Ministro provoca incómodo na aliança de esquerda

Bloco de Esquerda não censura afastamento de Lamas mas queria a sua substituição precedida por um concurso internacional

A forma como João Soares geriu a substituição de António Lamas por Elísio Summavielle na presidência do Centro Cultural de Belém colocou-o debaixo de fogo da oposição PSD-CDS mas também causou mal-estar numa parte importante da plataforma política que suporta o executivo, a parte representada pelo Bloco de Esquerda.

"Não achamos normal esta lógica de nomeação [de Elísio Summavielle]", disse ao DN o deputado bloquista José Soeiro - que no entanto ressalvou sempre que "não há nenhum drama" em substituir uma pessoa que "está associada a um plano estratégico [para a zona Ajuda-Belém] que a tutela governamental não adotou".

Assim, de acordo com Soeiro, a nomeação do sucessor de Lamas só deveria acontecer depois de estar definido um novo plano estratégico. E a seguir deveria ser aberto, no seu entender, um concurso público internacional para escolha do gestor que pudesse "dar corpo" a esse plano, implementando-o.

Ouvido pelo DN, Elísio Summavielle contestou a visão bloquista, "Essas ideias são politicamente corretas mas politicamente iníquas". "Acho que há um grande concurso público que são as eleições e os resultados obtidos", acrescentou. "Sou funcionário público há 35 anos e tenho as maiores reservas aos concursos públicos. As equipas devem ser da escolha de quem lidera."

Na plataforma de esquerda que apoia o governo do PS foi esta a única manifestação de mal-estar. Pelo lado do PCP, Jerónimo de Sousa disse estar-se perante uma "substituição positiva". Mas isto "não pela pessoa em si": "Esperamos que não se trate da substituição de uma pessoa, mas sim da alteração de um projeto com o qual estávamos em total desacordo."

"A escolha do presidente do CCB é da responsabilidade do ministro da Cultura. O presidente demissionário teve uma responsabilidade direta na definição de uma estratégia para Belém-Ajuda, como já tinha feito em Sintra-Monte da Lua, onde o relevante são as medidas de mercantilização da cultura, que é bom para os turistas estrangeiros e mau para os portugueses, tendo em conta os custos", disse ainda Jerónimo de Sousa, citado pela Lusa. "O ministro tem essa responsabilidade. Podemos discutir o processo, mas é um direito do titular da pasta. Fico impressionado por ouvir PSD e CDS tão crispados com o processo, esquecendo-se o que fizeram em quatro anos."

No PS, não há quem se atreva a verbalizar alguma forma de contestação ao estilo agressivo com que João Soares conduziu a demissão de Lamas. Genericamente, os socialistas conhecem-lhe o estilo e acham que se João Soares conduziu assim o processo foi porque o primeiro-ministro António Costa lhe deu cobertura. O próprio João Soares afirmou-se ontem de consciência tranquila: "Estou habituado às críticas e, passe a imodéstia, estou absolutamente imune. Não tenho nada que me pese na consciência."

Gabriela Canavilhas, ex-ministra socialista da Cultura, saiu em socorro do atual titular da pasta: "O governo precisa de ter nas suas instituições líderes que deem corpo à sua estratégia. Se essa estratégia fica comprometida, será melhor que seja concretizada por outro protagonista."

Quem se indignou muito foi uma ex-ministra da Cultura de um governo do PSD. Num artigo publicado publicado no Observador, Teresa Patrício Gouveia - cujas intervenções públicas são muito raras - escreveu: "Em 40 anos de democracia nunca presenciei, como agora, um tal espetáculo de grosseria e despudor e de falta de respeito pelo serviço público por parte de um político com responsabilidades públicas."

No Parlamento, PSD e CDS consideraram a forma como Lamas foi substituído como "prepotente" e "anormal". Para Sérgio Azevedo, deputado do PSD, o facto de ter "havido uma pressão prévia junto da imprensa, onde são anunciadas pré-substituições de determinados cargos" é algo que suscita "alguma preocupação". Na mesma linha, o deputado do CDS Hélder Amaral disse não lhe parecer "normal e correto que uma demissão seja feita com recados e via imprensa". "Da parte do PS estes comportamentos são frequentes e não fica nada bem à imagem da democracia e da governação", acrescentou.

Desde que tomou posse como ministro da Cultura, João Soares já nomeou a nova diretora-geral do Património. Paula Silva, antiga diretora-geral de Cultura da Região Norte, substituiu o interino João Carlos dos Santos, que, por sua vez, substituiu Nuno Vassallo e Silva.