Costa: "Naturalmente, a ministra tem condições para ficar"

António Costa defende Constança Urbano de Sousa e diz que "é infantil pensar que consequências políticas significa demissões". E que continuarão a acontecer desgraças

Uma hora depois de ter chegado à Proteção Civil, o primeiro-ministro saiu e falou aos jornalistas para garantir que a ministra da Administração Interna fica e que o problema que é preciso resolver é estrutural. Se a ministra "não tivesse condições para ficar, eu não estava aqui ao lado dela", disse António Costa, sublinhando mesmo que "é infantil pensar que consequências políticas significam demissões". E foi mais longe, o primeiro-ministro, assumindo que desastres como o de Pedrógão, em que morreram 64 pessoas, e o de hoje, em que mais cinco pessoas perderam a vida, vão continuar a acontecer.

"Desejo que não haja mais mortes", afirmou o líder do governo, "mas há muitos feridos e pessoas desaparecidas", pelo que disse não poder garantir que o número não iria aumentar. E apontou a reforma das florestas como solução para problemas que se acumulam há décadas e que não têm resolução simples ou rápida. "Seguramente situações destas vão repetir-se", disse claramente, questionado sobre a necessidade de impedir novas tragédias. "Não há soluções mágicas e não vale a pena iludir os portugueses sobre um problema que se acumulou durante décadas."

E os portugueses entendem, acredita Costa, como terão de perceber, "porque são adultos, que os governos não têm varinhas mágicas".

O primeiro-ministro, que chegou à sede da Proteção Civil - onde a ministra da Administração Interna se reunira com as forças de combate de emergência ao final da tarde - pouco depois da 1.00. À saída, hora e meia depois, começou por dirigir palavras de "condolências às famílias das vítimas" e de "solidariedade a todas as populações" afetadas pelo fogo, sem esquecer "uma palavra de alento aos cerca de 12 mil operacionais" que durante o dia combateram e ainda combatem as chamas.

"Estado de calamidade a norte do Tejo", mais suspeitos detidos

Realçando a dureza de um dia particularmente difícil, com 523 ocorrências e "meios esticados ao limite numa fase do ano em que é mais difícil mobilizar pessoas", Costa lembrou que esta segunda-feira não será melhor, havendo ainda "risco muito elevado de incêndios no interior". Razão pela qual foi declarado estado de calamidade púbica a norte do Tejo, de forma a assegurar "meios e direitos aos voluntários que participem nestas missões".

Quanto a falhas e responsabilidades, o primeiro-ministro focou-se no "problema estrutural da floresta" que só pode ser resolvido a longo prazo. "Estivemos uma década com baixo nível de incêndios, o que gerou acumulação de material combustível e este é o segundo ano consecutivo de seca generalizada. Além disso, o tempo que está não tem correspondente ao que é normal nesta altura do ano e há ventos fortes que facilitam a propagação, explicou. Realçando porém que neste ano já foram identificados, detidos e postos em prisão preventiva mais suspeitos de fogo posto do que em anos anteriores.

Bombeiros chamados pelo Facebook? "Não se pode acorrer a tudo"

Questionado sobre a possibilidade de algo ter falhado, uma vez que neste domingo muitos nem sequer conseguiram entrar em contacto com a Proteção Civil e houve até autarcas a pedir bombeiros pelo Facebook, o primeiro-ministro foi claro: "Com 523 ocorrências, não há bombeiros para acorrer a tudo." Fazendo-se valer da estatística, sublinhou ainda que este é "o 22.º dia com mais ocorrências desde o princípio do século os meios não chegam." E repetiu que o que é preciso que ande é a reforma da floresta: "A reforma da Proteção Civil que se fez há dez anos foi para ganhar tempo, e o tempo esgotou-se."

Agora, a recentemente aprovada reforma das florestas "vai levar anos a fazer e a produzir efeitos, não se faz em quatro meses", disse António Costa, repetindo que "a situação que vivemos hoje, devido às alterações climáticas, vai prolongar-se nos próximos anos, por isso nada pode ficar como está".

Ilações, falhas e responsabilidades políticas não passam por demissões

Recordando que para dia 21 está marcado um Conselho de Ministros extraordinário para avaliar o relatório da Comissão Técnica Independente aos incêndios de Pedrógão, o chefe do governo assumiu que "têm de ser retiradas ilações" desse estudo. Mas nada que faça rolar cabeças. Para António Costa, mais do que falhas ou falta de meios, o problema é estrutural, "da floresta, do clima e de mais comportamentos dolosos e negligentes".

Porém, o "trabalho de grande qualidade" que foi produzido, fazendo a análise sistémica do problema e incluindo recomendações, deve servir para avançar para a necessária reforma da floresta, que implicará muito trabalho na próxima década, mas para o qual os autarcas estão disponíveis. E para introduzir mudanças na prevenção, incluindo "adotar medidas para reduzir a prática criminosa nas florestas."

De resto, "os portugueses são adultos e sabem que os governos não têm varinhas mágicas", pelo que só podem entender que este é um problema que vai demorar a resolver-se e pode fazer mais vítimas. E a ministra da Administração Interna "claro que tem condições para continuar".

Garantindo que todos os dias são tomadas decisões - "pelos comandos" regionais e locais sobre áreas de socorro prioritário, por exemplo, por empresas como a REN ou a EDP para repor a eletricidade em zonas afetadas, etc. -, Costa é pragmático: "Nada é perfeito." Mas tendo em conta que "dos 523 fogos deste domingo 400 foram extintos", há que relativizar e "analisar as coisas como elas são".

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