos. "Fazer as festas" quer dizer que no Santo António ela tem uma barraca de comes e bebes no bairro onde nasceu, cresceu e sempre viveu, Alfama. No resto do ano, tem a sua vida normal, mas no Santo António vende bifanas, sardinhas, imperiais, "o normal" dos arraiais. "É uma tradição."

Mas as tradições já não são bem o que eram, queixa-se. "Antigamente", montavam-se mesas de madeira, bancos corridos que "éramos nós mesmos que fazíamos", "havia uma preocupação em enfeitar tudo com fitas e balões". Agora, há barracas que já são "pronto-a-usar" e tanto faz que sejam do Santo António como de outra festa qualquer, e cada vez mais é tudo feito em plástico, "sem graça nenhuma", diz Ana, que pagou 900 euros para poder estar instalada durante seis dias naquele canto inclinado. "Não sei se continuarei a fazer isto muito tempo..." E quando ela desistir muito provavelmente não haverá ninguém na família com vontade de continuar.

"Ai, menina, isto agora é tudo muito diferente." Tóni - o Tóni da Mouraria, como lhe chamam os rapazes que passam na rua - é um dos históricos do bairro. Tem 70 anos e antes de ser reformado foi mecânico. "Vivi aqui a minha vida toda, os meus pais tinham uma pastelaria", conta. Na juventude fez as suas tropelias. Tinha 17 anos quando desfilou pela primeira vez na marcha da Mouraria. Nesse ano, entre ensaios e desfiles, começou a namorar com outra marchante, mas quando os pais deles descobriram obrigaram-nos a casar. "Era assim, antigamente", diz, resignado. O casamento não o impediu de continuar a viver as festas no bairro como sempre: foi marchante durante 36 anos. "As pessoas não tinham televisão em casa, então juntavam-se na coletividade para ver televisão. E era ali que começava a nascer a marcha. Os pais acompanhavam as miúdas e toda a gente levava aquilo muito a sério. Ainda sou do tempo em que a marcha ia do Marquês de Pombal ao Terreiro do Paço. E havia grandes rivalidades entre os bairros e às vezes os desfiles no Pavilhão Carlos Lopes acabavam com pancadaria. Era uma luta renhida!"

Agora, Tóni ainda acompanha os ensaios da marcha da Mouraria e foi ver o desfile à Altice Arena mas acha que os jovens já não vivem tão intensamente este momento. Mas uma coisa boa do Santo António é que é um momento em que muita gente que saiu do bairro aproveita para vir comer sardinhas com os amigos. É quase um "regresso à terra": "As pessoas vão-se embora mas continuam a ser sempre da Mouraria."

O importante é o orgulho no bairro

À porta do restaurante Basílio vai ser instalado uma televisão grande. Para os moradores acompanharem o desfile da marcha da Mouraria na avenida na próxima terça-feira (e, já agora, para depois verem o campeonato de futebol). "Aqui no bairro ainda temos uma grande tradição", garante Andreia, de 22 anos, empregada no restaurante, que está temporariamente afastada da marcha porque tem um filho pequeno. "Mas para o ano já lá quero estar", garante. "Todos os anos, quando a marcha sai do Grupo Desportivo para ir para a avenida, o bairro todo sai à rua e vai aplaudir. É muito bonito." Só de falar nisso, Andreia até já se arrepia. "Gostava que a Mouraria ganhasse mas não é por isso que a gente marcha. A gente marcha porque marcha." A seu lado, Cátia, de 39 anos, garante que na Madragoa é igual: "Ainda no fim de semana passado fui à Altice Arena e fartei-me de chorar quando a marcha entrou. Os meus três filhos são marchantes" Cátia também foi marchante durante dez anos e lembra-se de como chegava ao fim da avenida com os pés quase em sangue - as mulheres da Madragoa desfilam descalças. "Mas é esse o espírito dos santos populares nos bairros."

"O Santo António une muito as pessoas dos bairros. É verdade que há cada vez menos moradores e que é uma pena ver as pessoas a irem embora, mas nesta altura volta tudo. Se não fosse o Santo António as pessoas desligavam-se", explica Carla Correia, de 49 anos, vice-presidente do Grupo Desportivo da Mouraria. Quase toda a gente se envolve nestes dias, seja tendo os seus "retiros" (barraquinhas), seja ajudando a enfeitar as ruas ou participando nas marchas. "As pessoas fazem muitos sacrifícios. Mas fazem-no pelo gosto pelo bairro, pelo orgulho de dizer que a festa aqui é melhor."

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